Há quem diga e não sem uma certa razão poética que a meteorologia é a mais aristocrática das ciências modernas, pois exige dos seus cultores uma combinação rara de cálculo, superstição e teatralidade. A Agência Meteorológica da China, sempre diligente na arte de anunciar o que o céu ainda não decidiu, informou na altura oportuna que o centro da depressão tropical, esse intrépido viajante atmosférico, se encontrava a cerca de 930 quilómetros a leste de Manila, avançando com a determinação de um burocrata imperial rumo ao Mar do Sul da China, a uma velocidade entre 25 e 30 quilómetros por hora.
A notícia, apresentada com a solenidade habitual, fez recordar a célebre observação de Alexis de Tocqueville, quando este advertia que “o futuro não é mais do que o passado em movimento” (Tocqueville, L’Ancien Régime et la Révolution, 1856). E, de facto, nada mais previsível do que a previsibilidade falível das previsões meteorológicas, sobretudo quando estas envolvem tufões, ciclones e outras criaturas barométricas que parecem divertir-se em contradizer os homens.
As autoridades nacionais, sempre prontas a transformar o clima em matéria de Estado, apontaram para a chegada do tufão a terra entre as zonas costeiras de Zhuhai e Zhangpu, em Fujian, algures entre o final da tarde de sábado e a manhã de domingo. A precisão, como se vê, é digna de um relojoeiro suíço em plena crise nervosa. Após atingir terra, o tufão deveria virar gradualmente para norte‑noroeste, enfraquecendo como um ministro caído em desgraça.
Os Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) de Macau, cuja prudência é tão proverbial quanto a sua inclinação para o dramatismo, estimavam ontem que a tempestade poderia passar a cerca de 100 quilómetros do território, como ciclone tropical severo, por volta das 14h de Domingo, depois de ter tocado terra e perdido parte da sua majestade. Porém, 24 horas antes, na tarde de Sábado, as previsões apontavam para que a mesma tempestade estivesse a 400 quilómetros de Macau, ainda na categoria de tufão.
A volatilidade destas estimativas, que mudam com a ligeireza de um dândi oitocentista a escolher gravatas, recorda a advertência de John Ruskin: “Não há nada mais enganador do que um facto evidente” (Ruskin, The Stones of Venice, 1851). E, com efeito, o facto evidente de que o tufão se desloca não impede que cada instituição meteorológica o veja com olhos diferentes, como se o céu fosse um palco e cada observatório um crítico teatral.
Segundo as autoridades nacionais, a velocidade no centro da tempestade seria de cerca de 15 metros por segundo, valor que, traduzido para a linguagem dos leigos, significa simplesmente que o vento soprava com a impaciência típica de quem deseja chegar depressa ao sul da China para causar transtornos administrativos.
A tempestade que atravessava as Filipinas deveria passar a 400 quilómetros de Macau na tarde de Sábado, na categoria de tufão, e aproximar‑se a 100 quilómetros no Domingo enfraquecida. Esta narrativa, repetida com a cadência de um salmo meteorológico, parece querer convencer o público de que a natureza segue protocolos, despachos e circulares internas ilusão que, como bem notou o historiador Fernand Braudel, é típica das sociedades que confundem o tempo humano com o tempo da natureza (Braudel, La Méditerranée, 1949).
Enquanto Macau se preparava para içar o sinal 1 de tempestade, Hong Kong, sempre desejosa de demonstrar autonomia meteorológica, previa que o tufão chegasse a uma distância de 800 quilómetros da cidade ao fim do dia, momento em que deveria ser emitido o mesmo sinal. A coincidência não é casual e ambos os territórios seguem o critério de içar o sinal 1 quando a distância para o território era precisamente de 800 quilómetros.
A sincronia, porém, não deve ser interpretada como harmonia institucional. Antes pelo contrário: Macau e Hong Kong comportam‑se como dois irmãos que, embora partilhem o mesmo guarda‑chuva, insistem em discutir sobre quem o segura melhor. O Observatório de Hong Kong, por sua vez, previa que a tempestade atinjia a costa entre Huizhou e Shantou na madrugada de Domingo, a leste da região vizinha.
