A história tem destas ironias deliciosas pois quanto mais os Estados se esforçam por parecerem impávidos, mais revelam o nervosismo que os corrói. Pirro, rei do Epiro, que o diga. Depois de massacrar romanos em batalhas tão gloriosas quanto suicidárias, concluiu que outra vitória daquelas equivaleria a uma derrota. Dois milénios depois, Teerão parece determinado a repetir a façanha, convencido de que a assinatura do acordo com Washington representa um triunfo inequívoco, uma espécie de coroação estratégica que o mundo inteiro deveria aplaudir. A realidade, porém, tem o péssimo hábito de estragar festas.
O acordo, essa tapeçaria de cláusulas, ambiguidades e promessas que ninguém pretende cumprir integralmente foi apresentado como um momento histórico. Para os iranianos, um reconhecimento tácito de que resistiram ao cerco económico, sobreviveram ao bloqueio do Estreito de Hormuz e obrigaram os Estados Unidos a regressar à mesa das negociações. Para os americanos, uma vitória diplomática que, segundo Donald Trump, supera o que Barack Obama alcançou com o JCPOA. A retórica é exuberante, mas a substância é frágil. E, como sempre, quando a política se transforma em teatro, o público percebe rapidamente que os actores estão a exagerar.
A recusa de Trump em assinar o acordo na presença da delegação iraniana preferindo uma assinatura electrónica, acompanhada de um monólogo auto‑celebratório foi apenas o primeiro sinal de que a narrativa da “vitória americana” não convence nem os aliados mais indulgentes. Os sauditas, por exemplo, reagiram com a subtileza de um elefante numa loja de porcelanas e anunciaram uma “NATO árabe”, envolvendo paquistaneses, egípcios e turcos, como quem diz que a garantia de segurança dos Estados Unidos vale hoje tanto como uma nota de três dólares. O Iraque, sempre prudente, colocou o exército a proteger os seus poços petrolíferos, não fosse a paz recém‑assinada revelar‑se tão sólida quanto um castelo de cartas. Israel, fiel à sua tradição de interpretar acordos como sugestões, continuou a bombardear o Líbano, demonstrando que a letra do documento tem menos autoridade do que a meteorologia.
As companhias de navegação ocidentais, traumatizadas pelo bloqueio de Hormuz, avisaram que a normalidade demorará meses a regressar e mesmo assim será uma normalidade frágil, desconfiada, pronta a desmoronar ao primeiro sinal de tensão. Os iranianos, por seu lado, celebraram o acordo como uma prova de que Trump estava “desesperado” por uma saída honrosa. A verdade, como sempre, está algures entre a propaganda e o auto‑engano.
Do ponto de vista iraniano, os catorze pontos do acordo como o eco trágico dos catorze pontos de Wilson parecem um cheque em branco. O cessar‑fogo no Líbano é declarado. Os Estados Unidos comprometem‑se a não interferir nos assuntos internos do Irão, o que equivale a reconhecer que a República Islâmica continuará onde está, com os mesmos actores, as mesmas estruturas e a mesma lógica de poder. Abre‑se uma negociação de sessenta dias sobre o programa nuclear, prazo que Teerão utilizará com a mestria habitual para ganhar tempo, multiplicar ambiguidades, explorar fissuras entre aliados e transformar cada reunião num exercício de resistência diplomática.
O Irão obtém ainda o direito de diluir em território nacional os quatrocentos quilos de urânio enriquecido e de manter um programa nuclear civil que, como toda a gente sabe, é a antecâmara do militar. Os Estados Unidos comprometem‑se a retirar as suas forças do Estreito de Hormuz trinta dias após o acordo definitivo, enquanto Teerão garante o livre-trânsito marítimo durante sessenta dias, findos os quais negociará com os países do Golfo o regime futuro de passagem. A palavra “pedágio” não aparece no texto, mas paira sobre ele como um fantasma particularmente ruidoso.
