Há poucas habilidades mais sofisticadas no mundo contemporâneo do que a capacidade de venerar o autoritarismo enquanto se proclama amor incondicional pela liberdade. Trata-se de uma arte refinada, elegante e socialmente respeitável. Já ninguém defende abertamente a censura, mas muitos desejam ardentemente que determinadas opiniões desapareçam. Já ninguém pede ditadores em praça pública, mas abundam os cidadãos que sonham com governantes suficientemente fortes para imporem silêncio aos seus adversários. Já ninguém declara amar a submissão, mas cresce o número dos que se sentem desconfortáveis perante a responsabilidade de pensar pela própria cabeça. A antiga tirania apresentava-se de uniforme e voz ameaçadora; a moderna surge vestida de eficiência, segurança, protecção e bem comum. Mudou o guarda-roupa, preservou-se a tentação.
O fenómeno não é novo. No século XVI, Étienne de La Boétie, no seu extraordinário “Discours de la servitude volontaire”, interrogava-se sobre um mistério aparentemente insolúvel de qual a razão porque multidões inteiras obedecem espontaneamente a um único homem quando possuem força suficiente para o derrubar? A pergunta continua desconfortavelmente actual. Afinal, a maioria das formas de opressão não nasce da força dos tiranos, mas da resignação dos governados. O poder raramente se instala sozinho à mesa; precisa sempre de convidados disponíveis para lhe servir o jantar.
Nas democracias contemporâneas, a servidão voluntária tornou-se particularmente sofisticada. O cidadão moderno acredita-se independente, crítico e emancipado. Possui acesso imediato a uma quantidade de informação que faria inveja aos académicos de outras épocas. No entanto, nunca foi tão fácil encontrar indivíduos que repetem opiniões pré-fabricadas como se fossem conclusões pessoais. A liberdade transformou-se numa espécie de artigo decorativo, exibido na montra das convicções públicas, mas raramente utilizado no quotidiano intelectual. Existe uma veneração quase religiosa pela autonomia individual, desde que todos escolham rigorosamente as mesmas opiniões aprovadas pela respectiva tribo ideológica.
George Orwell, em “Nineteen Eighty-Four”, compreendeu magistralmente esta tendência. Quando escreveu que “quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, não descrevia apenas regimes totalitários. Descrevia igualmente a tentação permanente de manipular narrativas para tornar a realidade mais conveniente. A diferença é que actualmente muitos mecanismos de conformidade não exigem polícia política. Bastam redes sociais, pressão social e o desejo humano de pertença. O medo do isolamento continua a ser um instrumento de controlo extraordinariamente eficaz.
O mais divertido, se a palavra for aceitável perante o espectáculo observado, reside na criatividade com que cada geração imagina ter descoberto uma forma inédita de restringir liberdades em nome da própria liberdade. O raciocínio apresenta geralmente uma estrutura simples. Defende-se a liberdade de expressão, excepto para quem exprime ideias consideradas perigosas. Defende-se o pluralismo, desde que não inclua determinadas posições. Defende-se a tolerância, excepto perante os intolerantes, categoria cuja definição muda convenientemente conforme as necessidades políticas do momento. O resultado é uma extraordinária capacidade de justificar medidas autoritárias utilizando precisamente o vocabulário das sociedades livres.
A este propósito, Hannah Arendt, em “The Origins of Totalitarianism”, advertia que os movimentos totalitários prosperam quando os indivíduos deixam de distinguir entre realidade e ficção politicamente conveniente. Essa observação continua perturbadora. O problema das sociedades modernas não é apenas a existência da mentira. A mentira sempre existiu. O verdadeiro perigo surge quando uma comunidade perde interesse pela verdade objectiva e passa a exigir apenas versões emocionalmente satisfatórias dos acontecimentos. Nesse momento, o debate público converte-se numa competição entre mitologias rivais.
Outro elemento fascinante da arte de amar o autoritarismo consiste no culto da protecção. O cidadão contemporâneo exige protecção contra discursos ofensivos, informações perturbadoras, opiniões desconfortáveis, riscos económicos, sanitários, climáticos, tecnológicos e, ocasionalmente, até contra os inerentes à própria liberdade. A intenção pode ser nobre. O resultado, porém, produz frequentemente um paradoxo curioso de que quanto mais segurança se procura, mais poder se entrega a estruturas destinadas precisamente a limitar a autonomia individual. A liberdade torna-se progressivamente condicionada por especialistas, reguladores, autoridades, comissões, observatórios e inúmeras entidades dedicadas a proteger o cidadão até deste perigoso hábito de decidir por si mesmo.
Não deixa de ser irónico que as sociedades mais instruídas da História revelem simultaneamente uma crescente dificuldade em aceitar a existência de divergências legítimas. Multiplicam-se os apelos ao consenso universal, como se a pluralidade de opiniões representasse uma falha do sistema democrático e não a sua principal característica. Quem discorda deixa de ser simplesmente um adversário intelectual. Passa a representar uma ameaça moral, cultural ou civilizacional. O debate cede lugar à excomunhão. A argumentação é substituída pela catalogação. E a refutação dá lugar ao desejo, cuidadosamente disfarçado, de silenciar.
