HOJEMACAU – O OCIDENTE DESFEITO (IV) JORGE RODRIGUES SIMAO – 04.06.2026

A publicação da primeira encíclica de Prevost, intitulada Magnifica Humanitas, surge num momento histórico em que a normalização da guerra, a erosão das instituições democráticas e a aceleração tecnológica convergem para um cenário de profunda incerteza antropológica. O novo pontífice, consciente da gravidade do tempo presente, decide colocar a humanidade diante de um espelho moral, convocando-a a um exame de consciência colectivo. A sua afirmação inicial de que “a primeira das primeiras coisas é a paz” funciona como chave hermenêutica para todo o documento, que se apresenta como uma tentativa de recentrar a doutrina social da Igreja naquilo que considera ser o fundamento de qualquer ordem justa como a recusa da violência como horizonte inevitável. Esta prioridade, longe de ser meramente espiritual, assume uma dimensão política e cultural que obriga a repensar a forma como as sociedades contemporâneas se relacionam com o conflito armado, com a tecnologia e com a própria ideia de progresso.

Prevost dirige-se “a todos os homens de boa vontade”, retomando a tradição conciliar que ampliou o destinatário do magistério social para além da comunidade católica. Esta abertura universalista, que remete para o espírito do Concilio Vaticano II, é aqui reinterpretada à luz de um mundo globalizado, onde as fronteiras entre esferas religiosas, políticas e económicas se tornaram porosas. A encíclica não se limita a diagnosticar problemas; procura, antes, oferecer critérios de discernimento que permitam enfrentar os desafios emergentes sem ceder ao fatalismo. A pergunta que o Papa coloca “queremos erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos?” não é apenas retórica. Ela traduz a tensão entre dois modelos civilizacionais; um centrado na competição ilimitada, outro orientado para a cooperação e para a dignidade humana.

A referência à “normalização da guerra” constitui um dos eixos centrais do texto. Prevost observa que, em várias regiões do mundo, o conflito armado deixou de ser percebido como uma anomalia e passou a integrar o quotidiano político, económico e mediático. A Europa, em particular, é criticada pela incapacidade de promover soluções diplomáticas duradouras, preferindo frequentemente transformar crises regionais em oportunidades de rearmamento. Esta crítica, embora formulada em termos prudentes, reflecte uma preocupação crescente com a erosão da cultura da paz e com a tendência para aceitar a violência como instrumento legítimo de gestão internacional. A encíclica insiste que a paz não é apenas ausência de guerra, mas um processo que exige instituições sólidas, justiça social e compromisso ético. Neste sentido, Prevost aproxima-se de debates contemporâneos sobre segurança humana e sobre a necessidade de repensar o papel dos Estados e das organizações internacionais.

Outro elemento relevante é a crítica à idolatria da finança e ao domínio crescente dos algoritmos na tomada de decisões públicas e privadas. Se, no século XIX, Leão XIII procurou mediar entre capital e trabalho, Prevost assume uma posição mais incisiva ao denunciar a subordinação do trabalho humano às lógicas especulativas. A encíclica descreve um sistema económico que tende a reduzir a pessoa a variável descartável, enquanto eleva a eficiência técnica a critério supremo. Esta crítica articula-se com a denúncia do “culto do algoritmo”, que pretende transformar a moral em computação e o Estado em aparelho tecnocrático. A referência implícita a figuras como Musk ou Thiel, embora não nomeadas, evidencia a preocupação com a crescente influência de actores privados na definição de agendas políticas globais. A encíclica alerta para o risco de uma sociedade governada por “tecno-teólogos de ocasião”, cuja visão do mundo se baseia numa confiança quase religiosa na capacidade da tecnologia para resolver todos os problemas humanos.

Neste contexto, a citação de Tolkien “não toca a nós dominar todas as marés do mundo; o nosso dever é fazer o possível para a salvação dos anos em que vivemos” funciona como contraponto simbólico ao imaginário transumanista. Prevost utiliza-a para sublinhar que a missão humana não consiste em transcender a própria condição, mas em cuidar do mundo concreto, preservando-o para as gerações futuras. Esta perspectiva aproxima-se de debates actuais sobre ética tecnológica e sobre os limites da intervenção humana na natureza e no próprio corpo. A encíclica rejeita explicitamente as narrativas que prometem a superação da fragilidade humana através da fusão com máquinas ou da manipulação genética ilimitada. Para Prevost, tais projectos não representam progresso, mas fuga à responsabilidade moral.

