Durante décadas, o dólar foi apresentado ao mundo como uma espécie de divindade secular. Não exigia fé religiosa, mas requeria algo talvez mais valioso que é confiança absoluta. Governos acumulavam-no, bancos centrais veneravam-no e investidores corriam para ele sempre que o planeta tremia. Era a moeda universal, o refúgio dos aflitos e o altar onde se sacrificavam as dúvidas económicas.
Porém, como tantas construções humanas excessivamente glorificadas, o dólar começa a revelar aquilo que sempre foi de que não uma verdade eterna, mas uma convenção sustentada por interesses, poder militar, influência geopolítica e uma narrativa cuidadosamente cultivada.
A capa da “The Economist” intitulada “The Dangerous Dollar” expõe justamente esta realidade desconfortável. O problema já não reside apenas na possibilidade de o dólar perder valor. O verdadeiro perigo está no facto de o mundo continuar a comportar-se como se isso fosse impossível.
A história económica é implacável com os arrogantes. O florim holandês dominou o comércio global no século XVII. A libra esterlina parecia indestrutível no auge do Império Britânico. Ambas acabaram por descobrir que os impérios financeiros envelhecem com a mesma inevitabilidade dos impérios territoriais.
O historiador económico Barry Eichengreen observa em “Exorbitant Privilege” (2011) que o estatuto privilegiado do dólar não nasce exclusivamente da força económica americana, mas também da ausência de rivais credíveis. Em termos simples, o dólar continua a reinar porque os concorrentes parecem pouco convincentes e não porque o monarca esteja particularmente saudável.
Essa distinção, frequentemente ignorada pelos entusiastas do excepcionalismo americano, tem consequências significativas. Os Estados Unidos acumularam níveis de endividamento que, noutras latitudes, provocariam editoriais alarmistas, reuniões de emergência do Fundo Monetário Internacional e previsões apocalípticas de analistas televisivos. Segundo dados do Departamento do Tesouro americano, a dívida federal ultrapassa largamente os 35 biliões de dólares. Ainda assim, os mercados continuam a comportar-se como um médico que, ao observar um paciente com múltiplas patologias, conclui serenamente que tudo está bem porque o fato continua elegante.
A ironia é deliciosa. As mesmas instituições financeiras que exigem austeridade severa a economias emergentes parecem considerar que déficits gigantescos se transformam milagrosamente em instrumentos de prosperidade quando emitidos em Washington.
John Kenneth Galbraith escreveu em “A Short History of Financial Euphoria” (1990) que a memória financeira é extraordinariamente curta. Poucas observações envelheceram tão bem. Cada geração convence-se de que vive uma época inédita, imune aos erros dos seus antecessores. Cada bolha acredita ser uma inovação. Cada excesso julga ser progresso. Hoje, a nova narrativa milagrosa chama-se inteligência artificial.
Segundo os optimistas mais devotos, a inteligência artificial aumentará a produtividade, revolucionará os mercados, resolverá problemas estruturais e justificará avaliações bolsistas cada vez mais extravagantes. Talvez. Mas vale a pena recordar que, nos anos noventa, a internet prometia uma transformação semelhante e efectivamente transformou o mundo. O detalhe incómodo é que transformou também milhares de investidores em especialistas involuntários no conceito de perdas financeiras.
Charles Kindleberger, no clássico “Manias, Panics and Crashes” (1978), demonstrou que quase todas as grandes bolhas históricas começam com uma inovação genuína. O caminho para o desastre nunca é construído exclusivamente sobre mentiras; é construído sobre verdades exageradas até ao absurdo.
É precisamente esse o risco actual. A economia americana continua forte em vários indicadores. Contudo, uma economia forte não é sinónimo de uma moeda invulnerável. São realidades distintas que muitos comentadores insistem em confundir. O dólar sofreu desvalorizações significativas relativamente a diversas moedas e activos reais. Simultaneamente, o ouro continua a atrair investidores preocupados com a erosão monetária. Não é coincidência.
Quando uma sociedade corre para o ouro, normalmente não está a celebrar o metal. Está a desconfiar dos gestores da moeda. Voltaire observou que o papel-moeda acaba sempre por regressar ao seu valor intrínseco que é zero. A frase é muitas vezes citada de forma simplista, mas contém uma advertência fundamental. O valor de qualquer moeda fiduciária depende exclusivamente da confiança dos seus utilizadores.
E a confiança é um activo peculiar. Demora décadas a construir e apenas alguns meses a destruir. A actual volatilidade política americana adiciona uma nova camada de incerteza. Alterações bruscas de tarifas, disputas comerciais, conflitos institucionais e discursos contraditórios criam um ambiente pouco compatível com a estabilidade que uma moeda de reserva mundial exige.