Alexis de Tocqueville, em “Democracy in America”, antecipou algo semelhante ao identificar aquilo que designava por “tirania da maioria”. O perigo não residia apenas no poder do Estado, mas também na capacidade das maiorias sociais para impor conformismo intelectual. Dois séculos depois, a sua reflexão parece profética. O policiamento das ideias já não depende exclusivamente de governos. É frequentemente exercido por multidões digitais, grupos organizados e mecanismos colectivos de reprovação social que funcionam com impressionante eficácia.
Naturalmente, esta tendência não pertence a uma única corrente política. A paixão pelo autoritarismo distribui-se democraticamente por quase todo o espectro ideológico. Existem autoritários de esquerda convencidos de que a liberdade deve ser limitada em nome da igualdade. Existem autoritários de direita persuadidos de que a liberdade deve ser restringida em nome da ordem. Existem autoritários tecnocráticos que acreditam que especialistas deveriam governar sem interferência popular. Existem autoritários culturais que consideram determinadas sensibilidades demasiado frágeis para conviver com opiniões divergentes. Existem até autoritários libertários, uma contradição tão deliciosa quanto encontrar um vegetariano proprietário de um matadouro.
Talvez o problema fundamental resida numa característica profundamente humana em que a liberdade é frequentemente celebrada em teoria e evitada na prática. Ser livre implica escolher, assumir consequências, conviver com a incerteza e tolerar a possibilidade de erro. Trata-se de uma tarefa exigente. É muito mais confortável delegar responsabilidades numa autoridade benevolente. A história demonstra repetidamente que essas autoridades raramente permanecem benevolentes durante muito tempo, mas o entusiasmo renova-se geração após geração com admirável persistência.
Erich Fromm, em “Escape from Freedom”, observou que muitos indivíduos fogem da liberdade precisamente porque ela produz ansiedade. A submissão oferece um refúgio psicológico sedutor. Quem obedece transfere parte do peso das decisões para uma entidade superior. O conforto emocional dessa transferência ajuda a explicar porque razão projectos autoritários conseguem atrair apoio mesmo entre populações educadas e aparentemente conscientes dos riscos envolvidos.
O paradoxo atinge o seu auge quando sociedades que se consideram profundamente democráticas começam a adoptar comportamentos incompatíveis com os princípios que afirmam defender. Valoriza-se a diversidade em quase todos os domínios, excepto no pensamento. Exige-se inclusão universal, desde que determinados grupos permaneçam excluídos. Celebra-se o diálogo enquanto se procuram mecanismos para reduzir o número de interlocutores autorizados a participar nele. O resultado é uma política frequentemente dominada por uma curiosa combinação de superioridade moral e intolerância prática.
Entretanto, o autoritarismo continua a seduzir porque oferece respostas simples para problemas complexos. Promete ordem sem conflito, consenso sem debate, segurança sem risco e progresso sem contradições. Trata-se de uma oferta irresistível para sociedades cansadas da lentidão inerente aos processos democráticos. O pequeno detalhe frequentemente omitido é que a democracia foi concebida precisamente para ser lenta, imperfeita e ruidosa. A sua força não reside na eficiência absoluta, mas na capacidade de limitar concentrações excessivas de poder.
A verdadeira arte de amar o autoritarismo sem o confessar consiste, portanto, em transformar cada restrição numa virtude moral, cada limitação numa necessidade histórica e cada redução da liberdade numa prova de progresso. O admirador moderno da autoridade raramente se apresenta como inimigo da democracia. Pelo contrário, apresenta-se como seu mais fervoroso defensor. Apenas considera necessário corrigir alguns excessos, ajustar algumas liberdades inconvenientes e silenciar algumas vozes perturbadoras. Tudo naturalmente pelo bem da própria liberdade.
No final, permanece uma verdade desconfortável. As democracias raramente morrem apenas pelas mãos dos seus inimigos declarados. Frequentemente enfraquecem devido ao entusiasmo dos seus defensores ocasionais, aqueles que, convencidos da sua superioridade moral, começam lentamente a considerar a liberdade um inconveniente administrável. A história sugere que o perigo não surge quando alguém grita abertamente contra a liberdade. Surge quando multidões inteiras, entre aplausos e boas intenções, concluem que a liberdade seria perfeita se pudesse ser um pouco menos livre.
Bibliografia
- Arendt, Hannah. The Origins of Totalitarianism. Harcourt, 1951.
- La Boétie, Étienne de. Discours de la servitude volontaire. c. 1576.
- Orwell, George. Nineteen Eighty-Four. Secker & Warburg, 1949.
- Tocqueville, Alexis de. Democracy in America. 1835-1840.
- Fromm, Erich. Escape from Freedom. Farrar & Rinehart, 1941.
- Hayek, Friedrich A. The Road to Serfdom. Routledge, 1944.
- Popper, Karl. The Open Society and Its Enemies. Routledge, 1945.
Jorge Rodrigues Simão, 2026