A crítica ao transumanismo é acompanhada por uma reflexão mais ampla sobre a condição humana. A encíclica insiste que a vulnerabilidade não é defeito, mas dimensão constitutiva da existência. A tentativa de eliminar a fragilidade conduz, paradoxalmente, a formas mais subtis de desumanização. Prevost argumenta que a verdadeira grandeza da humanidade reside na capacidade de reconhecer os próprios limites e de agir com responsabilidade dentro deles. Esta visão contrasta com discursos que celebram a autonomia absoluta e a auto-suficiência tecnológica. Ao colocar a “Magnífica Humanidade” diante do espelho, o Papa convida a uma redescoberta da interdependência e da solidariedade como fundamentos de qualquer projecto civilizacional sustentável.

A dimensão política da encíclica torna-se evidente quando Prevost aborda o estado actual das democracias ocidentais. O documento descreve um cenário marcado pelo “esgarçamento das ligações sociais” e pelo “triunfo da desesperação narcisista”. Esta análise, embora formulada em linguagem pastoral, aproxima-se de diagnósticos sociológicos que identificam a fragmentação comunitária e a polarização como ameaças estruturais. A encíclica sugere que a crise democrática não pode ser compreendida apenas em termos institucionais; ela tem raízes culturais profundas, relacionadas com a perda de sentido comum e com a incapacidade de construir narrativas colectivas inclusivas. A política, reduzida muitas vezes a gestão técnica ou a espectáculo mediático, deixa de oferecer horizontes de esperança. Daí que o texto possa ser lido, por observadores laicos, como um manifesto político não no sentido partidário, mas enquanto proposta de regeneração ética da vida pública.

Prevost propõe uma visão alternativa da política, centrada na dignidade humana e na responsabilidade partilhada. Esta visão exige repensar o papel do Estado, do mercado e da sociedade civil. A encíclica critica modelos que subordinam o bem comum a interesses económicos ou geoestratégicos, defendendo uma concepção de política como serviço. Esta abordagem ecoa tradições filosóficas que concebem a comunidade política como espaço de realização humana e não apenas como mecanismo de regulação. Ao mesmo tempo, Prevost reconhece que a política contemporânea enfrenta desafios inéditos, desde a desinformação digital até à crescente influência de actores não estatais. A encíclica não oferece soluções técnicas, mas propõe critérios éticos que podem orientar decisões em contextos complexos.

A reflexão sobre a tecnologia ocupa lugar central no documento. Prevost não adopta uma postura anti-tecnológica; pelo contrário, reconhece o potencial transformador da inovação. Contudo, insiste que a tecnologia deve ser integrada numa visão antropológica que respeite a dignidade humana. A encíclica alerta para o risco de uma sociedade em que decisões fundamentais são delegadas a sistemas automatizados, sem escrutínio democrático. Esta preocupação está alinhada com debates contemporâneos sobre governança algorítmica e sobre a necessidade de garantir transparência e responsabilidade na utilização de inteligência artificial. Prevost sublinha que a tecnologia não é neutra; ela incorpora valores e pode reforçar desigualdades se não for orientada por princípios éticos claros.

A encíclica termina com um apelo à construção de uma cultura da paz, entendida como tarefa colectiva que envolve Estados, instituições religiosas, organizações internacionais e cidadãos. Prevost insiste que a paz não é utopia, mas horizonte possível, desde que se reconheça a interdependência global e se rejeite a lógica da força. Este apelo adquire particular relevância num contexto em que conflitos regionais se multiplicam e em que a retórica belicista ganha espaço no discurso público. A encíclica propõe uma visão alternativa, baseada na cooperação, no diálogo e na justiça social. Esta visão, embora exigente, procura oferecer um caminho para superar a normalização da violência.

Em síntese, Magnifica Humanitas apresenta-se como documento de grande densidade ética e política. Prevost procura actualizar a doutrina social da Igreja, enfrentando os desafios do século XXI com linguagem clara e visão abrangente. A encíclica não pretende oferecer respostas definitivas, mas estimular um debate global sobre o futuro da humanidade. Ao colocar a “Magnífica Humanidade” diante do espelho, o Papa convida a um exercício de introspecção colectiva, que pode constituir o primeiro passo para a construção de uma ordem internacional mais justa e pacífica. A sua mensagem, embora enraizada na tradição cristã, dirige-se a todos os que procuram alternativas à lógica da violência, da tecnocracia e da desumanização. Num tempo em que a guerra se torna “normal” e a tecnologia ameaça redefinir a própria condição humana, a encíclica de Prevost surge como convite urgente à responsabilidade, à prudência e à esperança.

Bibliografia

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