Há momentos na História em que a grande política desaparece dos mapas estratégicos, dos gabinetes ministeriais e dos discursos inflamados dos chefes de Estado para regressar ao seu ponto de partida mais básico que é a sobrevivência quotidiana. A guerra na Ucrânia chegou precisamente a esse patamar. Depois de milhares de análises sobre ofensivas, contraofensivas, sanções económicas, drones, satélites, mísseis hipersónicos e equilíbrios geopolíticos, a realidade acabou por reencontrar uma verdade elementar que os estrategas frequentemente esquecem. Uma cidade sem electricidade deixa de ser uma cidade moderna. Uma casa sem aquecimento deixa de ser um lar. E um país sem energia transforma-se rapidamente num território onde a política dá lugar à resistência física.

Os ataques russos à infra-estrutura energética ucraniana e os seus efeitos sobre bairros inteiros de Kiev oferece uma imagem particularmente reveladora do conflito contemporâneo. O Inverno passado que ameaça repetir-se de novo mostra que durante dias, centenas de milhares de habitantes enfrentaram temperaturas negativas sem aquecimento central, enquanto equipas de electricistas tentavam reparar sistemas continuamente destruídos por sucessivos bombardeamentos. O cenário possui algo de extraordinariamente simbólico. No século da inteligência artificial, das comunicações quânticas e das promessas tecnológicas ilimitadas, a sobrevivência de uma metrópole continua dependente da capacidade de manter uma rede eléctrica operacional.

Talvez seja essa a grande ironia do progresso. Quanto mais sofisticadas se tornam as sociedades, mais vulneráveis se tornam às infra-estruturas que sustentam o seu funcionamento. Em “The Revenge of Geography”, Robert Kaplan observava que as limitações físicas continuam a exercer influência determinante sobre a política internacional, independentemente das ilusões criadas pela globalização. A guerra na Ucrânia confirma essa observação de forma brutal. Durante muitos anos, acreditou-se que o poder militar do século XXI se concentraria sobretudo em ataques informáticos, manipulação digital, desinformação e tecnologias invisíveis. Tudo isso existe. Tudo isso desempenha um papel relevante. Mas quando se analisam os efeitos concretos do conflito, surgem imagens muito mais antigas como abastecimento de água interrompido, centrais energéticas destruídas, aquecimento indisponível e populações civis expostas às consequências do inverno.

É uma guerra moderna travada frequentemente com objectivos medievais. A destruição da infra-estrutura energética levanta também uma questão moral que raramente encontra resposta satisfatória. Qual é exactamente o propósito estratégico de privar centenas de milhares de civis de aquecimento durante o inverno? A explicação oficial costuma apontar para a necessidade de enfraquecer a capacidade logística do adversário. Contudo, quando se observam os resultados concretos, torna-se difícil ignorar uma conclusão desconfortável de que grande parte do sofrimento recai inevitavelmente sobre pessoas que não participam directamente nas operações militares.

Carl von Clausewitz escreveu que a guerra constitui a continuação da política por outros meios. A formulação tornou-se célebre. Menos citado é o facto de Clausewitz ter vivido numa época em que os sistemas energéticos modernos não existiam. Se estivesse vivo hoje, provavelmente acrescentaria que a guerra contemporânea também consiste na interrupção organizada das rotinas civis. A electricidade tornou-se uma arma. O abastecimento energético tornou-se um alvo. O inverno tornou-se um aliado involuntário de estratégias militares.

E os cidadãos transformaram-se em reféns de infra-estruturas cuja existência costumava ser considerada garantida.  Esta realidade revela algo particularmente perturbador sobre o século XXI. Apesar de toda a complexidade tecnológica, continuamos dependentes de sistemas frágeis. Bastam alguns ataques bem coordenados para transformar bairros inteiros em espaços sem aquecimento, iluminação e comunicações estáveis. A civilização continua extraordinariamente sofisticada. Continua igualmente vulnerável.

Entretanto, decorrem negociações diplomáticas. Delegações encontram-se em cidades neutras, trocam propostas, discutem cessar-fogo, analisam garantias de segurança e procuram fórmulas de compromisso. A diplomacia mantém-se activa. Mas existe algo quase surreal na coexistência destas duas realidades. Enquanto diplomatas discutem mapas, civis procuram calor. Enquanto negociadores procuram fórmulas jurídicas, equipas técnicas tentam restaurar electricidade.

Enquanto especialistas debatem cenários geopolíticos, famílias perguntam-se se a água continuará disponível na manhã seguinte. A distância entre a linguagem diplomática e a experiência humana nunca pareceu tão evidente. Henry Kissinger observava que as negociações de paz bem-sucedidas exigem frequentemente um equilíbrio entre aquilo que é militarmente possível e aquilo que é politicamente aceitável. O problema é que este conflito tornou-se um laboratório de exigências incompatíveis. Moscovo continua a exigir concessões territoriais e garantias estratégicas. Kiev insiste na preservação da soberania e da integridade territorial. Ambos os lados apresentam argumentos compreensíveis do seu ponto de vista. Ambos os lados consideram inaceitáveis as exigências do adversário.

