Avançamos para Gibraltar como quem se aproxima do último reduto de lucidez num continente que insiste em confundir geografia com superstição. O estreito, esse fragmento de mar que ainda nos liga ao grande oceano, tornou‑se a derradeira metáfora de uma Europa que, apesar de se proclamar adulta, continua a comportar‑se como um adolescente que acredita que o mundo acaba na soleira da porta. Gibraltar permanece livre não por mérito europeu, mas por inércia histórica, e essa liberdade residual deveria bastar para converter à fé estratégica até o mais empedernido céptico. Contudo, no centro do poder europeu, onde a política externa é tratada como um exercício de contabilidade moral, a evidência raramente convence.
A partir desse centro, que mais parece um labirinto administrativo do que um cérebro político, o assalto israelo‑americano ao Irão assume a forma de um cerco progressivo, meticulosamente desenhado, no qual a Europa corre o risco de se ver confinada a um mar interior cada vez mais condicionado. Não se trata de uma metáfora literária, mas de uma realidade que se impõe com a delicadeza de um martelo. A antiga noção de “ponte oceânica”, tão celebrada nos discursos europeus que confundem retórica com estratégia, dissolve‑se à medida que, de leste a oeste, se fecha uma válvula após outra. O continente que se habituou a acreditar que o mundo girava à sua volta descobre agora que a rotação pode muito bem continuar sem ele.
Hormuz arde, e não apenas no sentido figurado. O estreito transformou‑se num palco onde se encena diariamente a fragilidade das cadeias energéticas globais, enquanto a Europa observa com a serenidade de quem acredita que a energia nasce espontaneamente das tomadas. Bāb al‑Mandab encontra‑se sob fogo, e o Suez, esse velho corredor que durante décadas sustentou a ilusão europeia de centralidade, é atingido pelas guerras de reacção desencadeadas após o 7 de Outubro. A Europa, fiel ao seu estilo, reage com comunicados indignados, como se a linguagem diplomática tivesse o poder de extinguir incêndios.
Sobre os estreitos turcos reina um silêncio inquietante, desses que antecedem tempestades ou revelações desagradáveis. A fronteira entre o Mar Negro, palco da disputa russo‑ucraniana, e um Mediterrâneo oriental em convulsão com epicentro em Chipre tornou‑se um espaço onde a Europa prefere não olhar demasiado de perto, talvez com receio de descobrir que a sua influência é mais ténue do que gostaria de admitir. A política europeia para a região resume‑se a uma combinação de esperança e negação, duas estratégias que raramente produziram resultados satisfatórios.
A situação agrava‑se com o recomeço dos bombardeamentos entre Irão e Israel a 7 de Junho de 2026, episódio que apanhou a Europa na sua actividade favorita de discutir resoluções que ninguém lê e redigir declarações que ninguém teme. Enquanto mísseis cruzavam o céu do Médio Oriente, Bruxelas debatia vírgulas e adjectivos, como se a precisão gramatical pudesse substituir a ausência de poder. A reacção europeia, previsivelmente, consistiu em apelos à contenção, fórmula que se tornou tão repetitiva que perdeu qualquer significado. A contenção, aliás, é sempre exigida aos outros; a Europa reserva para si o direito de se conter até à irrelevância.
O cerco geopolítico que se fecha à volta do continente não resulta apenas da acção de terceiros, mas também da incapacidade europeia de reconhecer que o mundo não se organiza segundo os seus manuais normativos. A crença de que a ordem internacional pode ser moldada através de regulamentos e códigos de conduta revela uma ingenuidade que seria comovente se não fosse perigosa. A Europa insiste em tratar a geopolítica como uma disciplina menor, talvez porque exige uma coragem que o continente parece ter perdido algures entre a última cimeira e o próximo relatório.
A verdade é que a Europa se habituou a viver num estado de conforto estratégico, convencida de que a sua prosperidade era um direito adquirido e não uma consequência de equilíbrios frágeis. A globalização, que durante décadas funcionou como anestésico, começa agora a revelar os seus efeitos secundários. A dependência energética, a vulnerabilidade das rotas marítimas e a incapacidade de projectar poder transformaram o continente numa espécie de ilha mental, rodeada por mares que não controla. Gibraltar, nesse contexto, surge como o último lembrete de que a Europa outrora teve ambições marítimas, antes de se recolher à segurança ilusória das suas fronteiras internas.
