A Assembleia Legislativa de Macau, sempre pronta a demonstrar que a urgência é uma virtude republicana, aprovou ontem a revisão da lei de combate à droga com a mesma solenidade com que um sacristão acende velas antes da missa. O objecto da devoção parlamentar foi o etomidato, baptizado nas ruas como “petróleo espacial”, uma substância que, pela designação, parece saída de um romance futurista, mas que, na realidade, é apenas mais um capítulo da velha história humana de transformar anestésicos hospitalares em recreações químicas.

O Governo apresentou a proposta com carácter de urgência, como quem anuncia a chegada de um cometa perigoso. A urgência, essa palavra que na política serve para tudo desde salvar o erário até salvar a face foi aqui usada para adaptar a legislação local às decisões das Nações Unidas, que no ano passado decidiram incorporar novas substâncias no catálogo global de proibições. A ONU, esse oráculo moderno, continua a acreditar que a ordem internacional se mantém através de listas, tabelas e anexos, como se o mundo fosse uma farmácia e os conflitos se resolvessem com regulamentos.

O etomidato, segundo os manuais de farmacologia, é um anestésico geral de uso exclusivamente hospitalar. Mas, como bem observou Michel Foucault, “o poder produz saber” (Surveiller et punir, 1975), e o saber, quando cai nas mãos erradas, produz substâncias recreativas. Assim nasceu o “petróleo espacial”, uma droga sintética que, ao que parece, oferece aos seus consumidores uma viagem intergaláctica sem necessidade de passaporte.

A Assembleia, zelosa guardiã da moral pública, decidiu que era tempo de proibir não apenas o etomidato, mas também os seus análogos como o metomidato, propoxato e isopropoxato. A lista parece saída de um catálogo de detergentes industriais, mas é, na verdade, o reflexo da criatividade química que floresce sempre que a lei tenta fechar portas. Como escreveu Karl Popper, “a tentativa de controlar tudo conduz inevitavelmente ao fracasso” (The Open Society and Its Enemies, 1945). E no combate à droga, esse fracasso é tão previsível quanto a mudança das marés.

No meio da liturgia legislativa, o deputado José Pereira Coutinho ergueu a voz para sugerir a inclusão de pareceres médicos e farmacológicos. A sugestão, sensata e prudente, foi recebida com a mesma atenção que se dá a um sermão num dia de calor em que todos ouvem, poucos reflectem.

Coutinho, que tem o hábito saudável de desconfiar das urgências governamentais, lembrou que legislar sobre substâncias químicas sem ouvir médicos é como legislar sobre navegação sem consultar marinheiros. A ciência, essa entidade que os parlamentos invocam mas raramente compreendem, deveria ser o alicerce de qualquer decisão sobre drogas. Como escreveu Thomas Kuhn, “a ciência avança não pela acumulação, mas pela mudança de paradigmas” (The Structure of Scientific Revolutions, 1962). Infelizmente, o hemiciclo prefere acumular decretos a mudar paradigmas.

A proposta do Governo adapta a legislação local às decisões da Comissão de Estupefacientes da ONU, que no ano passado adicionou seis novas substâncias ao controlo global. A ONU, fiel ao seu papel de guardiã da ordem química mundial, continua a acreditar que a proibição é o caminho para a salvação. É uma crença tão antiga quanto as bulas papais e tão ineficaz quanto as penitências medievais.

Como observou Milton Friedman, “a guerra contra as drogas causa mais danos do que as próprias drogas” (Free to Choose, 1980). Mas a ONU, com a sua burocracia celestial, insiste em combater moléculas com resoluções, como se a química tivesse medo de papel timbrado.

O diploma, se aprovado na especialidade, introduzirá o controlo de substâncias análogas ao etomidato que surgiram recentemente no mercado regional. A expressão “mercado regional” é um eufemismo elegante para designar os laboratórios improvisados que florescem em garagens, armazéns e apartamentos onde a criatividade química rivaliza com a criatividade artística.

Como escreveu Paul Feyerabend, “a ciência é tão anárquica quanto a arte” (Against Method, 1975). E os fabricantes de drogas sintéticas são, nesse sentido, artistas da clandestinidade, sempre prontos a criar uma nova molécula quando a anterior é proibida. A lei corre atrás deles como um polícia cansado atrás de um ladrão ágil.

A aprovação urgente da proposta revela mais sobre o teatro político do que sobre a realidade química. A urgência, na política, é frequentemente usada para mascarar a falta de reflexão. Como escreveu Hannah Arendt, “a velocidade é inimiga do pensamento” (The Human Condition, 1958). E no hemiciclo, onde o pensamento deveria ser a matéria-prima, a velocidade tornou-se o método.

