Há quem diga que vivemos na era da velocidade, outros insistem que habitamos a época da hiperconectividade, e há ainda quem proclame que o século XXI é o tempo da inovação perpétua. Tudo é verdade, mas é irrelevante diante da única realidade que realmente nos une; estamos exaustos. Exaustos de trabalhar, de fingir e de existir. A exaustão tornou‑se sacramento, liturgia e doutrina. É o novo evangelho da modernidade tardia, sem salvação, milagres, e parábolas, mas com muito sofrimento e uma devoção quase religiosa ao desgaste.

O Evangelho da Exaustão Moderna não tem profetas, mas tem pregadores que são gestores que confundem produtividade com penitência, economistas que tratam burnout como externalidade, psicólogos que tentam explicar o inexplicável, e cidadãos que, resignados, repetem diariamente o mantra da sobrevivência. Como escreveu Byung‑Chul Han, “a sociedade do desempenho conduz à autoexploração”, e nós, fiéis desta nova religião, exploramo‑nos com zelo missionário. A exaustão é o nosso credo, o cansaço a nossa oração e a saturação o nosso sacramento.

A modernidade tardia transformou o quotidiano numa maratona sem linha de chegada. Trabalhamos mais do que nunca, descansamos menos do que sempre, e fingimos que tudo isto é normal. A exaustão tornou‑se símbolo de status e quem não está cansado não está a tentar. O descanso, outrora virtude, tornou‑se suspeito. Dormir é fraqueza, parar é pecado e respirar é luxo. Como escreveu Jonathan Crary, “o capitalismo contemporâneo tenta colonizar até o sono”, e nós, obedientes, entregamos as nossas noites ao brilho azul dos ecrãs.

O Evangelho da Exaustão Moderna tem os seus mandamentos. O primeiro: “Trabalharás sem cessar, mesmo quando o trabalho não te servir.” O segundo: “Responderás a mensagens a qualquer hora, porque a disponibilidade é a nova forma de servidão.” O terceiro: “Competirás com todos, mesmo quando ninguém está a competir contigo.” O quarto: “Fingirás entusiasmo, mesmo quando a alma já não tem luz.” O quinto: “Não descansarás, porque descansar é admitir que és humano.”

A exaustão tornou‑se tão omnipresente que já não a reconhecemos como anomalia. É paisagem, clima e atmosfera. Como escreveu Hannah Arendt, “a banalidade do mal reside na sua normalização”, e a exaustão, esse mal suave, tornou‑se banal. Não nos revoltamos contra ela porque acreditamos que é inevitável. E, como todos os evangelhos, este também promete uma recompensa futura: “Se te sacrificares agora, serás feliz depois.” Mas o depois nunca chega, e nós continuamos a sacrificar‑nos como penitentes sem altar.

A exaustão moderna não é apenas física; é emocional, psicológica e espiritual. É o desgaste que se infiltra nos afectos, que corrói relações e que transforma conversas em monólogos cansados. A saturação afectiva tornou‑se norma pois amamos com pressa, desejamos com culpa e relacionamo‑nos com medo. Como escreveu Eva Illouz, “o capitalismo emocional reorganiza os afectos”, e nós, obedientes, reorganizamos os nossos sentimentos como quem organiza uma gaveta desarrumada.

O Evangelho da Exaustão Moderna tem também os seus templos como escritórios onde a luz branca nunca se apaga, centros comerciais onde o consumo substitui a contemplação e redes sociais onde a comparação substitui a identidade. São espaços de culto onde se celebra a liturgia do cansaço. A produtividade é o novo Deus, o desempenho o novo sacramento e o sucesso o novo céu. E nós, fiéis, ajoelhamos diante de métricas, gráficos e relatórios, como se fossem textos sagrados.

A exaustão tornou‑se tão profunda que não sabemos distinguir entre viver e sobreviver. A vida moderna é uma sucessão de tarefas, obrigações, compromissos, metas e prazos. O tempo livre é apenas tempo não contabilizado. O lazer é apenas trabalho disfarçado. A felicidade é apenas KPI emocional. Como escreveu Zygmunt Bauman, “a vida líquida dissolve estruturas”, e nós dissolvemo‑nos com ela, até nos tornarmos vapor.

O Evangelho da Exaustão Moderna tem também os seus mártires com trabalhadores que colapsam em silêncio, pais que tentam equilibrar o impossível, jovens que carregam expectativas que não pediram e idosos que sobrevivem a um mundo que não reconhecem. São mártires sem glória, estátuas e homenagens. Sofrem em silêncio, porque o sofrimento, nesta religião, é virtude.

A exaustão é tão universal que não distingue classes, profissões e idades. É democrática na sua crueldade. O executivo, o estudante, o artista e o desempregado estão exaustos. A exaustão tornou‑se linguagem comum. Quando alguém pergunta “Como estás?”, a resposta não é “Bem”, mas “Cansado”. É a nova saudação, o novo cumprimento e a nova identidade.

O Evangelho da Exaustão Moderna tem também os seus milagres ou melhor, a ausência deles. Não há cura, redenção e descanso. Há apenas a promessa de que tudo isto é necessário. A exaustão é apresentada como preço da modernidade, como consequência inevitável do progresso e como tributo ao futuro. Mas o futuro, esse horizonte que nunca chega, é apenas desculpa para justificar o presente.

A exaustão tornou‑se tão íntima que não sabemos quem seríamos sem ela. O silêncio assusta, o descanso inquieta, a pausa provoca ansiedade. Somos criaturas treinadas para o movimento perpétuo. Como escreveu David Graeber, “o trabalho inútil tornou‑se essencial”, e nós, obedientes, continuamos a trabalhar mesmo quando o trabalho não serve o propósito.

O Evangelho da Exaustão Moderna é cruel porque nos convence de que a culpa é nossa. Se estamos cansados, é porque não somos eficientes. Se estamos saturados, é porque não sabemos gerir emoções. Se estamos exaustos, é porque não tentámos o suficiente. A exaustão, nesta religião, é sempre falha individual, nunca consequência estrutural. É a teologia perfeita para um sistema que precisa de corpos cansados para continuar a funcionar.

E assim, seguimos. Exaustos, mas obedientes. Cansados, mas disciplinados. Saturados, mas funcionais. Somos fiéis de uma religião que nunca escolhemos, mas que praticamos com devoção. O Evangelho da Exaustão Moderna não promete salvação; promete continuidade. E nós, resignados, continuamos a caminhar, porque parar seria heresia.

Bibliografia

Han, Byung‑Chul, A Sociedade do Cansaço, Relógio D’Água, 2014

Crary, Jonathan, 24/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep, Verso, 2013

Arendt, Hannah, The Human Condition, University of Chicago Press, 1958

Illouz, Eva, Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism, Polity Press, 2007

Bauman, Zygmunt, Liquid Modernity, Polity Press, 2000

Graeber, David, Bullshit Jobs, Simon & Schuster, 2018

Jorge Rodrigues Simão 2026