Há um mistério que nem Freud ousaria interpreter de que o Parlamento legisla como quem escreve poesia automática sem estudos, sem impacto e sem pudor. A lei nasce, cresce e é publicada no Diário da República como um filho ilegítimo da pressa e da ignorância. E, no entanto, ninguém chama a isto má governação. Chama-se “processo legislativo normal”, expressão tão tranquilizadora quanto “falha técnica” num reactor nuclear. O fenómeno merece análise clínica. A ausência de estudos de impacto é o sintoma mais evidente de uma patologia institucional da governação por intuição, onde o legislador substitui a evidência pela convicção, o método pela pressa e o raciocínio pela retórica. Como observou Max Weber em “Economy and Society” (1922), “a política moderna é o domínio da convicção travestida de racionalidade”. Em Portugal, essa travestia tornou-se arte nacional.

A Lei como Exercício de Fé

O Parlamento legisla como quem acredita em milagres e aprova diplomas sem saber se funcionam, sem medir custos e sem prever consequências. É a teologia da norma  em que o dogma de que legislar é, por si só, um acto virtuoso. A ausência de estudos de impacto é justificada com o argumento da urgência. Urgência, essa palavra mágica que transforma incompetência em heroísmo. Como escreveu Hannah Arendt em “The Human Condition” (1958), “a acção sem pensamento é o triunfo da banalidade”. O legislador português, nesse sentido, é um atleta olímpico da banalidade que corre para aprovar leis antes que alguém pergunte para quê. O resultado é previsível com normas contraditórias, diplomas inaplicáveis, regulamentações que exigem regulamentações. O país vive num labirinto jurídico onde cada saída é uma nova entrada. E o Parlamento, satisfeito, continua a legislar porque é o único verbo que conjuga poder.

O Estudo de Impacto como Espécie Extinta

O estudo de impacto é o ornitorrinco da política portuguesa: todos falam dele, ninguém o viu. Quando existe, é superficial, redigido por consultores que confundem análise com PowerPoint. A OCDE, no seu relatório “Better Regulation Practices across the European Union” (2021), sublinha que Portugal é um dos países onde os estudos de impacto são “inconsistentes e frequentemente ex post”. Ou seja, estudam-se as consequências depois de o desastre acontecer que é uma espécie de autópsia legislativa. O problema não é apenas técnico; é cultural. O legislador português desconfia da evidência como o inquisidor da ciência. Para ele, o estudo de impacto é uma ameaça à liberdade criativa da política. Se os dados contradizem a ideologia, pior para os dados. Como ironizava Karl Popper em “The Open Society and Its Enemies” (1945), “aqueles que prometem o paraíso na terra acabam por criar o inferno”. Em Portugal, o inferno é regulamentado por decreto.

A Psicologia Parlamentar da Ignorância

A ausência de estudos de impacto não é acaso; é sintoma de uma psicologia colectiva. O Parlamento sofre de dissonância cognitiva institucional, conceito de Leon Festinger “A Theory of Cognitive Dissonance” quando a realidade contradiz as crenças, o indivíduo ajusta as crenças, não a realidade. O legislador acredita que legislar é governar. Se os resultados são maus, a culpa é da execução, nunca da lei. Assim, perpetua-se o ciclo da irresponsabilidade pois aprova-se, aplica-se mal, revoga-se, e aprova-se de novo. É o eterno retorno jurídico, versão lusitana. Daniel Kahneman, em “Thinking, Fast and Slow” (2011), explica que o ser humano prefere a coerência à verdade. O Parlamento, portanto, prefere parecer competente a ser competente. A aparência é o oxigénio da política e o estudo de impacto, por ser demasiado concreto, estraga a maquilhagem.

A Burocracia como Camuflagem

A ausência de estudos de impacto é disfarçada por uma avalanche de pareceres, comissões e relatórios. É a burocracia como teatro. Michel Crozier, em “The Bureaucratic Phenomenon” (1964), descreve este mecanismo de que “a burocracia é o sistema onde ninguém é responsável porque todos o são”. O Parlamento português domina esta arte. Cada lei é precedida por pareceres que não dizem nada e seguida por relatórios que não servem para nada. O estudo de impacto, quando existe, é enterrado sob camadas de papel timbrado. A ironia é que o legislador acredita estar a ser rigoroso. Confunde quantidade com qualidade, formalismo com substância. É o triunfo da forma sobre o conteúdo e da vaidade sobre a razão. Como diria Erich Fromm em “To Have or To Be?”, “a sociedade moderna prefere possuir processos a compreender propósitos”.

