“Power concedes nothing without a demand.”
Frederick Douglass, Letter to Gerrit Smith (1857)
Há quem diga que Donald Trump deseja apenas “eficiência executiva”. Eu, que já vi muita eficiência transformar-se em atropelo, olho para esta teoria do “executivo unitário” com o mesmo entusiasmo com que se olha para um vendedor de elixires milagrosos numa feira de província. A embalagem é dourada, a promessa é grandiosa, mas o conteúdo costuma ser álcool barato com cheiro a cânfora. A ideia de concentrar poderes na presidência, apresentada com ares de respeitabilidade académica, parece-me sobretudo uma ambição antiga de decidir sozinho, sem o incómodo das instituições que, por capricho dos fundadores, ainda insistem em existir.
A Suprema Corte percebeu o truque. A decisão recente sobre tarifas aduaneiras, embora disfarçada de tecnicismo económico, é na verdade um aviso sobre o equilíbrio de poderes. Quando até os juízes, tradicionalmente avessos a melodramas, começam a notar impulsos cesaristas, é porque o palco já está a arder.
A confiança entre americanos está nos mínimos históricos. Desde 1994, a percentagem de cidadãos que vê o eleitor do partido oposto como “muito desfavorável” triplicou como se o vizinho que vota diferente fosse agora uma espécie de inimigo hereditário. Estudos do Pew Research Center mostram que muitos descrevem o outro campo como “mesquinho, desonesto, imoral e estúpido”. A delicadeza perdeu-se algures entre o telejornal e o algoritmo.
A confiança no Estado também se evaporou. Desde 2007, menos de 30% dos americanos dizem confiar no governo federal que são números semelhantes aos de países com instituições frágeis. Não é que os Estados Unidos tenham deixado de ser uma potência; é que a potência deixou de acreditar na sua própria arquitectura.
Os acontecimentos de 6 de Janeiro de 2021 com o assalto ao Capitólio foram o ponto de viragem. Quase quatro em cada dez americanos acreditam que as eleições de 2020 foram “roubadas”. Entre republicanos, são sete em cada dez. A dúvida tornou-se religião. Daí as ameaças de Trump de invocar poderes extraordinários para impor regras uniformes de voto nos Estados federados. A uniformidade, quando vem de cima, costuma ser sinónimo de controlo.
O Congresso, outrora templo laico da democracia americana, tornou-se saco de pancada. As ameaças contra congressistas passaram de menos de mil em 2016 para cerca de dez mil por ano. A instituição está tão desacreditada que já ninguém se lembra da última vez que aprovou um orçamento dentro do prazo legal e que foi em 1997. Desde 1976, houve onze shutdowns, o último com 43 dias, como recorde absoluto.
A disfunção não é apenas contemporânea; é genética. A Constituição americana nasceu de um compromisso difícil entre interesses agrários e industriais, entre escravistas e abolicionistas, entre ruralidade e urbanidade. Hoje, esse compromisso significa que o Senado e o colégio eleitoral sobre-representam áreas rurais, apesar de 83% da população viver em zonas urbanas. A democracia representativa tornou-se uma espécie de teatro onde o público está na cidade, mas o palco continua no campo.
O gerrymandering de redesenho partidário dos distritos eleitorais transformou a eleição num jogo de geometria mal-intencionada. O resultado é que 90% dos distritos já não são competitivos. Quem vence as primárias, geralmente o candidato mais extremo, vence o lugar. A moderação tornou-se um luxo que ninguém quer pagar.
A evolução mediática dos últimos trinta anos foi um desastre anunciado. Primeiro, as televisões all-news, com a sua partidarização agressiva. Depois, a internet, que democratizou a informação e, simultaneamente, a ignorância. Finalmente, os social media, que criaram bolhas informativas e câmaras de eco onde cada um ouve apenas o que confirma os seus preconceitos.
