Há uma peculiaridade fascinante na política externa americana que é a extraordinária capacidade de repetir erros antigos apresentando-os como descobertas revolucionárias. É uma espécie de alquimia geopolítica que transforma fracassos em doutrinas, impasses em vitórias tácticas e desastres previsíveis em demonstrações de liderança. Se a História fosse uma disciplina obrigatória nos corredores do poder, talvez certos discursos fossem proferidos em voz mais baixa e com um mínimo de pudor. Felizmente para os fabricantes de aventuras militares, a memória política tem, regra geral, a duração de um ciclo eleitoral.
A actual confrontação com o Irão ressuscita fantasmas que muitos julgavam enterrados nas areias do Médio Oriente. Não porque as circunstâncias sejam idênticas às do início do século XXI, mas porque a lógica subjacente permanece inquietantemente semelhante. Mais uma vez surge a convicção de que a utilização da força militar poderá resolver um problema complexo, redesenhar equilíbrios regionais e produzir uma ordem mais favorável aos interesses americanos. Mais uma vez se ouvem promessas de segurança, estabilidade e libertação dos povos. E, mais uma vez, essas promessas chegam envolvidas na mesma confiança quase religiosa que tantas vezes precede as grandes imprudências estratégicas.
Henry Kissinger escreveu em “Diplomacy” (1994) que nenhuma potência consegue sustentar a sua influência exclusivamente através da força militar. A observação parece elementar. Todavia, continua a ser ignorada por sucessivas administrações que confundem capacidade militar com capacidade política. A diferença é fundamental. Um exército pode destruir infra-estruturas, ocupar territórios ou eliminar adversários específicos. O que dificilmente consegue fazer é reorganizar sociedades complexas segundo modelos concebidos em gabinetes situados a milhares de quilómetros de distância.
O Irão representa precisamente esse tipo de realidade que resiste às simplificações. Durante décadas, foi apresentado simultaneamente como ameaça existencial, potência regional agressiva, patrocinador de actores armados e desafio permanente à influência ocidental na região. Muitas destas caracterizações possuem fundamento. O problema surge quando a identificação correcta de um problema é confundida com a validação automática de qualquer solução.
É aqui que a ironia geopolítica atinge níveis quase literários. Os mesmos círculos políticos que durante anos denunciaram os custos humanos, financeiros e estratégicos das guerras prolongadas passaram a defender novas demonstrações de força como se o passado tivesse sido um exercício académico sem consequências práticas. Os mesmos especialistas que lamentam a erosão da influência americana frequentemente propõem medidas susceptíveis de acelerar exactamente esse declínio.
Sir Lawrence Freedman, autor de “Strategy: A History” (2013), recorda que a verdadeira estratégia não consiste apenas em utilizar força. Consiste sobretudo em relacionar meios e objectivos de forma coerente. Parece um princípio óbvio. Contudo, a política internacional contemporânea está repleta de exemplos que demonstram o contrário. No caso iraniano, a questão central raramente é colocada de forma suficientemente clara de qual é o objectivo final?
Pretende-se limitar capacidades militares? Alterar comportamentos regionais? Promover mudanças internas? Enfraquecer aliados de Teerão? Produzir uma transformação política profunda? Cada um destes objectivos exige instrumentos distintos, recursos diferentes e horizontes temporais incompatíveis entre si. Todavia, o debate público continua frequentemente dominado pela ilusão de que todos podem ser alcançados simultaneamente através de demonstrações sucessivas de poder militar.
A História recomenda prudência perante tais expectativas. Colin Gray, em “Modern Strategy” (1999), observava que os decisores políticos possuem uma tendência recorrente para sobrevalorizar aquilo que a força armada pode alcançar e subestimar os efeitos secundários do seu emprego. O fenómeno não é exclusivo de nenhuma ideologia nem de nenhum país. Trata-se de uma vulnerabilidade persistente das grandes potências.
O paradoxo americano reside precisamente aí. Os Estados Unidos continuam a possuir capacidades militares sem equivalente directo. Contudo, essa supremacia não elimina as limitações estratégicas. Pelo contrário, por vezes encoraja uma perigosa ilusão de omnipotência. Quando se dispõe do martelo mais poderoso do mundo, tudo começa a parecer um prego. Entretanto, o contexto regional tornou-se consideravelmente mais complexo do que em décadas anteriores.
O Médio Oriente actual não é apenas palco de rivalidades tradicionais. É uma região onde convergem interesses energéticos, disputas confessionais, competição tecnológica, rotas comerciais vitais e ambições de diversas potências externas. Qualquer intervenção relevante produz inevitavelmente repercussões que ultrapassam largamente os objectivos iniciais. Fawaz Gerges, em “The New Middle East” (2014), descreve a região como um sistema marcado por fragmentação política crescente, enfraquecimento das estruturas estatais e proliferação de actores armados não estatais. Nestas circunstâncias, a ideia de controlar integralmente as consequências de uma acção militar aproxima-se mais da ficção optimista do que da análise estratégica.
