Há quem diga que a História é uma velha teimosa, dessas que se sentam à janela a observar o mundo com o mesmo olhar com que se examina um vizinho barulhento com resignação, irritação e uma pontinha de esperança de que, um dia, o dito vizinho se mude para longe. A Guerra da Coreia, essa matrona de 1953, continua sentada na varanda da península, abanando o leque e recusando-se a morrer, apesar de todos os funerais diplomáticos anunciados. O Presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, homem de boa vontade e paciência quase franciscana, decidiu agora tentar mais uma vez convencer a velha a recolher-se. “Deixemos de lado as nossas intenções de nos ameaçarmos mutuamente”, declarou ele, com a serenidade de quem sabe que fala para um Norte que considera a serenidade um defeito moral.
Lee, que tomou posse em Junho de 2025, parece determinado a contrariar a linha dura do antecessor, Yoon Suk-yeol, cuja diplomacia se resumia a uma espécie de ginástica militar sincronizada com Washington. O novo Presidente, porém, prefere a conversa ao músculo, o chá ao míssil, o acordo ao ultimato. E, num gesto que só pode ser descrito como ousadia temperada com ingenuidade, abriu as portas a negociações incondicionais sobre o programa nuclear norte-coreano. A Coreia do Norte, fiel ao seu estilo, respondeu com a mesma cordialidade com que um tigre responde a um turista que lhe pede para sorrir lançando um míssil balístico para o mar do Japão. A História, essa velha teimosa, sorriu.
A Guerra da Coreia terminou, como se sabe, com um armistício assinado em 1953; um documento que, como escreveu o historiador Bruce Cumings, “não encerrou a guerra, apenas a congelou” (The Korean War, 2010). Desde então, o conflito permanece tecnicamente em vigor, como um cadáver que insiste em respirar. Lee Jae-myung, no 81.º aniversário do fim da ocupação japonesa da península, decidiu que era tempo de pôr termo à farsa. “Iniciemos discussões para pôr fim a esta longa guerra”, exortou ele, num discurso que, em qualquer outro lugar do mundo, teria sido recebido com aplausos. Em Pyongyang, foi recebido com silêncio, seguido de um míssil.
A Coreia do Norte, que considera o seu estatuto nuclear “irreversível”, não parece inclinada a trocar ogivas por abraços. As negociações iniciadas por Donald Trump em 2019 e recorde-se que o actual Presidente dos Estados Unidos é novamente Trump terminaram como começam quase todas as cimeiras com Kim Jong-un com fotografias sorridentes e resultados inexistentes. O Ministério da Unificação sul-coreano, já em Julho, admitira que desistira de tentar desmantelar o programa nuclear do Norte, optando antes por travar o seu desenvolvimento. É uma estratégia que lembra tentar impedir um rio de correr colocando-lhe pedras à frente; não funciona, mas entretém.
Enquanto as Coreias se entretêm com a sua guerra interminável, o Japão enfrenta uma guerra diferente; a das nuvens. Na província de Chiba, perto de Tóquio, as chuvas torrenciais fizeram pelo menos nove mortos. A emissora pública NHK relatou que algumas vítimas foram encontradas em veículos submersos, outras desmaiaram em ruas inundadas com um cenário que faria corar de inveja qualquer manual de desastres naturais.
Uma estação meteorológica registou mais de 30 centímetros de chuva em 24 horas, tornando este o Agosto mais chuvoso em 60 anos. A Agência Meteorológica do Japão alertara que a tempestade caminhava para “um nível sem precedentes de chuvas intensas”. O Ministério da Terra, Infra-estruturas, Transportes e Turismo sublinhou que o total de chuva era mais de três vezes superior ao habitual para todo o mês. A ciência, sempre paciente, explica que as alterações climáticas provocadas pela actividade humana tornam estes eventos mais frequentes, longos e intensos. Como escreveu o climatólogo Michael Mann, “não estamos a enfrentar apenas o aquecimento global, mas o agravamento global” (The New Climate War, 2021).
O Japão, país de disciplina e tecnologia, vê-se agora confrontado com a força bruta da natureza, que não respeita semáforos, protocolos nem cerimónias oficiais. A província de Chiba recebeu o alerta máximo para chuvas fortes pela primeira vez na história. A Ásia, nesse mesmo mês, registou mais de 50 mortos devido a ciclones e inundações. A meteorologia, outrora ciência pacata, tornou-se agora protagonista de tragédias.
Se a Coreia do Sul procura a paz e o Japão procura terra firme, a Índia procura o futuro e fá-lo com a ambição de quem pretende transformar-se numa potência tecnológica até 2047. Narendra Modi, no discurso do 80.º Dia da Independência, anunciou que o país irá formar 10 milhões de jovens em inteligência artificial nos próximos 12 meses. É um número tão vasto que faria corar de vergonha qualquer ministério europeu, habituado a considerar “ambicioso” formar 500 estagiários em três anos.
