Há fenómenos históricos que, pela sua natureza simultaneamente trágica e burlesca, merecem ser observados com a lente de quem, não podendo evitar o espanto, decide antes rir para não chorar. A invasão de Ceuta e Melilla por milhares de imigrantes marroquinos jovens, adolescentes, crianças, e até alguns adultos que ainda acreditam na epopeia europeia constitui precisamente esse tipo de episódio de uma marcha humana que, vista de longe, parece um drama; vista de perto, revela-se uma ópera cómica onde cada personagem desempenha o papel que lhe foi atribuído pela geopolítica, pela miséria e pela burocracia europeia, essa entidade majestosa que carimba a realidade com a mesma solenidade com que um escrivão carimba um papel amarrotado.
A cena inicial é simples e de milhares de pessoas que atravessam a fronteira de Marrocos para Ceuta e Melilla, territórios espanhóis encravados no Norte de África, como quem atravessa a rua para comprar pão. Não há epopeia marítima, não há naufrágio, não há contrabandistas líbios a cobrar tarifas de desespero. Há apenas uma fronteira que, por razões diplomáticas e políticas, se abre como se fosse uma porta mal fechada num prédio antigo. A Europa, sempre tão orgulhosa das suas fronteiras externas, vê-se de repente transformada num palco onde a entrada é livre e o bilhete é pago com a esperança de uma vida melhor.
As razões desta invasão são múltiplas e, como sempre, profundamente humanas. A primeira é a pobreza estrutural que assola vastas regiões de Marrocos, onde o desemprego juvenil atinge níveis que fariam corar qualquer ministro europeu. A segunda é a instrumentalização política do fenómeno migratório por parte das autoridades marroquinas, que, quando desejam pressionar Madrid ou Bruxelas, abrem a torneira humana com a mesma naturalidade com que um agricultor abre a rega. A terceira é a crença, quase religiosa, de que a Europa é um templo de abundância onde o simples facto de respirar o ar comunitário garante emprego, casa, subsídio e dignidade. Como escreveu Hannah Arendt, “a promessa de liberdade é suficiente para mover multidões” e, no caso de Ceuta e Melilla, moveu-as literalmente.
Mas há também razões mais subtis, que escapam ao olhar apressado dos comentadores televisivos. A primeira é o colapso da autoridade moral da União Europeia, que, ao proclamar os seus valores humanitários, cria expectativas que não consegue cumprir. A segunda é a fragilidade das fronteiras externas de Schengen, reguladas pelo Regulamento (UE) 2016/399, que estabelece que a protecção das fronteiras deve ser “eficaz, proporcional e respeitadora dos direitos fundamentais”. Ora, quando milhares de pessoas decidem atravessar uma fronteira ao mesmo tempo, a eficácia evapora-se, a proporcionalidade desaparece e os direitos fundamentais transformam-se num exercício retórico digno de um seminário académico.
A invasão de Ceuta e Melilla não é, portanto, um acidente histórico, mas sim o resultado previsível de uma combinação explosive de pobreza, esperança, manipulação política e fragilidade institucional. E, como sempre, a Europa reage com a sua habitual coreografia burocrática de reuniões extraordinárias, comunicados solenes, promessas de reforço das fronteiras, e uma enxurrada de documentos que, se fossem empilhados, poderiam servir de muralha mais eficaz do que a fronteira física.
As consequências desta invasão são igualmente dignas de análise. A primeira é o impacto imediato sobre a segurança espanhola, que se vê obrigada a mobilizar forças policiais e militares para controlar uma população que, embora desarmada, é numerosa e desesperada. A segunda é o efeito diplomático, que transforma as relações entre Espanha e Marrocos numa dança tensa onde cada passo é calculado. A terceira é o impacto sobre a política interna espanhola, onde partidos de direita e extrema-direita aproveitam o episódio para proclamar que a Europa está a ser invadida, enquanto partidos de esquerda tentam equilibrar a compaixão com a realidade logística.
Mas a consequência mais profunda é a erosão da confiança europeia na sua capacidade de gerir fronteiras. A Frontex, agência europeia responsável pela protecção das fronteiras externas, é frequentemente citada em relatórios que descrevem a situação como “complexa”, “desafiante” e “em evolução”. Termos vagos que, traduzidos para linguagem comum, significam simplesmente que ninguém sabe muito bem o que fazer. Como escreveu Zygmunt Bauman, “a modernidade líquida dissolve estruturas antes de criar soluções” e Ceuta e Melilla são precisamente fronteiras líquidas num continente que ainda acredita ser sólido.
A invasão também tem consequências sociais profundas. Os imigrantes que conseguem entrar são encaminhados para centros de acolhimento onde aguardam decisões administrativas que podem demorar meses ou anos. A Convenção de Genebra (1951) estabelece que todos têm direito a pedir asilo, mas não garante que o pedido seja aceite. O Regulamento Dublin III determina que o país de entrada é responsável pela análise do pedido, o que significa que Espanha fica com o ónus de gerir uma população que não escolheu e que, muitas vezes, não deseja permanecer no país. A Europa, sempre tão orgulhosa da sua solidariedade, revela-se surpreendentemente pouco solidária quando se trata de distribuir responsabilidades.
As consequências económicas também são relevantes. A chegada massiva de imigrantes cria pressão sobre os serviços sociais, mercado de trabalho e habitação. Mas também cria oportunidades como mão-de-obra barata, rejuvenescimento demográfico e dinamização de sectores que dependem de trabalhadores que aceitam salários que os europeus rejeitam. A economia, essa entidade pragmática, não tem ideologia mas apenas números.
Por fim, há a consequência simbólica, talvez a mais importante. A invasão de Ceuta e Melilla revela a fragilidade da narrativa europeia sobre fronteiras, segurança e valores. A Europa gosta de se ver como uma fortaleza humanitária, mas a realidade mostra que é uma fortaleza com portas de madeira e fechaduras enferrujadas. A invasão não é apenas um episódio migratório; é um espelho onde a Europa vê a sua incapacidade de conciliar princípios e prática.
Como escreveu Albert Camus, “a realidade é sempre mais difícil de suportar do que a ficção”. E, no caso de Ceuta e Melilla, a realidade é de que a Europa está a ser confrontada com o seu reflexo, e não gosta do que vê.
BIBLIOGRAFIA
Arendt, H. (1951). The Origins of Totalitarianism. Harcourt.
Bauman, Z. (2000). Liquid Modernity. Polity Press.
Camus, A. (1951). L’Homme Révolté. Gallimard.
Convenção de Genebra Relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951).
Diário da República. (2007). Lei n.º 23/2007, de 4 de julho.
Frontex. (2021). Annual Risk Analysis. Frontex Publications.
Regulamento (UE) 2016/399 do Parlamento Europeu e do Conselho (Código das Fronteiras Schengen).
Regulamento (UE) n.º 604/2013 (Dublin III).
El País. (2021). Ceuta vive la mayor crisis migratoria de su historia.
Le Monde. (2021). Crise migratoire entre l’Espagne et le Maroc.
Jorge Rodrigues Simão 2026

