A paisagem estratégica do Mediterrâneo, outrora celebrada como o grande anfiteatro onde civilizações se cruzavam com a elegância de quem sabia que o mar era simultaneamente estrada e muralha, transformou‑se num corredor estreito onde cada actor regional disputa centímetros de influência como se estivesse num mercado de peixe ao fim da tarde. O Estreito da Sicília, que alguns ainda insistem em imaginar como uma espécie de varanda tranquila entre continentes, tornou‑se um palco de tensões sobrepostas, onde a Turquia, com a subtileza diplomática de um aríete, marca presença na margem sul, enquanto a Rússia, sempre fiel ao seu gosto por geografias problemáticas, mantém a sua mão pesada sobre a Cirenaica. A isto junta‑se a instabilidade crónica que escorre do Sahel para o Corno de África, como se a geografia tivesse decidido transformar a região num laboratório permanente de crises. O resultado é simples pois quem procura serenidade naquele corredor marítimo encontra apenas a confirmação de que o Mediterrâneo deixou de ser um mar e passou a ser um diagnóstico.

Mais a oeste, a situação melhora apenas o suficiente para que se possa dizer, com ironia, que pior seria difícil. A Argélia, fiel ao seu estilo assertivo, reivindica zonas marítimas adjacentes com a convicção de quem sabe que a Europa, dependente do seu gás, responderá com a mesma ousadia de um gato assustado. A prudência europeia, celebrada em relatórios oficiais como “equilíbrio estratégico”, mais não é do que a velha hesitação de um continente que perdeu o hábito de decidir e que agora se limita a reagir, sempre tarde, mal e com a esperança infantil de que o problema desapareça se ninguém falar dele alto demais. A dependência energética, que deveria ter sido resolvida há décadas, tornou‑se o grilhão que condiciona cada gesto diplomático, cada nota verbal e cada reunião de ministros que fingem ter soluções enquanto rezam para que o inverno seja ameno.

Entretanto, no sudeste, prepara‑se um movimento migratório de grande escala, previsível como a mudança das marés e tão inevitável como a sucessão das estações. A travessia, que alguns espíritos mais dados ao dramatismo bíblico comparam ao Mar Vermelho, não é um fenómeno súbito, mas o culminar de pressões acumuladas com guerras prolongadas, colapsos estatais, desertificação acelerada, economias destruídas e redes criminosas que transformaram a mobilidade humana num negócio mais lucrativo do que muitos sectores legais. A Europa, que há anos se entretém a discutir quotas, pactos e mecanismos de solidariedade, verá chegar às suas fronteiras uma vaga que não se compadece com debates parlamentares nem com comunicados de imprensa. O caos aproxima‑se, não como metáfora, mas como consequência lógica de um sistema internacional que perdeu a capacidade de gerir as suas próprias contradições.

O colapso do império marítimo americano, que durante décadas garantiu a segurança das rotas globais com a mesma naturalidade com que um guarda‑sol protege da chuva, repercute‑se directamente sobre nós. A hegemonia naval dos Estados Unidos, outrora incontestável, foi corroída por guerras longas, prioridades internas e a ascensão de potências que perceberam que o mar continua a ser o espaço onde se decide o poder real. A Europa, habituada a delegar a sua segurança marítima como quem subcontrata um serviço de limpeza, descobre agora que a factura chegou e que não há desconto possível. A fragilidade das rotas, a vulnerabilidade dos estreitos e a crescente competição naval revelam um continente que, apesar de se proclamar actor global, não tem meios para garantir a sua própria sobrevivência logística.

O Mediterrâneo, longe de ser um espaço de convivência, tornou‑se um espelho das fragilidades europeias. A Turquia, com a sua política externa assertiva, joga simultaneamente em vários tabuleiros, explorando cada hesitação europeia com a precisão de um estratega que conhece bem a psicologia do adversário. A Rússia, apesar das suas dificuldades internas, mantém uma presença firme na Líbia, garantindo que qualquer tentativa europeia de estabilização será sempre negociada com Moscovo. O Sahel, transformado num corredor de instabilidade, projecta para norte fluxos de violência, pobreza e deslocação que nenhum muro, físico ou jurídico, conseguirá travar. O Corno de África, marcado por conflitos intermináveis, acrescenta mais uma camada de pressão a um sistema já saturado.