O problema não reside apenas na perda de influência, mas na recusa obstinada em reconhecer essa perda. A Europa continua a falar como se fosse um actor central, quando na realidade se tornou um espectador privilegiado. Observa o mundo com a mesma atitude de quem assiste a uma peça de teatro, interessada, mas distante, convencida de que nada do que acontece no palco a afectará directamente. Esta ilusão de segurança é reforçada por uma burocracia que confunde actividade com eficácia e por uma elite política que prefere a gestão à liderança.
O cerco que se fecha sobre o continente não é apenas geográfico, mas conceptual. A Europa perdeu a capacidade de pensar estrategicamente, substituindo a análise pela moralização. Em vez de compreender o mundo, prefere julgá‑lo; em vez de agir, prefere comentar. Esta tendência para transformar cada crise numa oportunidade de reafirmar valores abstractos revela uma profunda incompreensão da natureza do poder. O mundo não se organiza em torno de princípios, mas de interesses, e a Europa, ao ignorar esta realidade, condena‑se a uma posição periférica.
A situação nos estreitos é apenas o sintoma mais visível desta decadência estratégica. Hormuz, Bāb al‑Mandab, Suez e os estreitos turcos formam um arco de pressão que deveria ter despertado a Europa para a necessidade de repensar a sua posição no mundo. Em vez disso, o continente optou por uma postura contemplativa, como se a observação atenta pudesse alterar o curso dos acontecimentos. A Europa tornou‑se especialista em diagnósticos, mas incapaz de prescrever tratamentos.
O recomeço dos bombardeamentos entre Irão e Israel a 7 de Junho deveria ter sido um momento de clarificação, uma oportunidade para reconhecer que a estabilidade regional é uma ficção conveniente. Contudo, a Europa reagiu com a previsibilidade de um relógio avariado com declarações de preocupação, apelos à moderação e promessas de diálogo. Esta coreografia diplomática, repetida até à exaustão, não convence ninguém, nem mesmo os seus autores. A Europa fala, mas o mundo deixou de ouvir.
A verdade é que o continente se encontra numa encruzilhada. Pode continuar a acreditar que a sua força reside na superioridade moral, ou pode finalmente reconhecer que o poder exige mais do que boas intenções. Gibraltar, com a sua posição estratégica e a sua história de resistência, oferece uma metáfora que a Europa faria bem em considerar. O estreito permanece aberto não porque a Europa o protege, mas porque outros o mantêm funcional. Esta dependência deveria ser motivo de reflexão, mas o continente prefere ignorar o óbvio.
A Europa precisa de recuperar a capacidade de pensar em termos de poder, não como exercício de dominação, mas como condição de sobrevivência. O mundo não espera por quem hesita, e a hesitação europeia tornou‑se crónica. O continente que outrora navegou oceanos e moldou rotas comerciais encontra‑se agora à deriva, preso a um mar interior que se estreita a cada conflito. A ponte oceânica que ligava a Europa ao mundo transformou‑se numa memória distante, evocada em discursos mas ausente na prática.
O cerco geopolítico que se fecha sobre a Europa não é inevitável, mas exige uma resposta que vá além da retórica. O continente precisa de reconhecer que a sua segurança depende de factores que não controla e que a sua influência só poderá ser recuperada através de uma estratégia coerente. Gibraltar, Hormuz, Bāb al‑Mandab, Suez e os estreitos turcos não são apenas pontos no mapa, mas lembretes de que o mundo continua a mover‑se, com ou sem a Europa.
A Europa pode continuar a contemplar o mundo a partir do conforto das suas instituições, ou pode finalmente aceitar que a geopolítica não é uma ameaça, mas uma ferramenta. O continente que se habituou a acreditar que a história tinha terminado descobre agora que ela continua, implacável, indiferente às suas ilusões. Gibraltar permanece como o último estreito livre, mas até esse símbolo pode desaparecer se a Europa insistir em confundir prudência com passividade.
No fim, a escolha é simples, ou a Europa recupera a coragem de olhar para o mundo tal como ele é, ou resigna‑se a ser uma nota de rodapé na história que outros escreverão. O estreito permanece aberto, mas o tempo estreita‑se.
Bibliografia
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