O Governo, ao apresentar a proposta com carácter de urgência, pretendeu transmitir a ideia de que o etomidato é uma ameaça iminente. Mas a verdadeira ameaça não é a substância em si; é a incapacidade de compreender que a proibição, sem educação e prevenção, é apenas um gesto simbólico.

O etomidato é um anestésico de uso hospitalar, proibido no mercado. Mas a sua transformação em droga recreativa revela o paradoxo da proibição pois quanto mais se proíbe, mais se inventa. Como observou Zygmunt Bauman, “a modernidade líquida dissolve todas as estruturas” (Liquid Modernity, 2000). E a estrutura legal dissolve-se sempre que a criatividade química encontra uma brecha.

A proibição do etomidato e dos seus análogos é um gesto compreensível, mas insuficiente. A droga sintética continuará a existir, apenas com outro nome e outra fórmula. A lei, como sempre, chegará tarde.

A Assembleia Legislativa, ao aprovar a proposta, cumpriu o ritual da segurança pública. É um ritual que consiste em aprovar leis, emitir comunicados e acreditar que o problema está resolvido. Como escreveu Max Weber, “a burocracia é a forma mais eficiente de dominação” (Economy and Society, 1922). Mas a eficiência da burocracia termina onde começa a criatividade humana.

O hemiciclo, com a sua liturgia de discursos e votações, parece acreditar que a droga é um fenómeno legislativo. Mas a droga é um fenómeno social, químico, económico e cultural. A lei é apenas um dos seus muitos capítulos.

A inclusão do etomidato na lista de substâncias proibidas é irónica. O etomidato, usado para anestesiar pacientes em hospitais, tornou-se agora símbolo de uma batalha moral. Como escreveu Sigmund Freud, “a civilização exige sacrifícios” (Civilization and Its Discontents, 1930). E o sacrifício aqui é a crença de que proibir uma molécula é suficiente para salvar uma sociedade.

A ironia é que, enquanto o hemiciclo discute o etomidato, outras substâncias mais perigosas circulam livremente. A guerra contra a droga é, como sempre, uma guerra selectiva.

A revisão da lei de combate à droga, com a inclusão do etomidato, é mais um capítulo da geometria moral da política pública. É um capítulo onde a urgência substitui a reflexão, a proibição substitui a prevenção, e a moral substitui a ciência.

Como escreveu Albert Camus, “nomear as coisas mal é acrescentar ao infortúnio do mundo” (L’Homme Révolté, 1951). E legislar mal é acrescentar ao infortúnio da sociedade. O hemiciclo aprovou a lei. O etomidato foi proibido. A moral pública foi satisfeita. Mas a droga sintética continuará a existir, porque a química não obedece a decretos.

A história do petróleo espacial em Macau não começou nos laboratórios clandestinos, mas nas páginas dos jornais, quando, em Outubro de 2023, a primeira apreensão ocorreu numa escola local. Nada como a juventude para inaugurar tendências químicas sempre pronta a transformar anestésicos hospitalares em aventuras recreativas. Desde então, foram detectados quatro casos de consumo, número suficiente para que o hemiciclo entrasse em estado de comoção moral.

Em Hong Kong, onde a vigilância química é mais célere do que a nossa prudência legislativa, as autoridades suspeitam que o “petróleo espacial” esteja associado a pelo menos três mortes. A morte, essa estatística que a política só leva a sério quando aparece em relatórios, tornou-se argumento para justificar o desfasamento entre as medidas da região vizinha e as de Macau.

O deputado Che Sai Wang, com a serenidade de quem observa o relógio e percebe que estamos atrasados para a História, questionou a razão desse desfasamento. Macau, sempre fiel ao seu ritmo lento, cerimonioso, quase litúrgico parece acreditar que legislar tarde é legislar melhor. Como escreveu Alexis de Tocqueville, “o atraso é a forma mais subtil de resistência” (De la démocratie en Amérique, 1835). E Macau resiste, não se sabe bem a quê, mas resiste.

O deputado José Pereira Coutinho, que já antes pedira pareceres médicos e farmacológicos, voltou a insistir na necessidade de consulta pública. A sua frase, digna de ser gravada na pedra, ecoou no hemiciclo: “Confiamos no Governo, mas seria importante ter pareceres de especialistas nas áreas da medicina e farmacologia nos quais Macau e a própria AL se possam basear para carregar no botão e aprovar a proposta de lei.”

