Há quem diga que o clima é uma entidade caprichosa, dessas que acordam maldispostas e decidem arruinar o penteado ao primeiro transeunte. Mas o El Niño, esse colosso tropical de humor instável, parece ter decidido este ano transformar o planeta num vasto forno de padeiro, daqueles onde o calor não é uma circunstância, mas uma sentença. Os Serviços Meteorológicos e Geofísicos, sempre prudentes na arte de anunciar desgraças, informam que estamos prestes a rivalizar com os gloriosos anos de 1997/1998 e 2015/2016 épocas em que o Pacífico fervia como um caldeirão de bruxas e o mundo inteiro suava como um condenado.

O Oceano Pacífico Equatorial Central e Oriental, segundo nos dizem, entrou em estado de El Niño em Maio. Não se sabe se entrou por vontade própria ou empurrado pela Organização Meteorológica Mundial, mas entrou e desde então não tem dado sinais de querer sair. O aquecimento anormal das águas tornou-se, dizem os peritos, “um dos interruptores climáticos mais importantes a influenciar a tendência do clima anual a nível global”. Interruptor é palavra feliz pois basta imaginar o planeta como uma sala mal iluminada, onde o El Niño, com a delicadeza de um estivador, carrega no botão e nos deixa ora às escuras, ora a arder.

Macau, sempre diligente em acolher fenómenos atmosféricos com a mesma cortesia com que acolhe turistas, prepara-se para um fim-de-semana soalheiro e abrasador. O ciclone tropical que se move em direcção ao Japão esse viajante apressado promete trazer sol e temperaturas altas, como quem oferece um presente envenenado. Os SMG, com a serenidade de quem anuncia o inevitável, estimam que a chuva dará lugar ao sol e que o termómetro subirá até aos 34 graus. Mercúrio, esse velho acrobata, parece decidido a escalar a coluna como se disputasse um campeonato de atletismo.

Julho, dizem as autoridades, foi recordista com 962 milímetros de precipitação, 2,3 vezes superior ao valor climático. Choveu tanto que a cidade quase se viu obrigada a pedir licença para respirar. A humidade, essa companheira pegajosa, empatou com os valores de 1959 e 1997, como se quisesse provar que também sabe bater recordes. A temperatura mínima mensal atingiu novos mínimos históricos, talvez por pudor, talvez por ironia porque, logo a seguir, o calor decidiu instalar-se com a obstinação de um hóspede que não sabe quando deve ir embora.

Enquanto isso, o vale depressionário que afectou a costa de Guangdong vai enfraquecendo, como um burocrata cansado de carimbar papéis. A subsidência externa do ciclone tropical promete trazer “tempo soalheiro e muito quente durante o dia”, seguido de aguaceiros e trovoadas à tarde  uma espécie de teatro meteorológico onde cada acto contradiz o anterior. O clima, afinal, é o mais perfeito dos dramaturgos pois nunca se repete e se explica, e raramente se desculpa.

O El Niño, esse maestro de tempestades, prepara o seu grande crescendo para o final do ano. Chuvas intensas, inundações urbanas, secas severas com o catálogo completo das calamidades naturais, apresentado com a pompa de um espectáculo de ópera. E nós, espectadores resignados, aguardamos o desenrolar da peça, abanando leques, limpando o suor, e fingindo que compreendemos a lógica deste teatro tropical.

Como escreveu Montesquieu, “se o clima é tirano, os homens são seus escravos”. E este ano, parece que o tirano está particularmente inspirado.

Bibliografia

Montesquieu. (1748). De l’esprit des lois. Genève: Barrillot & Fils.

Organização Meteorológica Mundial. (2023). El Niño/La Niña Update. Genebra: OMM.

Centro Nacional de Clima da China. (2023). Climate Monitoring Bulletin. Pequim: CNC.

Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau. (2024). Boletim Climatológico Mensal. Macau: SMG.

Jorge Rodrigues Simão 2026