Há uma diferença fundamental entre prosperar e resistir. Prosperar significa construir riqueza, aumentar produtividade, melhorar salários, consolidar instituições e preparar o futuro. Resistir significa apenas não cair. Um doente pode resistir durante anos sem recuperar a saúde. Um edifício pode permanecer de pé apesar das fissuras que atravessam as suas paredes. Uma empresa pode sobreviver muito tempo antes de reconhecer os seus problemas estruturais. E uma economia mundial pode continuar a crescer enquanto acumula vulnerabilidades suficientes para preocupar qualquer observador minimamente atento.

É precisamente essa a mensagem que emerge do mais recente relatório do Fundo Monetário Internacional. A economista-chefe do FMI, Silvana Tenreyro, reconheceu que a economia global demonstrou uma capacidade extraordinária de adaptação perante uma sucessão quase inacreditável de choques como a pandemia, rupturas nas cadeias de abastecimento, guerras na Europa e no Médio Oriente, inflação persistente, turbulência financeira e tensões comerciais. Ainda assim, deixou um aviso inequívoco de qie a resiliência mundial está sob pressão crescente e aproxima-se dos seus limites. O FMI prevê um crescimento global de 3,1 por cento em 2026 e 3,4 por cento em 2027, ao mesmo tempo que a inflação mundial deverá atingir 4,7 por cento este ano antes de recuar para 4,1 por cento no próximo.

A notícia foi recebida com aquele entusiasmo moderado que caracteriza a análise económica contemporânea. Não há recessão global. Não há colapso financeiro. Não há pânico generalizado. Logo, parece que tudo corre razoavelmente bem. Contudo, esta conclusão revela uma das grandes ilusões do nosso tempo. Habituámo-nos a avaliar o estado da economia mundial não pela sua qualidade, mas pela ausência de catástrofe. O simples facto de ainda não estarmos em crise profunda passou a ser interpretado como prova de sucesso.

É uma forma curiosa de medir progresso. Seria como celebrar uma cirurgia porque o paciente não morreu durante a operação, esquecendo que continua internado nos cuidados intensivos. O FMI identifica duas forças principais que moldam a economia actual. A primeira é negative do aumento dos preços da energia e das matérias-primas provocado pelos conflitos geopolíticos. A segunda é positive do investimento associado à inteligência artificial, que impulsiona o comércio, os mercados financeiros e a actividade económica. Estas duas forças actuam em direcções opostas. Uma trava o crescimento e alimenta a inflação. A outra gera investimento e entusiasmo. Ambas, porém, exercem pressão sobre os preços.

O mundo encontra-se numa posição curiosa. Uma parte da economia depende da guerra para explicar os seus problemas. Outra depende da inteligência artificial para justificar o seu optimismo. Entre uma e outra, vive uma população que continua a enfrentar custos elevados de energia, habitação e bens essenciais enquanto observa empresas tecnológicas atingirem valorizações que fariam corar os especuladores mais ousados de outras épocas.

Talvez esta seja a verdadeira fotografia económica do século XXI. Uma civilização capaz de produzir algoritmos sofisticados que redigem textos, analisam imagens e processam milhões de dados por segundo, mas que continua vulnerável às mesmas perturbações energéticas que preocupavam governantes há cinquenta anos.

O mais interessante é que o próprio FMI parece reconhecer uma contradição central da actual conjuntura. Boa parte da resiliência global resulta de mecanismos extraordinários que não podem ser utilizados indefinidamente. As economias adaptaram-se através do redireccionamento de fornecimentos energéticos, da utilização de reservas acumuladas, do aumento da produção noutras regiões, da substituição de fontes de energia e da melhoria da eficiência. Sem essas adaptações, o crescimento mundial teria sido significativamente inferior.

Mas existe um problema evidente. As reservas acabam. As margens de adaptação diminuem. As almofadas de protecção desgastam-se. E os governos parecem agir como proprietários de uma casa antiga que utilizam sucessivamente os fundos de emergência para resolver problemas imediatos sem nunca realizarem as obras estruturais necessárias. A própria linguagem utilizada pelo FMI merece atenção. Durante anos, os organismos internacionais falaram em gestão de crises. Agora falam em reconstrução. A diferença é profunda. Gerir crises significa minimizar danos. Reconstruir implica admitir que o modelo actual apresenta limitações significativas.

A economia mundial esteve ocupada a sobreviver. Agora precisa de começar a pensar em reformar-se. Naturalmente, esta tarefa surge no momento menos conveniente possível. A dívida pública global encontra-se em níveis historicamente elevados. Os bancos centrais continuam a combater pressões inflacionistas. As tensões geopolíticas multiplicam-se. O crescimento económico tornou-se mais desigual. E o entusiasmo em torno da inteligência artificial criou uma nova fonte de dependência económica que poucos países controlam efectivamente.

O relatório do FMI destaca que os maiores beneficiários do actual contexto tendem a ser os países exportadores de energia e aqueles profundamente integrados nas cadeias tecnológicas ligadas à inteligência artificial. Pelo contrário, as economias importadoras de energia e menos expostas ao sector tecnológico enfrentam desafios significativamente maiores. É uma conclusão particularmente reveladora.