É precisamente por isso que a paz parece simultaneamente necessária e distante. As negociações permanecem dependentes da disposição política de Vladimir Putin para aceitar compromissos e da capacidade de Volodymyr Zelensky justificar eventuais concessões perante uma sociedade profundamente marcada pela guerra. Este segundo aspecto é frequentemente subestimado. As guerras não são travadas apenas por exércitos. São sustentadas por narrativas nacionais, emoções colectivas e memórias históricas.

Uma paz duradoura exige mais do que assinaturas. Exige legitimidade. E a legitimidade é frequentemente mais difícil de construir do que uma linha de defesa. O problema torna-se ainda mais complexo quando se observam as dinâmicas internas das sociedades envolvidas. A resistência ucraniana demonstrou uma resiliência que surpreendeu muitos observadores internacionais. O que inicialmente parecia uma guerra rápida transformou-se num conflito prolongado. E quanto mais tempo um conflito dura, mais difícil se torna convencer uma população de que determinados sacrifícios devem ser considerados aceitáveis.

Samuel Huntington observava que os conflitos modernos raramente terminam apenas por exaustão militar. Terminam quando uma ou ambas as partes concluem que os custos futuros superam os benefícios esperados. A dificuldade reside precisamente nessa avaliação. Em contextos de forte mobilização nacional, os custos tornam-se mais toleráveis. As expectativas tornam-se mais rígidas. E os compromissos tornam-se politicamente perigosos. Talvez por isso a guerra continue. Talvez por isso as negociações avancem tão lentamente. Talvez por isso os civis continuem a viver entre duas realidades paralelas de uma guerra militar e uma guerra energética.

Existe ainda outro elemento fascinante nesta história. Enquanto os ataques à infra-estrutura procuram criar dificuldades materiais, a resistência dos habitantes parece assentar cada vez mais numa lógica psicológica. Os testemunhos apresentados revelam uma população que interpreta os bombardeamentos não como razões para desistir, mas como motivos adicionais para continuar. A lógica pode parecer paradoxal. Mas a História está cheia destes paradoxos. Os bombardeamentos de Londres durante a II Guerra Mundial não provocaram o colapso britânico.

Os ataques a cidades alemãs não destruíram imediatamente a capacidade de resistência do regime nazi. As campanhas aéreas no Vietname não produziram os resultados estratégicos inicialmente previstos. A capacidade humana para suportar sofrimento colectivo é frequentemente superior àquela que os estrategas imaginam. Timothy Snyder, em “The Road to Unfreedom”, argumenta que a resistência política nasce frequentemente da percepção de que uma comunidade enfrenta uma ameaça existencial. Quando essa percepção se instala, factores materiais deixam de ser os únicos elementos determinantes. Identidade, memória e dignidade passam igualmente a influenciar comportamentos.

A Ucrânia parece viver precisamente esse fenómeno. E isso ajuda a explicar porque razão a destruição da infra-estrutura energética não produziu os efeitos políticos que alguns poderiam antecipar. Entretanto, a Europa observa. Observa porque compreende que esta guerra ultrapassa a Ucrânia. Observa porque entende que a energia deixou de ser apenas uma questão económica. Observa porque percebe que a segurança das infra-estruturas críticas passou a integrar o centro da estratégia contemporânea.

Durante décadas, os europeus discutiram mercados energéticos sobretudo em termos de preços, concorrência e sustentabilidade ambiental. O conflito demonstrou que a energia continua também a ser uma questão de segurança nacional. O fornecimento energético é simultaneamente um serviço económico e um instrumento estratégico. Ignorar esta realidade tornou-se impossível. No final, aquilo que mais impressiona nesta história não são os mísseis, os discursos políticos ou as negociações internacionais.

É a electricidade. Porque a eletricidade representa algo maior do que uma simples infra-estrutura. Representa normalidade, previsibilidade, civilização e capacidade das sociedades modernas funcionarem diariamente sem pensar constantemente na sua sobrevivência.  Quando a guerra transforma um interruptor num objecto politicamente relevante, compreende-se que o conflito atingiu um nível particularmente profundo.

Já não se trata apenas de território, de estratégia e de diplomacia. Trata-se da tentativa de preservar as condições mínimas que permitem a uma sociedade continuar a comportar-se como uma sociedade. E essa talvez seja a dimensão mais trágica de qualquer guerra prolongada que é a transformação das necessidades mais banais em conquistas extraordinárias.

Bibliografia

  • Clausewitz, Carl von. Da Guerra.
  • Kissinger, Henry. Diplomacy.
  • Kaplan, Robert D. The Revenge of Geography.
  • Snyder, Timothy. The Road to Unfreedom.
  • Huntington, Samuel P. The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order.
  • Freedman, Lawrence. Strategy: A History.
  • Applebaum, Anne. Twilight of Democracy.
  • Harari, Yuval Noah. Nexus: A Brief History of Information Networks from the Stone Age to AI.
  • Aron, Raymond. Peace and War: A Theory of International Relations.
  • Mearsheimer, John J. The Tragedy of Great Power Politics.

Jorge Rodrigues Simão, 2026