A política contemporânea especializou‑se numa habilidade que, em tempos, seria considerada indecorosa que é transformar o exercício do poder num mecanismo de extracção emocional, simbólica e financeira. Não é uma habilidade nova, mas o seu aperfeiçoamento recente merece atenção académica. E, para compreender esse aperfeiçoamento, nada melhor do que observar o laboratório onde a experiência atingiu maturidade que é os Estados Unidos. Ali, a política deixou de ser apenas um campo de disputa ideológica e converteu‑se num mercado altamente lucrativo, onde a lealdade é moeda, a indignação é produto e a confiança é matéria‑prima para operações de engenharia financeira. O caso americano não é uma anomalia; é um manual.
O fenómeno tornou‑se particularmente evidente quando a liderança política passou a funcionar como marca comercial. Ronald Reagan percebeu cedo o poder da narrativa; Bill Clinton transformou a comunicação política em espectáculo; George W. Bush aperfeiçoou a lógica da mobilização emocional; Barack Obama elevou a retórica da unidade a um novo patamar; e Donald Trump levou a mercantilização da política ao seu extremo lógico. A marca, como qualquer outra, precisa de visibilidade, fidelização e narrativa. E, no caso americano, encontrou tudo isso num eleitorado saturado de ansiedade política e predisposto a transformar crença em investimento.
A inovação foi brilhante na sua simplicidade se a política funciona como espectáculo, por que não transformá‑la também em plataforma de produtos financeiros? Assim nasceram instrumentos digitais que, sob o pretexto de celebração patriótica, converteram milhões de cidadãos em investidores de um sonho embalado com slogans. O lançamento de criptomoedas associadas a figuras políticas como o célebre memecoin promovido por Donald Trump tornou‑se num caso de estudo sobre assimetria moral. A criatividade é inegável de lançar um produto financeiro com o selo da autoridade, promovê-lo como símbolo de pertença e, em seguida, colher lucros astronómicos enquanto os apoiantes acumulam perdas igualmente descomunais.
Este episódio não é isolado. Ele inscreve‑se numa tradição americana de transformar política em mercadoria. Basta recordar o universo das super PACs, onde nomes como Sheldon Adelson, George Soros ou os irmãos Koch financiaram campanhas com a mesma lógica com que se financiam investimentos estratégicos. Ou observar como figuras como Sarah Palin, após abandonar o cargo, converteram a notoriedade política em produto televisivo. Ou ainda notar como Steve Bannon transformou a radicalização digital em modelo de negócio. A fronteira entre política e comércio não se esbateu; evaporou.
O mais perturbador é que tudo isto ocorre num país que se define pela força dos seus documentos fundadores. A retórica constitucional é omnipresente, as celebrações patrióticas são coreografadas com precisão, e a ideia de unidade nacional é repetida como mantra. Contudo, a prática revela outra coisa de que a unidade é evocada, mas raramente praticada; a Constituição é citada, mas raramente interiorizada; e a democracia é celebrada, mas frequentemente instrumentalizada. A distância entre o ideal e o real nunca foi tão visível e tão rentável.
O contraste entre celebrações públicas de harmonia e discursos políticos centrados na divisão é particularmente revelador. Enquanto multidões cantam canções sobre pertença e comunidade, o discurso oficial insiste em transformar o país num campo de batalha moral. A estratégia é antiga de dividir para mobilizar, mobilizar para controlar, controlar para lucrar. A novidade está na escala e na sofisticação. A divisão não é apenas retórica; é um produto comercializado, embalado e vendido com entusiasmo.
O caso americano demonstra como a política pode ser convertida num sistema de fidelização emocional. A lógica é simples, ao criar um ambiente de permanente urgência, alimentar a sensação de ameaça, reforçar a ideia de que o líder é o único escudo contra o caos. Esta técnica foi usada por figuras tão distintas como Joseph McCarthy, que transformou o medo do comunismo em capital político; Richard Nixon, que explorou a retórica da “maioria silenciosa”; ou Newt Gingrich, que institucionalizou a lógica da guerra partidária. Quando essa narrativa é interiorizada, a confiança deixa de ser racional e passa a ser identitária. E, quando a confiança é identitária, torna‑se um recurso explorável. A engenharia emocional transforma‑se em engenharia financeira.
A questão central não é financeira; é moral. O que significa governar quando o próprio acto de governar se torna indistinguível de uma operação comercial? O que significa representar quando a representação se converte num mecanismo de fidelização? O que significa responsabilidade quando a fronteira entre interesse público e interesse privado se dissolve em slogans? A política americana, neste capítulo, oferece um estudo de caso quase perfeito sobre como a erosão institucional não acontece de uma só vez, mas através de pequenas normalizações sucessivas.
O mais intrigante é que tudo isto ocorre num ambiente saturado de escândalos, polémicas e narrativas apocalípticas. A população começa a ver a participação cívica como um exercício fútil. A ideia de bem comum torna‑se antiquada, quase ingénua. A política converte‑se num espectáculo onde o público assiste, comenta, indigna‑se, mas raramente intervém. E é precisamente nesse vazio que prosperam os que vêem o Estado como um instrumento de distribuição de benefícios privados.
A crítica construtiva exige, porém, mais do que diagnóstico. Exige identificar alternativas. E a alternativa, neste caso, não é uma utopia abstracta, mas algo surpreendentemente simples de como reconstruir a ideia de comunidade política. Não através de slogans, mas através de práticas concretas. Não através de promessas grandiosas, mas através de compromissos mínimos. Não através de discursos inflamados, mas através de gestos que devolvam à cidadania o seu sentido original.
A procura por unidade não é um exercício sentimental; é uma necessidade estrutural. Num país onde quase metade da população não se identifica com nenhum dos grandes partidos, a fragmentação deixou de ser uma tendência e tornou‑se uma condição permanente. A política, para recuperar relevância, terá de abandonar a lógica da guerra permanente e regressar à lógica da convivência. Não porque seja moralmente superior, mas porque é funcionalmente indispensável.
O desafio para qualquer força política que pretenda contrariar este ciclo é claro; resistir à tentação de responder à divisão com mais divisão. A estratégia de inflamar emoções pode ser eficaz a curto prazo, mas destrói qualquer possibilidade de reconstrução institucional. A alternativa é mais difícil, menos glamorosa e menos imediata como reconstruir confiança, expor abusos sem transformar a exposição em espectáculo, e demonstrar que a política pode servir para unir em vez de explorar.
A engenharia da desilusão só prospera quando a sociedade abdica da sua capacidade de exigir responsabilidade. Quando essa capacidade é recuperada, o ciclo de extracção começa a falhar. E é precisamente aí que reside a esperança não numa promessa messiânica, mas na simples possibilidade de que um país volte a reconhecer que a democracia não é um negócio, e que a cidadania não é uma carteira.
Porque, apesar de tudo, a ideia de pertença continua viva. E, por mais que alguns tentem privatizar o espaço público, há sempre quem insista que a terra metafórica ou literal não foi feita para uns poucos, mas para todos. A questão é saber se a sociedade está disposta a reclamar aquilo que lhe pertence.
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