A economia, essa senhora de idade respeitável que se veste de números e fala em gráficos, é, afinal, uma velha aristocrata que disfarça a sua senilidade com fórmulas matemáticas e discursos tecnocráticos. Desde que Adam Smith, com a sua gravata escocesa e o seu ar de quem descobriu o Santo Graal do mercado, proclamou que a “mão invisível” guia os destinos humanos, o mundo passou a acreditar que o pão se multiplica por decreto da oferta e da procura. A “mão invisível”, essa entidade metafísica que substituiu Deus nas bolsas de valores, tornou-se o novo dogma da fé económica e, como todo dogma, não se discute, adora-se.
O princípio da utilidade, que Bentham e Mill transformaram em religião secular, é hoje o catecismo dos consumidores. O homem moderno não compra pão para comer, mas para exibir o seu poder aquisitivo; não adquire um automóvel para se deslocar, mas para se distinguir dos vizinhos. A economia, outrora ciência da escassez, converteu-se em teologia do excesso. O homo economicus é o novo santo padroeiro das sociedades liberais; um santo sem milagres, mas com cartão de crédito.
Karl Marx, esse profeta de barba bíblica, tentou avisar que o capital não é uma força natural, mas uma construção social que se alimenta da desigualdade. “O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas sugando trabalho vivo” (Marx, O Capital, 1867). E, no entanto, o vampiro prospera. A economia política, que deveria estudar as relações entre produção e poder, transformou-se numa liturgia de indicadores, onde o PIB é o novo sacramento e o défice o pecado original.
A teoria clássica, com Ricardo e Malthus, ensinou-nos que os recursos são finitos e que a população cresce como coelhos em época de cio. Malthus, pessimista por vocação, via na fecundidade humana uma ameaça à civilização. Se o bom reverendo vivesse hoje, ao ver as prateleiras dos supermercados repletas de produtos que ninguém precisa, talvez concluísse que o apocalipse chegou apenas disfarçado de Black Friday.
A economia moderna, com Keynes à cabeça, tentou devolver humanidade à equação. “A dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das antigas” (Keynes, The General Theory of Employment, Interest and Money, 1936). O problema é que as ideias antigas, como as dívidas públicas, nunca morrem; apenas mudam de nome. O neoliberalismo, esse filho bastardo do liberalismo clássico, prometeu liberdade e trouxe precariedade. O mercado, dizem, é livre mas apenas para quem o domina.
O princípio da racionalidade, outro dogma venerado, é uma ficção tão útil quanto a astrologia. O consumidor racional é uma criatura mitológica que decide com base em informação perfeita e preferências estáveis. Na realidade, o cidadão médio compra emoções embaladas em marketing. A publicidade é a alquimia moderna que transforma desejos em necessidades e necessidades em dependências. Como escreveu Thorstein Veblen, “o consumo conspícuo é a demonstração pública de riqueza” (The Theory of the Leisure Class, 1899). O luxo, outrora privilégio dos reis, tornou-se obrigação dos pobres endividados.
A economia comportamental, com Kahneman e Tversky, veio revelar que o ser humano é irracional por natureza mas a irracionalidade, convenientemente, também gera lucro. O erro é rentável, a distracção é monetizável, e a ignorância é um activo financeiro. O capitalismo descobriu que a estupidez tem valor de mercado. O algoritmo, esse novo oráculo, conhece melhor as nossas preferências do que nós próprios. A economia digital é o triunfo da vigilância sobre a liberdade pois o consumidor é simultaneamente cliente e produto.
O princípio da escassez, que outrora justificava a prudência, tornou-se argumento para a especulação. O petróleo escasseia, logo o preço sobe; a habitação escasseia, logo o lucro aumenta. A escassez é o perfume da ganância. Como escreveu Joseph Stiglitz, “os mercados por si só não conduzem à eficiência nem à justiça” (Globalization and Its Discontents, 2002). Mas quem se importa com justiça quando há dividendos trimestrais?
A economia internacional, com as suas balanças comerciais e taxas de câmbio, é uma ópera bufa onde cada país canta a sua ária de soberania enquanto vende a alma ao FMI. O livre comércio é livre apenas para quem tem navios e exércitos. Os tratados económicos, redigidos em linguagem diplomática, são pactos de submissão disfarçados de cooperação. A globalização, essa palavra que soa a progresso, é apenas o nome elegante da colonização financeira.
O princípio da produtividade, exaltado como virtude, é a nova forma de servidão. O trabalhador eficiente é o escravo ideal pois produz mais, reclama menos e acredita que o sucesso depende do esforço individual. A meritocracia é o conto de fadas do capitalismo tardio como uma narrativa que transforma desigualdade em mérito e exploração em oportunidade. Como observou Pierre Bourdieu, “a dominação simbólica é a forma mais eficaz de violência” (La Distinction, 1979). O trabalhador moderno é dominado não pela força, mas pela ideologia do desempenho.