Ainda assim, a tentação persiste. Talvez porque a política democrática recompensa frequentemente a aparência de decisão mais do que a prudência. Um líder que anuncia negociações é acusado de fraqueza. Um líder que ordena ataques é celebrado como determinado. A posteridade encarregar-se-á mais tarde dos balanços. E a posteridade, como se sabe, não vota. Existe também uma dimensão interna frequentemente subestimada.
As divisões no seio da sociedade americana sobre o recurso à força tornaram-se mais visíveis nos últimos anos. O fenómeno não decorre apenas de diferenças ideológicas. Resulta igualmente de uma crescente desconexão entre os objectivos proclamados pelas elites políticas e as preocupações concretas dos cidadãos. Walter Russell Mead observou em “Special Providence” (2001) que a política externa americana oscila historicamente entre impulsos internacionalistas e tendências de retraimento. Quando os custos das intervenções aumentam e os resultados permanecem ambíguos, cresce inevitavelmente a resistência interna a novas aventuras militares.
É precisamente esse ambiente que confere um significado especial a qualquer escalada envolvendo o Irão. Porque o problema já não é apenas externo. Cada novo conflito testa também a coesão das instituições americanas, a relação entre Executivo e Congresso, a influência dos serviços de informações, o papel das Forças Armadas e os limites do poder presidencial. Em períodos de tensão internacional, as fragilidades internas deixam de ser questões domésticas para se transformarem em factores estratégicos.
A este respeito, Alexis de Tocqueville continua surpreendentemente actual. Em “Democracia na América”, publicada no século XIX, alertava para os riscos de concentração excessiva de autoridade em momentos de crise. As repúblicas, observava, podem descobrir na urgência razões convenientes para ampliar permanentemente poderes que deveriam permanecer excepcionais. A observação mantém uma actualidade desconfortável.
Porque as guerras modernas possuem uma característica singular de que tendem a expandir não apenas os campos de batalha, mas também os mecanismos de decisão política. Ao mesmo tempo, os aliados regionais desempenham um papel decisivo na definição das prioridades estratégicas americanas. Nenhuma potência age isoladamente. As alianças oferecem vantagens indispensáveis, mas também criam dependências, expectativas e pressões. Por vezes, aquilo que é apresentado como decisão soberana resulta de uma complexa teia de compromissos acumulados ao longo de décadas.
John Mearsheimer e Stephen Walt escreveram em “The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy” (2007) sobre a influência de diferentes grupos de interesse na formulação da política externa dos Estados Unidos. Independentemente das controvérsias que a obra gerou, permanece válida uma conclusão essencial de que as decisões internacionais raramente resultam de cálculos lineares ou exclusivamente nacionais. São influenciadas por actores externos, interesses económicos, dinâmicas eleitorais, rivalidades institucionais e percepções históricas acumuladas.
Consequentemente, a ideia de uma estratégia perfeitamente racional e coerente pertence mais aos manuais académicos do que ao mundo real. O que frequentemente emerge é uma sucessão de respostas tácticas a problemas imediatos, sem enquadramento estratégico consistente. O resultado é um padrão que se tornou familiar. Cada administração critica os erros da anterior. Cada nova equipa promete realismo, prudência e eficácia. Cada uma acaba por descobrir que os constrangimentos estruturais permanecem praticamente inalterados.
Mudam os presidentes, os slogans e as conferências de imprensa. O labirinto permanece.Talvez a lição mais importante seja precisamente a de que o poder militar é uma ferramenta extraordinária, mas continua a ser apenas uma ferramenta. Não substitui a compreensão histórica, não elimina rivalidades profundas e não resolve conflitos identitários enraizados ao longo de gerações.
Quando utilizado sem uma visão estratégica clara, transforma-se facilmente numa versão contemporânea da espada de Alexandre perante o nó górdio; impressionante à primeira vista, mas incapaz de resolver os problemas que pretendia ultrapassar. O verdadeiro desafio para os Estados Unidos não consiste em demonstrar força. Essa capacidade ninguém a contesta seriamente. O desafio consiste em demonstrar discernimento. Porque a História está repleta de impérios que sabiam vencer batalhas. Muito menos numerosos foram aqueles que souberam reconhecer quais não deviam travar.
Bibliografia
DE TOCQUEVILLE, Alexis. Democracia na América. Diversas edições académicas.
FREEDMAN, Lawrence. Strategy: A History. Oxford University Press, 2013.
GERGES, Fawaz A. The New Middle East: Protest and Revolution in the Arab World. Cambridge University Press, 2014.
GRAY, Colin S. Modern Strategy. Oxford University Press, 1999.
KISSINGER, Henry. Diplomacy. Simon & Schuster, 1994.
MEAD, Walter Russell. Special Providence: American Foreign Policy and How It Changed the World. Routledge, 2001.
MEARSHEIMER, John J.; WALT, Stephen M. The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy. Farrar, Straus and Giroux, 2007.
SNYDER, Glenn H. Alliance Politics. Cornell University Press, 1997.
WALT, Stephen M. The Origins of Alliances. Cornell University Press, 1987.