A imagem é deliciosa de deputados a carregar num botão, como quem acende uma lâmpada, confiando que a luz é boa porque alguém lhes disse que era. Coutinho, com o seu habitual zelo republicano, lembrou que os deputados não têm “capacidade técnica” para distinguir drogas uma confissão que, embora honesta, deveria preocupar qualquer cidadão que acredita que a legislação é feita por quem a compreende.

Como escreveu John Stuart Mill, “a ignorância não é desculpa quando se tem o poder” (On Liberty, 1859). E no hemiciclo, o poder é abundante; o conhecimento, nem tanto. Enquanto Macau ponderava, Hong Kong agia. Em Fevereiro de 2023, classificou vários ingredientes-chave do “petróleo espacial” como drogas perigosas, deixando de lado a antiga classificação de “substâncias tóxicas de Classe 1”. A mudança não é apenas semântica; é moral. Hong Kong decidiu que o etomidato não é apenas tóxico; é perigoso, o que, na linguagem legislativa, significa que a paciência acabou.

A China continental, sempre pronta a demonstrar que o controlo é a sua virtude mais antiga, proibiu o etomidato em Outubro de 2023, classificando a posse, tráfico, fabrico e consumo como infracções. A China não legisla; decreta. E quando decreta, o mundo químico treme. Macau, por seu lado, observou. E só agora decidiu agir, como quem chega tarde a um funeral e ainda assim quer dizer algumas palavras.

O diploma aprovado abrange ainda sete novas substâncias análogas ao etomidato, não sujeitas a controlo internacional: TF-Etomidate, Butomidate, secButomidate, Isobutomidate, 4F-Etomidate, ABP-700 e 2,6-diCl-3F-Etomidate. A lista parece saída de um catálogo de tintas industriais, mas é, na verdade, o reflexo da criatividade química do Interior da China, onde estas substâncias foram descobertas e colocadas sob controlo em Julho de 2025, devido à “grave ameaça para a saúde pública”. Hong Kong, sempre diligente, passou a controlar seis delas no mesmo mês.

A proposta de lei explica que estas substâncias, “sem utilidade médica conhecida”, possuem efeitos anestésicos e de sedação semelhantes ao etomidato, provocando dependência e danos para a saúde. São frequentemente adicionadas ao líquido de cigarros electrónicos, não por inovação, mas por estratégia para dificultar a detecção.

Como escreveu Umberto Eco, “a criatividade humana é infinita, sobretudo quando se trata de contornar regras” (Il nome della rosa, 1980). E os fabricantes de drogas sintéticas são, nesse sentido, artistas da evasão. Embora Macau ainda não tenha registado apreensões destas sete substâncias, o Governo alertou que a proximidade geográfica com o Interior da China e Hong Kong aumenta consideravelmente o risco do seu uso abusivo na RAEM. A geografia, essa ciência que raramente entra nos debates legislativos, tornou-se aqui argumento decisivo.

Como escreveu Fernand Braudel, “a geografia é a prisão da história” (La Méditerranée, 1949). E Macau, preso entre dois gigantes regulatórios, não pode ignorar que as drogas sintéticas viajam mais depressa do que os decretos. Segundo o Governo, a actualização legislativa visa “evitar que as novas drogas causem ameaças à segurança da saúde pública e melhor prevenir e combater os crimes relacionados com a droga em sintonia com as regiões vizinhas e até com a comunidade internacional”.

A frase, digna de um relatório das Nações Unidas, revela a nova moral preventive de legislar antes que o problema chegue, como quem fecha a porta antes de ouvir passos no corredor. É uma moral prudente, mas também ansiosa, que acredita que a lei é um escudo contra a química. Como escreveu Mary Douglas, “o perigo é sempre uma construção social” (Purity and Danger, 1966). E aqui, o perigo é construído com moléculas, decretos e receios.

A história do etomidato e dos seus análogos revela mais sobre a política do que sobre a química. Macau legisla tarde, Hong Kong legisla cedo, a China legisla sempre. O hemiciclo debate, o Governo decreta, os deputados carregam no botão. E o “petróleo espacial”, esse símbolo da criatividade humana, continua a lembrar-nos que a química é mais rápida do que a lei, e que a moral pública é mais lenta do que o mercado clandestino. Como escreveu Albert Camus, “a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente” (L’Homme Révolté, 1951). E Macau, finalmente, decidiu dar alguma coisa ainda que tarde.

Bibliografia

Foucault, Michel. Surveiller et punir. Gallimard, 1975.

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Comissão de Estupefacientes da ONU. Relatórios oficiais, 2024–2026.

Assembleia Legislativa de Macau. Actas e documentos oficiais, 2026.

Jorge Rodrigues Simão 2026