A inteligência artificial, com a sua capacidade inédita de falsificação, acrescentou uma camada de caos. A desinformação tornou-se produto lucrativo. Como escreveu Neil Postman em “Amusing Ourselves to Death” (1985), “o problema não é que sejamos enganados, mas que nos tornámos indiferentes à verdade”. Hoje, a verdade é apenas mais um conteúdo na prateleira.
No último ciclo eleitoral, os candidatos arrecadaram quinze mil milhões de dólares. Só as presidenciais absorveram quatro mil milhões. Após a acusação de Trump em Março de 2023, a sua campanha recolheu cinquenta milhões em vinte e quatro horas. Após a saída de Biden, Kamala Harris arrecadou quinhentos milhões num mês. A política tornou-se um mercado financeiro com bandeiras.
O Federal Election Campaign Act de 1971 tentou limitar doações. Mas decisões da Suprema Corte como Buckley v. Valeo (1976), Citizens United v. FEC (2010), SpeechNow.org v. FEC (2010) desmontaram essas limitações. O argumento? Limitar doações é limitar liberdade de expressão. Assim nasceu a plutocracia moderna em que o dinheiro é palavra, e quem não tem dinheiro fala para o vazio.
Os super PACs, criados após 2010, recolhem e gastam milhares de milhões por candidato. A influência de bilionários e grupos de pressão tornou-se determinante. Como observou Jane Mayer em “Dark Money” (2016), “o poder político dos ultra-ricos não é apenas grande; é estrutural”. A desigualdade, já crónica, tornou-se cimento.
À medida que as divisões internas crescem, o Estado perde capacidade de resposta. A legislatura de 2023-2024 foi a menos produtiva em cinquenta anos. Mesmo quando leis são aprovadas, a burocracia não consegue aplicá-las. A guerra contra o Estado, iniciada por Reagan e intensificada nos anos de Clinton, reduziu a força laboral federal em 11%, cortando 250 mil postos de trabalho. O Congresso reduziu assistentes parlamentares em um terço.
O resultado é um Estado subfinanciado, tecnologicamente atrasado e incapaz de gerir crises. Durante a pandemia, agências distribuíram ajuda às cegas por falta de pessoal e sistemas. A pátria do management tornou-se exemplo de má gestão.
É neste cenário que o cesarismo presidencial ganha força. Quando as instituições se desgastam, quando o Congresso se paralisa, quando o eleitorado se odeia, quando a informação se fragmenta e quando o dinheiro domina, surge a tentação de concentrar poder num só homem. Não é novidade histórica. Como escreveu Hannah Arendt em “On Revolution” (1963), “a fragilidade das instituições abre caminho ao desejo de autoridade”.
Trump, com o seu estilo teatral, encarna essa tentação. Mas não está sozinho pois muitos democratas também suspiram por um presidente forte que resolva o que o Congresso não consegue. O cesarismo é bipartidário. A diferença está no tom, não na ambição.
Na minha opinião, o que vemos hoje é uma república exausta, onde o cesarismo surge como resposta ao desgaste institucional. Trump não inventou esta tendência; apenas a personifica com exuberância. A América, dividida, desconfiada, saturada de ruído, tenta encontrar ordem na concentração de poder. Mas a história mostra que o remédio pode ser mais perigoso do que a doença. E enquanto a república se desfaz nas mãos de facções, algoritmos e bilionários, o cesarismo avança como solução fácil para problemas difíceis. Não é apenas Trump que o deseja; é o próprio sistema que o convoca.
Bibliografia
- Douglass, Frederick. Letter to Gerrit Smith. 1857.
- Postman, Neil. Amusing Ourselves to Death. Penguin, 1985.
- Mayer, Jane. Dark Money. Doubleday, 2016.
- Pew Research Center. Political Polarization in the United States, 2023.
- U.S. Census Bureau. Urban and Rural Population Data, 2024.
- Supreme Court of the United States. Buckley v. Valeo (1976); Citizens United v. FEC (2010); SpeechNow.org v. FEC (2010).
- Congressional Research Service. Federal Workforce Trends, 2023.
Jorge Rodrigues Simão 2026