A economia pública, que deveria servir o bem comum, tornou-se refém da contabilidade. O Estado, outrora guardião da justiça social, converteu-se em gestor de défices. A austeridade é o novo ascetismo de que cortar despesas é sinal de virtude, mesmo que o povo morra de fome. A política orçamental é uma penitência colectiva, onde o cidadão paga pelos pecados dos banqueiros. Como ironizou Paul Krugman, “a austeridade é uma ideia zumbi refutada pela evidência, mas que continua viva” (End This Depression Now!, 2012).
O princípio da concorrência, que deveria estimular a inovação, gera monopólios. As grandes corporações são impérios disfarçados de empresas. O mercado livre é um campo de batalha onde o vencedor dita as regras. A economia contemporânea é uma monarquia de multinacionais, onde o consumidor é súbdito e o Estado vassalo. A liberdade de escolha é uma ilusão cuidadosamente coreografada por departamentos de marketing.
A economia ambiental, por sua vez, tenta reconciliar o lucro com a sobrevivência do planeta. Fala-se em “crescimento sustentável”, expressão tão contraditória como “guerra humanitária”. O capitalismo verde é o novo disfarce da exploração pois vende consciência ecológica em embalagens recicláveis. Como advertiu Naomi Klein, “o capitalismo não pode resolver a crise climática porque é a causa da crise” (This Changes Everything, 2014). Mas o mercado, esse eterno optimista, acredita que até o apocalipse pode ser rentável.
O princípio da interdependência, que deveria unir as nações, apenas reforça a hierarquia global. Os países ricos exportam tecnologia e importam mão-de-obra barata; os pobres exportam esperança e importam dívida. A economia mundial é um teatro de marionetas onde o FMI e o Banco Mundial puxam os fios. A soberania é um conceito obsoleto substituído por ratings e spreads.
A economia, em suma, é a arte de transformar o invisível em visível de emoções em preços, desejos em produtos, vidas em estatísticas. É o mercado das ilusões, onde tudo se compra e nada se entende. O economista é o sacerdote deste culto moderno que fala em curvas de oferta como o padre fala em milagres. A fé é a mesma, apenas mudou o altar.
Como escreveu John Kenneth Galbraith, “a economia é extremamente útil como forma de emprego para economistas” (The Affluent Society, 1958). E talvez seja esse o seu maior mérito de manter ocupados os que explicam o inexplicável. O cidadão comum, perdido entre juros e inflação, continua a acreditar que o mercado é justo porque lhe disseram que assim é. A economia, afinal, é o mais sofisticado dos contos de fadas pois tem vilões, heróis e finais felizes, mas apenas para quem escreve as regras.
A economia financeira, esse ramo que se julga ciência exacta, é na verdade uma arte de ilusionismo. Os bancos centrais, com as suas taxas de juro e políticas monetárias, são mágicos de cartola que fazem desaparecer crises com um aceno de varinha ou, mais precisamente, com uma injecção de liquidez. “Quando a maré baixa, descobre-se quem estava a nadar nu”, dizia Warren Buffett, o filósofo dos mercados. E, de facto, quando o crédito seca, os impérios financeiros revelam-se castelos de areia. A economia, que deveria ser prudente, vive de apostas; e o economista, que deveria ser céptico, comporta-se como jogador de casino.
O princípio da confiança é o cimento invisível do sistema. Sem fé, não há investimento; sem esperança, não há consumo. A economia é uma religião sem teologia, mas com rituais diários: abrir a bolsa, consultar o índice, rezar pelo crescimento. O investidor é o novo crente, e o analista financeiro o seu confessor. A crise é o inferno, a recuperação o purgatório, e o lucro o paraíso. Como escreveu John Maynard Keynes, “os mercados podem permanecer irracionais mais tempo do que tu podes permanecer solvente”. Eis a parábola moderna da humildade.
A economia social, que deveria equilibrar o lucro com a dignidade humana, é tratada como apêndice sentimental. Fala-se em “responsabilidade corporativa” com a mesma sinceridade com que se fala em “amor verdadeiro” nas campanhas publicitárias. As empresas distribuem sorrisos e slogans ecológicos enquanto exploram mão-de-obra em países onde o salário mínimo é uma ficção. O capitalismo aprendeu a vender virtude e fá-lo com lucro. Como observou Amartya Sen, “o desenvolvimento é liberdade” (Development as Freedom, 1999), mas a liberdade, quando medida em euros, torna-se privilégio.
O princípio da inovação, exaltado como motor do progresso, é também o motor da obsolescência. Cada invenção nasce com data de validade; cada tecnologia é concebida para morrer jovem. O consumidor é condenado à eterna juventude do consumo sempre à procura do novo, sempre insatisfeito. A economia digital é o espelho narcísico da sociedade que reflecte o desejo de ser moderno, mesmo que à custa da própria identidade. O progresso, afinal, é apenas uma corrida contra o tédio.
A economia da informação, que prometia democratizar o conhecimento, acabou por privatizá-lo. Os dados são o novo petróleo, e as empresas tecnológicas os novos barões. A transparência é um mito conveniente de que o cidadão é observado, mas não vê; é medido, mas não compreende. Como escreveu Shoshana Zuboff, “a vigilância capitalista reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita” (The Age of Surveillance Capitalism, 2019). O mercado, que outrora vendia produtos, agora vende pessoas.