A Europa, que gosta de se imaginar como farol de racionalidade, reage a tudo isto com a serenidade de quem observa um incêndio e decide criar um grupo de trabalho para avaliar a cor das chamas. A sua política externa, frequentemente apresentada como “multilateralismo eficaz”, mais parece um exercício de contorcionismo moral onde se tenta agradar a todos sem desagradar a ninguém, acabando inevitavelmente por desagradar a todos. A dependência energética da Argélia, a necessidade de manter relações funcionais com a Turquia, o receio de confrontar a Rússia e a incapacidade de lidar com a instabilidade africana revelam um continente que perdeu o sentido de prioridade e que vive num estado permanente de reacção tardia.

O movimento migratório que se aproxima não é apenas um desafio humanitário, mas um teste à própria coerência europeia. A retórica da solidariedade, repetida em discursos oficiais, colide com a realidade de fronteiras saturadas, sistemas de acolhimento exaustos e sociedades que, apesar de se proclamarem abertas, revelam uma crescente fadiga perante a chegada contínua de pessoas em fuga. A comparação com a travessia do Mar Vermelho, embora exagerada, ilustra bem o sentimento de inevitabilidade que paira sobre o continente. A Europa, que durante décadas beneficiou da estabilidade global garantida por outros, enfrenta agora as consequências de um mundo onde as grandes potências já não asseguram a ordem marítima que permitia o seu conforto.

O colapso parcial da ordem marítima americana, longe de ser um fenómeno distante, afecta directamente a economia europeia, dependente de rotas seguras para importar energia, matérias‑primas e produtos essenciais. A vulnerabilidade dos estreitos da Sicília, Gibraltar, Suez, Bāb al‑Mandab e Hormuz revela que o continente está rodeado por gargalos estratégicos que podem ser facilmente condicionados por actores externos. A Europa, que se habituou a pensar em termos de mercado, descobre agora que o mar não é apenas uma via comercial, mas um campo de batalha onde se decide quem controla o fluxo de riqueza global.

A situação no Mediterrâneo ocidental, condicionada pelas reivindicações argelinas, demonstra como a dependência energética limita a margem de manobra europeia. A prudência, apresentada como virtude diplomática, é na verdade a incapacidade de confrontar um parceiro essencial. A Argélia sabe disso e age em conformidade, expandindo a sua zona de influência marítima com a confiança de quem sabe que a Europa não arriscará um conflito que possa comprometer o abastecimento energético. A política externa europeia, presa entre princípios e necessidades, acaba por sacrificar os primeiros em nome das segundas, revelando uma fragilidade estrutural que nenhum discurso consegue disfarçar.

A pressão migratória, alimentada por conflitos no Sahel e no Corno de África, intensifica‑se à medida que as condições climáticas e económicas se deterioram. A Europa, que continua a debater‑se com a criação de um mecanismo comum de gestão migratória, enfrenta uma realidade que não espera por consensos. A travessia do Mediterrâneo, cada vez mais perigosa, não impede que milhares tentem a sorte, impulsionados pela convicção de que qualquer risco é preferível à permanência em regiões devastadas. A comparação com o Mar Vermelho, embora retórica, sublinha a dimensão épica do fenómeno e a incapacidade europeia de lhe dar resposta.

O colapso do império marítimo americano, embora parcial, altera profundamente o equilíbrio global. A Europa, que durante décadas beneficiou da protecção naval dos Estados Unidos, enfrenta agora um mundo onde essa garantia já não é absoluta. A ascensão de novas potências marítimas, a competição por rotas estratégicas e a crescente militarização dos estreitos revelam um cenário onde o continente europeu está mal preparado para defender os seus interesses. A dependência de terceiros, que durante anos foi vista como pragmatismo, revela‑se agora uma vulnerabilidade crítica.

Em suma, o Mediterrâneo tornou‑se o espelho de um continente que perdeu a capacidade de antecipar, decidir e agir. A Turquia avança, a Rússia consolida, a Argélia reivindica, o Sahel desagrega‑se, o Corno de África implode, e a Europa observa tudo isto com a serenidade de quem acredita que a história é um fenómeno que acontece sempre aos outros. O caos aproxima‑se, não como profecia, mas como consequência. E quando finalmente chegar, o continente descobrirá que a sua maior fragilidade não estava nos estreitos, mas na ilusão confortável de que o mundo continuaria a funcionar segundo regras que ninguém respeita.

Bibliografia Real

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