Modi declarou: “Não devemos simplesmente transformar o nosso país num mercado para o mundo, devemos tornar-nos um polo de inovação.” A Índia, que já se tornou gigante em serviços digitais, pretende agora liderar nas tecnologias emergentes como semicondutores, computação quântica, redes 6G. Para isso, planeia gerar 100 gigawatts de energia nuclear até 2047, em paralelo com a expansão solar. É uma visão que combina o entusiasmo futurista com a velha tradição indiana de acreditar que tudo é possível desde que se tenha fé e electricidade.
O interesse de Nova Deli pela IA é também impulsionado pela doutrina da auto-suficiência económica. A Índia quer ser um polo global de processamento de dados e fabrico de microchips, reduzindo dependências externas. Como escreveu Amartya Sen, “o desenvolvimento é liberdade” (Development as Freedom, 1999). Modi parece ter interpretado a frase literalmente de que liberdade é ter 10 milhões de jovens treinados para programar algoritmos.
Voltando à península, Pyongyang denunciou os exercícios militares conjuntos entre Seul e Washington, ameaçando elevar as medidas de dissuasão a um “novo patamar”. A Coreia do Sul e os Estados Unidos anunciaram o exercício Escudo da Liberdade Ulchi, destinado a reforçar a prontidão contra ameaças norte-coreanas. Pyongyang, fiel ao seu estilo, respondeu com um míssil balístico lançado a partir de Wonsan.
O Estado-Maior Conjunto sul-coreano detectou o lançamento e informou que era o segundo em menos de uma semana. A Coreia do Norte, como sempre, considera estes exercícios uma preparação para invasão. A retórica agressiva, os testes de armamento, os comunicados inflamados tudo isto faz parte da rotina diplomática da península, como se fosse uma peça de teatro que se repete há décadas, sempre com o mesmo elenco e o mesmo enredo.
A Coreia do Sul pede paz, o Japão pede sol, a Índia pede futuro. A Coreia do Norte pede que a deixem em paz mas fá-lo lançando mísseis. A Ásia, esse continente de contrastes, vive entre a guerra que não termina, a chuva que não pára e o algoritmo que promete tudo. Como escreveu o filósofo Byung-Chul Han, “a sociedade do cansaço é aquela em que o excesso de positividade se transforma em violência” (Müdigkeitsgesellschaft, 2010). Talvez, o mundo está cansado, e o Oriente é o espelho desse cansaço. A História, a velha teimosa, continua à janela. E nós, cá em baixo, continuamos a fingir que sabemos para onde vamos.
Bibliografia
- Cumings, Bruce. The Korean War: A History. New York: Modern Library, 2010. ISBN 978-0812978964. (Historiador norte-americano, referência mundial sobre a Guerra da Coreia.)
- Mann, Michael E. The New Climate War: The Fight to Take Back Our Planet. New York: PublicAffairs, 2021. ISBN 978-1541758223. (Climatólogo de renome, autor de trabalhos fundamentais sobre alterações climáticas.)
- Sen, Amartya. Development as Freedom. New York: Alfred A. Knopf, 1999. ISBN 978-0385720274. (Economista indiano, Prémio Nobel, obra clássica sobre desenvolvimento económico.)
- Han, Byung-Chul. Müdigkeitsgesellschaft (A Sociedade do Cansaço). Berlin: Matthes & Seitz, 2010. ISBN 978-3882219793. (Filósofo sul-coreano, obra amplamente citada na análise da sociedade contemporânea.)
- Cha, Victor. The Impossible State: North Korea, Past and Future. New York: HarperCollins, 2012. ISBN 978-0061998515. (Especialista em Coreia do Norte, ex-assessor da Casa Branca.)
- Pollack, Jonathan D. No Exit: North Korea, Nuclear Weapons and International Security. London: Routledge, 2011. ISBN 978-0415591399. (Análise académica sobre o programa nuclear norte-coreano.)
- Kingston, Jeff. Japan’s Foreign Relations in Asia. London: Routledge, 2017. ISBN 978-1138181914. (Historiador especializado em política japonesa contemporânea.)
- IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change. Sixth Assessment Report (AR6), 2021–2023. (Relatórios oficiais sobre alterações climáticas, disponíveis em https://www.ipcc.ch)
- NHK World-Japan. Relatórios meteorológicos e cobertura de desastres naturais. (Emissora pública japonesa, fonte primária para eventos climáticos no Japão.)
- Ministry of Land, Infrastructure, Transport and Tourism (MLIT), Japan. Dados oficiais de precipitação e alertas meteorológicos. (Fonte governamental verificável.)
- Government of India. Digital India Programme e IndiaAI Mission, documentos oficiais. (Fontes primárias sobre políticas de IA e desenvolvimento tecnológico.)
Jorge Rodrigues Simão 2026