O princípio da eficiência, que deveria servir o bem comum, tornou-se dogma corporativo. Tudo deve ser optimizado como o tempo, o trabalho e até o lazer. A economia transformou o ser humano em algoritmo uma variável ajustável ao lucro. O trabalhador é avaliado por métricas, o estudante por rankings, o cidadão por crédito. A vida é uma folha de cálculo. Como ironizou Max Weber, “o destino do nosso tempo é caracterizado pela racionalização e intelectualização” (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, 1905). O resultado é uma sociedade que calcula tudo, mas compreende nada.
A economia política contemporânea é um teatro de sombras onde os governos fingem governar e os mercados fingem obedecer. As políticas fiscais são negociadas em jantares discretos, e as reformas estruturais são aprovadas em nome da “competitividade”. O cidadão, espectador pagante, aplaude sem entender o enredo. A democracia económica é uma ilusão pois vota-se em partidos, mas governa-se por índices. Como escreveu Joseph Schumpeter, “o capitalismo destrói as suas fundações culturais” (Capitalism, Socialism and Democracy, 1942). E fá-lo com elegância.
O princípio da redistribuição, que deveria corrigir injustiças, é tratado como heresia. Falar de impostos progressivos é blasfémia; defender o Estado social é subversão. O rico é virtuoso porque é rico; o pobre é culpado porque é pobre. A economia moral desapareceu, substituída pela moral económica. Como observou Thomas Piketty, “a desigualdade não é económica, é política” (Capital in the Twenty-First Century, 2013). Mas a política, capturada pelo capital, prefere ignorar o diagnóstico.
A economia cultural, por sua vez, tenta quantificar o incalculável. O valor da arte mede-se em bilhetes vendidos; o valor da educação em rankings internacionais. O saber tornou-se mercadoria, e o pensamento, investimento. A universidade é empresa, o aluno cliente, o professor gestor. A cultura, outrora resistência, é agora produto. Como escreveu Theodor Adorno, “a indústria cultural perpetua a submissão” (Dialectic of Enlightenment, 1944). O entretenimento é a anestesia do espírito.
O princípio da expectativa, que move os mercados, é também o princípio da ilusão. As previsões económicas são horóscopos com gráficos. O economista, armado de modelos e regressões, interpreta o futuro com a mesma precisão de um astrólogo. A diferença é que o astrólogo admite o erro. A economia, quando falha, culpa o contexto. Como ironizou Nassim Taleb, “os economistas são como astrónomos que confundem estrelas com buracos negros” (The Black Swan, 2007). E continuam a vender previsões.
A economia, em última análise, é o espelho da condição humana racional nas intenções, irracional nas acções. É o mercado das emoções, onde o invisível governa o visível como o medo, a esperança e a ganância. O dinheiro é apenas o símbolo; o verdadeiro motor é psicológico. A bolsa sobe com o entusiasmo e cai com o pânico. O investidor é um animal emocional disfarçado de racional. Como escreveu Robert Shiller, “os mercados são movidos por narrativas” (Narrative Economics, 2019). E as narrativas, como as religiões, sobrevivem à razão.
O princípio final da economia é o da sobrevivência. O sistema adapta-se, reinventa-se, e continua a vender soluções para os problemas que cria. A crise é oportunidade, a recessão é desafio, a pobreza é estatística. A economia é o único campo onde o fracasso é interpretado como sucesso desde que o relatório venha acompanhado de gráficos coloridos. O economista, esse poeta dos números, continua a escrever versos sobre produtividade enquanto o mundo arde.
E assim, entre fórmulas e dogmas, a economia perpetua o seu reinado invisível. Governa sem ser vista, decide sem ser eleita, e justifica-se com a autoridade da ciência. Mas, como diria Oscar Wilde, “o cínico é aquele que conhece o preço de tudo e o valor de nada”. A economia, senhora de todos os preços, esqueceu o valor das coisas. E talvez seja esse o seu pecado original.
Bibliografia
Bourdieu, P. (1979). La Distinction: Critique sociale du jugement. Paris: Les Éditions de Minuit.
Galbraith, J. K. (1958). The Affluent Society. Boston: Houghton Mifflin.
Adorno, T., & Horkheimer, M. (1944). Dialectic of Enlightenment. New York: Continuum.
Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux.
Klein, N. (2014). This Changes Everything: Capitalism vs. The Climate. New York: Simon & Schuster.
Piketty, T. (2013). Capital in the Twenty-First Century. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Schumpeter, J. A. (1942). Capitalism, Socialism and Democracy. New York: Harper & Brothers.
Sen, A. (1999). Development as Freedom. Oxford: Oxford University Press.
Stiglitz, J. (2002). Globalization and Its Discontents. New York: W.W. Norton & Company.
Taleb, N. N. (2007). The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable. New York: Random House.
Veblen, T. (1899). The Theory of the Leisure Class. New York: Macmillan.
Zuboff, S. (2019). The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs.
Jorge Rodrigues Simão 2026