Adam Tooze, em “Crashed” (2018), recorda que os mercados modernos vivem menos de certezas económicas e mais de percepções de estabilidade política. Quando essa estabilidade desaparece, mesmo os fundamentos mais sólidos podem tornar-se insuficientes. É aqui que surge uma das maiores contradições contemporâneas.
Durante décadas, economistas e responsáveis políticos apresentaram o dólar como um porto seguro precisamente por representar previsibilidade institucional. Actualmente, muitas dessas instituições encontram-se envolvidas em confrontos internos sem precedentes recentes.
O mundo, os investidores e os bancos centrais observam. E começam lentamente a diversificar. Naturalmente, a chamada desdolarização tem sido exagerada inúmeras vezes. O dólar continua dominante nas reservas internacionais, nos mercados financeiros globais e no comércio internacional. Porém, a questão relevante não é saber se o dólar desaparecerá amanhã. Não desaparecerá. A questão é saber se continuará tão dominante quanto ontem.
São perguntas diferentes. As mudanças históricas raramente chegam sob a forma de explosões espectaculares. Costumam manifestar-se como erosões graduais. Um ponto percentual hoje. Outro amanhã. Uma reserva diversificada aqui. Um acordo bilateral acolá. Nada dramático. Até que, de repente, o panorama já mudou. Ernest Hemingway descreveu a falência de uma personagem em “The Sun Also Rises” com uma resposta memorável: “Gradualmente, depois de repente.” A frase aplica-se admiravelmente às moedas de reserva.
Entretanto, permanece a comédia habitual dos mercados financeiros. Quando os índices bolsistas sobem, proclama-se o triunfo definitivo da prosperidade. Quando descem, culpam-se circunstâncias passageiras. Quando o ouro sobe, trata-se apenas de especulação. Quando o dólar cai, garantem-nos que tudo está sob controlo. O controlo é, aliás, uma das ficções preferidas das elites económicas.
Nenhum banqueiro central admite incerteza. Nenhum ministro das finanças reconhece ignorância. Nenhum estratega de investimento anuncia publicamente que talvez não saiba o que acontecerá amanhã. Contudo, a honestidade intelectual exigiria precisamente essa admissão.
Friedrich Hayek alertava em “The Fatal Conceit” (1988) para a arrogância dos planeadores que acreditam compreender sistemas demasiado complexos para serem plenamente controlados. Os mercados globais representam talvez o exemplo máximo dessa complexidade. O dólar continua poderoso. Mas o poder não elimina a vulnerabilidade. Continua dominante. Mas a dominância não garante eternidade. Continua indispensável. Mas a indispensabilidade nunca foi permanente na história económica.
A verdadeira ameaça não está necessariamente numa queda abrupta da moeda americana. A ameaça encontra-se na persistência da ilusão de que tal acontecimento é impossível. Quando sociedades inteiras deixam de imaginar cenários alternativos, tornam-se incapazes de os gerir. Foi assim com impérios, bancos e bolhas especulativas. Pode vir a ser assim com moedas.
No final, talvez a maior ironia seja est ace que o dólar tornou-se perigoso não por ser fraco, mas porque durante demasiado tempo convenceu o mundo de que era invencível. E poucas ideias se revelaram tão perigosas na história económica quanto a crença na própria invulnerabilidade. Porque os mercados perdoam muitos erros. O que nunca perdoam é a arrogância de quem acredita que deixou de poder errar.
Bibliografia
- Eichengreen, Barry. Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar and the Future of the International Monetary System. Oxford University Press, 2011.
- Galbraith, John Kenneth. A Short History of Financial Euphoria. Penguin Books, 1990.
- Hayek, Friedrich A. The Fatal Conceit: The Errors of Socialism. University of Chicago Press, 1988.
- Hemingway, Ernest. The Sun Also Rises. Scribner, 1926.
- Kindleberger, Charles P.; Aliber, Robert Z. Manias, Panics and Crashes: A History of Financial Crises. Palgrave Macmillan.
- Tooze, Adam. Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World. Allen Lane, 2018.
- Voltaire. Letters on England and Other Essays. Diversas edições críticas.
- Ferguson, Niall. The Ascent of Money: A Financial History of the World. Penguin Books, 2008.
- Reinhart, Carmen M.; Rogoff, Kenneth S. This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly. Princeton University Press, 2009.
- Minsky, Hyman. Stabilizing an Unstable Economy. McGraw-Hill, 1986.
Jorge Rodrigues Simão, 2026