A Agência Meteorológica da China, sempre generosa em detalhes geográficos, previa que a tempestade atinjia a intensidade máxima entre tufão e tufão severo depois de atravessar o Canal de Bashi, esse estreito que separa a ilha filipina de Y’ami de Taiwan, e que, desde o século XIX, tem sido palco de tempestades que fariam corar de inveja os romancistas naturalistas.
O Canal de Bashi, aliás, merece uma nota de rodapé histórica pois foi mencionado por Joseph Conrad, mestre das narrativas marítimas, quando este observou que “o mar nunca é amigo do homem, no máximo tolera‑o” (Conrad, The Mirror of the Sea, 1906). E, de facto, o mar tolera‑nos apenas o suficiente para nos lembrar que não somos mais do que intrusos na sua vastidão.
Entre Sábado e Domingo, a zona costeira de Guangdong deveria ser fustigada por ventos fortes, aguaceiros intensos e trovoadas. A palavra “fustigada”, tão cara aos comunicados oficiais, evoca imagens de penitência medieval, como se a natureza estivesse a castigar a província por algum pecado administrativo.
Macau, sempre prudente, estimava que os aguaceiros fortes e trovoadas se prolongassem até Quarta‑feira, com a intensidade do vento a diminuir gradualmente a partir de Segunda‑feira. Esta previsão, que combinava pessimismo meteorológico com esperança burocrática, lembra a célebre ironia de Voltaire: “A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda” (Voltaire, Correspondance, 1767).
E, de facto, nada mais absurdo do que a certeza meteorológica, sobretudo quando esta é proclamada com a solenidade de um decreto imperial. As instituições meteorológicas, sejam elas chinesas, macaenses ou hongkonguenses, comportam‑se como oráculos modernos, oferecendo previsões que os cidadãos aceitam com a mesma fé com que os antigos consultavam Delfos embora, ao contrário da sacerdotisa, os meteorologistas raramente se escondam atrás de vapores alucinógenos.
A trajectória do tufão, que se deslocava como um diplomata apressado entre Manila, Luzon, Fujian, Guangdong e Macau, era acompanhada com a ansiedade típica das sociedades que, apesar de modernas, continuam a temer o céu como se este fosse governado por deuses caprichosos.
A meteorologia, essa ciência que mistura cálculo e adivinhação, tornou‑se uma espécie de teatro público, onde cada boletim é uma peça e cada mapa uma cenografia. Os cidadãos, por seu lado, assistem ao espectáculo com a mesma expectativa com que os burgueses oitocentistas aguardavam a estreia de uma nova ópera embora, neste caso, o protagonista seja um tufão e o desfecho raramente seja feliz.
Seja como for, o tufão aproximou-se, afastou-se, enfraqueceu-se, fortaleceu-se, criando mossa em Hong Kong e China e as instituições continuarão a emitir comunicados, alertas e sinais, numa coreografia que, apesar de repetitiva, mantém o seu encanto dramático. Afinal, como escreveu Charles Dickens, “o mundo está cheio de coisas mágicas, pacientemente à espera que os nossos sentidos se tornem mais apurados” (Dickens, The Old Curiosity Shop, 1840). E, entre essas coisas mágicas, contam‑se certamente os tufões, que, apesar de perigosos, possuem uma beleza trágica que nem a mais disciplinada das burocracias consegue domesticar.
Bibliografia
Braudel, F. (1949). La Méditerranée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II. Paris: Armand Colin.
Conrad, J. (1906). The Mirror of the Sea. London: Methuen.
Dickens, C. (1840). The Old Curiosity Shop. London: Chapman & Hall.
Ruskin, J. (1851). The Stones of Venice. London: Smith, Elder & Co.
Tocqueville, A. (1856). L’Ancien Régime et la Révolution. Paris: Michel Lévy.
Voltaire. (1767). Correspondance. Paris: Garnier.

