O consumo interno da RAEM em 2026 é uma personagem trágico‑cómica, digna de figurar num romance pois esforça‑se, levanta‑se, tenta caminhar, mas tropeça sempre na mesma pedra que é a dependência estrutural de tudo o que vem de fora. A economia local, celebrada em comunicados oficiais com o entusiasmo de quem anuncia milagres, cresce, sim, mas como planta que recebe sol apenas de um lado e inclina‑se para o exterior, floresce para os visitantes, mas permanece mirrada no interior. E assim, enquanto o PIB sobe embalado pelas exportações de serviços, o consumo interno continua a ser o parente pobre que chega ao banquete e descobre que não há lugar à mesa.

A Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), essa sacerdotisa das percentagens, apresentou os números com a solenidade habitual de que a despesa de consumo privado cresceu 3,4% no primeiro trimestre de 2026; a despesa de consumo final do Governo caiu 2,8%; e a formação bruta de capital fixo como o investimento, esse motor silencioso que alimenta o futuro  caiu 21%. A economia interna, portanto, avança com a lentidão de um funcionário público em fim de expediente, enquanto o sector externo corre como atleta olímpico.

O consumo privado, esse indicador que revela o humor das famílias, cresceu, mas pouco. É como um sorriso tímido num rosto cansado que existe, mas não ilumina. As famílias gastam mais fora da RAEM, como revela o aumento de 13% no consumo no exterior. O consumo doméstico, esse que deveria ser o coração pulsante da economia interna, cresceu apenas 1,8%. É um número tão modesto que quase pede desculpa por existir.

A queda de 21% no investimento é, porém, o verdadeiro terramoto silencioso. Menos investimento significa menos obras, menos compras de equipamento, menos renovação urbana e menos dinamismo empresarial. Significa que a economia interna está a viver de rendimentos passados, sem plantar sementes para o futuro. Como escreveu John Maynard Keynes, “a dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar às antigas”. E a RAEM, em 2026, continua presa às ideias antigas do jogo, turismo, visitantes e exportações de serviços. O investimento interno, esse que deveria preparar o amanhã, está a definhar como planta esquecida numa varanda.

O Governo, por sua vez, decidiu contrair a despesa pública em 2,8%, talvez por prudência orçamental, talvez por estratégia, talvez por simples inércia. A redução, porém, tem impacto directo na procura interna e menos despesa pública significa menos estímulo, menos circulação de dinheiro e menos dinamismo. É como retirar lenha de uma fogueira que já arde pouco.

A estrutura económica da RAEM, dependente do exterior, explica grande parte desta fragilidade. O PIB cresce porque as exportações de serviços como o jogo e turismo crescem. Crescem porque os visitantes entram. Entram porque o Interior da China envia milhões de excursionistas. A economia interna vive num estado de dependência quase colonial que prospera quando o exterior prospera, encolhe quando o exterior encolhe. Como escreveu Karl Polanyi, “a economia está sempre incrustada nas relações sociais”; e, no caso da RAEM, está incrustada também nas relações fronteiriças.

Comparando com períodos anteriores, o consumo interno cresce mais do que em 2025, mas continua abaixo dos níveis pré‑pandemia. A retoma é real, mas é frágil. É como um doente convalescente que se levanta da cama apenas para provar que ainda respira. As exportações de serviços, por sua vez, subiram 12,8% no primeiro trimestre, revelando que a economia cresce para fora, não para dentro. O consumo interno é espectador, não protagonista.

A síntese crítica é clara de que o consumo interno da RAEM em 2026 é moderado, insuficiente para sustentar o crescimento económico, dependente de factores externos, afectado pela queda do investimento e limitado pelo custo de vida. O futuro da RAEM depende, portanto, de decisões que não podem ser adiadas. A retoma interna é real, mas insuficiente. O consumo privado cresce, mas não compensa a queda do investimento. A economia continua desequilibrada em que as exportações de serviços são o motor; o consumo interno é passageiro. A diversificação económica é urgente. Sem novos sectores produtivos, o consumo interno continuará dependente dos salários do sector do jogo, das políticas públicas e dos ciclos turísticos.

O Governo terá de decidir e estimular o consumo interno ou continuar a depender do exterior? A resposta não é simples. Estimular o consumo interno exige políticas salariais, incentivos fiscais, investimento público, diversificação económica, apoio às pequenas e médias empresas. Exige visão, coragem e estratégia. Continuar a depender do exterior exige apenas manutenção da rotina de abrir fronteiras, promover turismo e sustentar o jogo. É caminho fácil, mas é caminho perigoso.

Como escreveu Hannah Arendt, “o poder corresponde à capacidade humana de agir em conjunto”. A RAEM, em 2026, precisa de agir em conjunto com Governo, empresas e famílias. Precisa de construir economia interna que não seja sombra da economia externa. Precisa de transformar consumo interno em motor, não em figurante.

O consumo interno da RAEM é, portanto, personagem que merece atenção. É frágil, mas não é irrelevante. É tímido, mas não é inexistente. É limitado, mas pode crescer. Precisa apenas de políticas que o alimentem, de investimento que o sustente e de visão que o transforme. Precisa de ser tratado como protagonista, não como nota de rodapé nos comunicados da DSEC.

E assim, enquanto o PIB sobe embalado pelas exportações, o consumo interno continua à espera de palco. À espera de luz. À espera de voz. À espera de ser reconhecido como aquilo que realmente é; o coração da economia que ainda não aprendeu a bater por si própria.

Bibliografia

Keynes, John Maynard, The General Theory of Employment Interest and Money, Macmillan, 1936

Polanyi, Karl, The Great Transformation, Beacon Press, 1944

Arendt, Hannah, The Human Condition, University of Chicago Press, 1958

Direcção dos Serviços de Estatística e Censos da RAEM, Indicadores Económicos 2025-2026

Fundo Monetário Internacional, Regional Economic Outlook Asia and Pacific, 2026

Banco Mundial, World Development Indicators, 2026

Jorge Rodrigues Simão 2026