HOJEMACAU – O CÉREBRO NA CAIXA DE ATENDIMENTO – JORGE RODRIGUES SIMÃO – 29.10.2026

Há qualquer coisa de deliciosamente cómico numa civilização que teme ser ultrapassada por algoritmos enquanto continua a travar batalhas épicas contra impressoras, palavras-passe esquecidas e formulários que juram estar errados precisamente quando estão certos. A inteligência artificial converteu-se na nova religião secular desde os evangelistas da tecnologia que prometem redenção através da eficiência, dos investidores que financiam milagres electrónicos até aos fiéis que aguardam a salvação algorítmica com um fervor que faria inveja a antigos oráculos. Entretanto, como advertiu Michael Sandel em “The Tyranny of Merit” (2020), confundimos competência técnica com sabedoria, erro que se tornou moda intelectual. António Damásio, em “O Erro de Descartes” (1994), recorda que a razão sem emoção é uma ficção elegante, embora muitos tecnocratas persistam em tratar o ser humano como um software mal optimizado. Nas caixas automáticas dos supermercados, o cliente trabalha gratuitamente e ainda agradece a modernidade, uma ironia digna das observações de David Graeber em “Bullshit Jobs”(2018). Hannah Arendt, em “The Origins of Totalitarianism” (1951), alertava para os perigos da substituição do pensamento pela repetição; hoje, essa repetição surge embrulhada em hashtags e gráficos coloridos. A grande tragédia cómica do nosso tempo talvez resida no facto de possuirmos máquinas cada vez mais inteligentes e discursos cada vez mais pobres, numa época em que, como observa Byung-Chul Han em “A Sociedade do Cansaço” (2010), se optimiza tudo excepto a capacidade de compreender para que serve tanta optimização.

Bibliografia

  • Arendt, Hannah. The Origins of Totalitarianism. Harcourt, 1951.
  • Damásio, António. O Erro de Descartes. Publicações Europa-América, 1994.
  • Graeber, David. Bullshit Jobs: A Theory. Simon & Schuster, 2018.
  • Han, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Relógio d’Água, ed. portuguesa.
  • Sandel, Michael J. The Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good? Farrar, Straus and Giroux, 2020.

Jorge Rodrigues Simão, 2026