Washington promete financiar a reconstrução iraniana com trezentos mil milhões de dólares uma quantia que faria corar qualquer plano Marshall e desbloquear cem mil milhões de dólares congelados no estrangeiro. O Irão retoma imediatamente a venda de petróleo. Os mísseis e os aliados regionais, como Hezbollah e os huthis, ficam fora da discussão, para grande irritação de Israel. Em suma, um acordo que parece ter sido escrito por alguém que decidiu agradar a todos e acabou por não satisfazer ninguém.
É natural que os pasdaran, verdadeiros donos do país, se sintam legitimados a cantar vitória. Politicamente, reforçam a narrativa de que resistiram ao maior poder militar do planeta. Militarmente, preservam a capacidade de projecção regional. Economicamente, esperam extrair o máximo de benefícios possíveis para compensar os danos colossais sofridos durante o conflito e para estabilizar uma economia que antes da guerra estava à beira da implosão, alimentando protestos que ameaçavam a legitimidade do regime.
Mas a tentação de transformar Hormuz numa caixa registadora pode revelar‑se um erro monumental. Impor um regime de transição a pagamento teria efeitos devastadores no tráfego marítimo global, perpetuando a instabilidade e socializando os custos do conflito muito para além do razoável. Além disso, aceleraria os esforços intensos, embora tecnicamente complexos para encontrar rotas alternativas, reduzindo a dependência do Estreito e, consequentemente, diminuindo o poder de dissuasão do Irão. O que hoje é uma arma estratégica poderia amanhã tornar‑se um instrumento obsoleto, incapaz de intimidar adversários que não dependem daquela passagem.
Teerão corre, portanto, o risco de cometer o mesmo erro de Trump ao confundir euforia com estratégia. A sensação de vitória pode ser intoxicante, mas raramente é boa conselheira. Os pasdaran, apesar de tudo, parecem menos propensos a decisões impulsivas do que a administração americana. Mas ninguém está imune ao erro, sobretudo quando a política interna exige demonstrações de força e quando a opinião pública, exausta pela guerra e pela crise económica, exige resultados imediatos.
O acordo, visto com frieza, é uma vitória táctica para o Irão, mas uma vitória que pode transformar‑se numa derrota estratégica se Teerão insistir em explorar o Estreito de Hormuz como instrumento de chantagem económica. A história está repleta de exemplos de Estados que confundiram ganhos momentâneos com vantagens duradouras. Pirro venceu batalhas brilhantes, mas perdeu a guerra. O Irão pode estar a caminhar na mesma direcção, convencido de que o mundo aceitará indefinidamente a sua lógica de pressão.
A verdade é que o sistema internacional não tolera vácuos de poder nem dependências excessivas. Se o Irão exagerar na exploração de Hormuz, os seus adversários encontrarão alternativas mais caras no imediato, mas mais seguras no longo prazo. E quando essas alternativas existirem, Teerão descobrirá que perdeu a sua principal alavanca estratégica. A vitória transformar‑se‑á então numa ilusão, tão frágil quanto as promessas inscritas no acordo.
O mais irónico é que o Irão, ao tentar maximizar os seus ganhos, pode acabar por reduzir a sua própria relevância. A força de Hormuz reside precisamente na sua indispensabilidade. Se deixar de ser indispensável, deixa de ser força. E um país que constrói a sua estratégia externa sobre um único instrumento corre o risco de ver esse instrumento tornar‑se inútil.
O acordo entre Washington e Teerão é, portanto, um triunfo ambíguo. Para os iranianos, representa a sobrevivência do regime e a recuperação económica. Para os americanos, uma saída política que evita uma guerra prolongada. Para os países da região, uma fonte de ansiedade permanente. Para o sistema internacional, um lembrete de que a estabilidade é sempre provisória.
No fim, resta a pergunta essencial: quem ganhou realmente? A resposta, como sempre, depende do tempo. Hoje, Teerão celebra. Amanhã, talvez descubra que a vitória tinha um preço oculto. Pirro, se pudesse, sorriria com amargura.
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