Durante décadas, a globalização foi apresentada como um mecanismo de convergência económica. Todos beneficiariam. Todos cresceriam. Todos participariam nos ganhos resultantes da integração internacional. A realidade revelou-se mais complexa. Alguns países exportam tecnologia. Outros exportam matérias-primas. Muitos exportam mão-de-obra. E alguns limitam-se a importar inflação.

A inteligência artificial constitui talvez o exemplo mais evidente desta nova fragmentação. O FMI reconhece o contributo da IA para o crescimento recente, mas alerta simultaneamente para os riscos de uma concentração excessiva das cadeias de valor em poucos países, empresas e sectores. Uma reavaliação das expectativas em torno da rentabilidade futura da IA pode produzir impactos relevantes na actividade económica e na estabilidade financeira.

A advertência é particularmente sensata. A História económica demonstra que os mercados raramente conseguem resistir ao fascínio das grandes narrativas tecnológicas. Os caminhos-de-ferro prometeram transformar a economia. Transformaram. A electricidade prometeu revolucionar a sociedade. Revolucionou. A internet prometeu alterar o mundo. Cumpriu a promessa.

Mas entre a inovação genuína e a valorização irracional existe frequentemente uma distância considerável. Charles Kindleberger mostrou em “Manias, Panics and Crashes” que praticamente todas as grandes bolhas financeiras nasceram de transformações económicas reais. O problema nunca esteve na inovação. O problema surgiu quando os investidores concluíram que uma inovação revolucionária aboliria para sempre os ciclos económicos. A inteligência artificial pode perfeitamente gerar aumentos significativos de produtividade. Também pode perfeitamente gerar expectativas exageradas. As duas coisas não são incompatíveis.

Enquanto isso, outra ameaça cresce silenciosamente que é a deterioração das finanças públicas. O FMI continua a insistir na necessidade de consolidação orçamental, sobretudo entre os países mais endividados. A recomendação parece previsível. E é precisamente por isso que continua a ser ignorada com extraordinária regularidade.

Governos de diferentes orientações ideológicas partilham uma característica comum. Adoram gastar durante as crises. Gostam menos de reconstruir reservas durante os períodos favoráveis. John Maynard Keynes converteu-se numa das figuras mais frequentemente citadas e menos cuidadosamente lidas da história económica. Muitos responsáveis políticos recordam os seus argumentos a favor da intervenção pública em situações de emergência. Menos frequentemente recordam a ideia de que os Estados devem reconstruir espaço fiscal nos períodos de crescimento.

O resultado é visível. A próxima crise ainda não chegou. Mas muitos governos já gastaram uma parte substancial das ferramentas que seriam necessárias para enfrentá-la. É precisamente esta limitação que preocupa o FMI. Sem capacidade orçamental, futuras perturbações poderão produzir efeitos mais graves do que aqueles observados recentemente.

A política monetária enfrenta desafios semelhantes. Silvana Tenreyro insistiu na importância da independência dos bancos centrais e da manutenção do foco na estabilidade dos preços. Trata-se de um princípio muitas vezes elogiado em teoria e contestado sempre que as decisões dos bancos centrais produzem efeitos politicamente desconfortáveis.

A relação entre governantes e bancos centrais continua a ser uma das mais curiosas da vida pública contemporânea. Quando a inflação cai, o mérito tende a ser político. Quando as taxas de juro sobem, a culpa costuma ser técnica. A independência dos bancos centrais é frequentemente celebrada até ao momento em que se torna realmente independente.

Milton Friedman recordava que a inflação é uma doença monetária difícil de eliminar precisamente porque os seus efeitos não desaparecem com declarações optimistas. As pressões inflacionistas actuais demonstram que essa observação continua válida. No final, aquilo que torna o relatório do FMI particularmente relevante não são as previsões numéricas. As projecções mudam. Os cenários ajustam-se. Os indicadores são revistos.

O que importa é o diagnóstico. A economia mundial continua a funcionar. Mas funciona com crescente esforço. Continua a crescer. Mas cresce de forma desigual. Continua a adaptar-se. Mas as suas reservas de adaptação diminuem. Continua a resistir. Mas começa a revelar sinais evidentes de fadiga.

Talvez a pergunta mais importante não seja se a economia global conseguirá sobreviver ao próximo choque. A experiência recente sugere que provavelmente conseguirá. A verdadeira questão é outra. Quantos choques mais conseguirá absorver uma economia internacional que continua a celebrar a sua extraordinária capacidade de resistência sem demonstrar igual entusiasmo pela resolução dos problemas que tornam essa resistência permanentemente necessária?

Bibliografia

  • World Economic Outlook 2026: Resilience Under Strain, Urgent Choices, Fundo Monetário Internacional.
  • Global Economic Resilience Is Under Strain, Demanding Decisive Policy Action, Silvana Tenreyro, Fundo Monetário Internacional, 2026.
  • IMF World Economic Output Press Briefing, Fundo Monetário Internacional, Banguecoque, 2026.
  • Keynes, John Maynard. Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.
  • Friedman, Milton. Money Mischief: Episodes in Monetary History.
  • Kindleberger, Charles P. Manias, Panics and Crashes.
  • Stiglitz, Joseph E. Globalization and Its Discontents.
  • Rodrik, Dani. The Globalization Paradox.
  • Taleb, Nassim Nicholas. The Black Swan.
  • Minsky, Hyman. Stabilizing an Unstable Economy.

Jorge Rodrigues Simão, 2026