O Custo da Ignorância

Legislar sem estudos de impacto é caro. Cada erro legislativo custa milhões em correcções, litígios e adaptações. Mas o custo maior é invisível que é a erosão da confiança pública. O cidadão, confrontado com leis absurdas, conclui que o Estado é um circo. E não está errado. A má governação não é apenas corrupção ou incompetência é a normalização da mediocridade. O Banco Mundial, no relatório “Worldwide Governance Indicators (2025)”, define boa governação como “a capacidade de formular e implementar políticas eficazes”. Portugal, nesse ranking, oscila entre o meio da tabela e a indiferença. O Parlamento, contudo, continua a legislar sem estudos de impacto e a chamar-lhe democracia. A ironia é que, quando o erro é evidente, cria-se uma comissão de inquérito. A comissão, claro, não estuda o impacto estuda o passado. É a governação retrospective de olhar para trás para justificar o que não se quis prever.

A Cultura da Impunidade Técnica

Em qualquer empresa, aprovar um projeto sem estudo de impacto seria motivo de despedimento. No Parlamento, é motivo de aplauso. A ausência de consequências é o verdadeiro cimento da má governação. A cultura política portuguesa confunde responsabilidade com retórica. O deputado que fala bem é considerado competente, mesmo que legisle mal. O estudo de impacto, sendo técnico, não tem glamour. Não dá votos, não dá manchetes, não dá selfies. Como escreveu Pierre Bourdieu em “Language and Symbolic Power” (1991), “o poder político é o poder de nomear a realidade”. O Parlamento nomeia leis como quem baptiza filhos sem saber se sobrevivem. A governação torna-se um exercício de semantic pois legislar é dizer, não fazer.

O Fetichismo da Legislação

Portugal sofre de fetichismo legislative e acredita que cada problema social se resolve com uma nova lei. Se há corrupção, cria-se uma lei anticorrupção; se há pobreza, uma lei antipobreza; se há burocracia, uma lei antiburocracia. O estudo de impacto seria o antídoto mas é ignorado porque estragaria o ritual. A lei, em Portugal, é símbolo de acção, não instrumento de solução. Como ironizou Alexis de Tocqueville em “Democracy in America” (1835), “os povos democráticos adoram a lei porque ela lhes dá a ilusão de ordem”. O Parlamento, portanto, legisla para tranquilizar consciências, não para resolver problemas. É a política como placebo eficaz apenas na aparência.

O Impacto que Nunca se Mede

Quando se pergunta ao legislador porque não há estudos de impacto, a resposta é sempre a mesma de que “não há recursos”. Curiosamente, há sempre recursos para campanhas, assessores e viagens. O estudo de impacto é visto como luxo académico, não como ferramenta de governação. Mas, como demonstra o “European Parliamentary Research Service (EPRS, 2024)”, os países que integram estudos de impacto no processo legislativo têm maior eficiência e menor litigância. Portugal prefere o improviso. É o país onde se legisla primeiro e se pensa depois. Onde o impacto é medido pela reacção mediática, não pela evidência empírica. Onde o Parlamento é um laboratório sem cientistas.

A Má Governação como Norma Cultural

A ausência de estudos de impacto não é excepção; é norma. E, como toda norma, deixou de ser questionada. O Parlamento tornou-se uma fábrica de leis sem controlo de qualidade. A má governação é institucionalizada. Não é considerada má porque é habitual. Como escreveu John Kenneth Galbraith em “The Culture of Contentment” (1992), “a complacência é o maior inimigo da reforma”. Portugal vive nessa complacência de que o erro é rotina, o improviso é tradição, e o estudo de impacto é ficção científica.

O Parlamento como Máquina de Autojustificação

O Parlamento português é uma instituição que se autojustifica com a elegância de um culpado reincidente. Quando se aponta a ausência de estudos de impacto, responde com a serenidade de quem confunde crítica com elogio e de que “a lei foi amplamente debatida”. Debatida, sim, mas nunca estudada. O debate substitui a análise, a retórica substitui o rigor, e o consenso substitui a verdade. A governação torna-se um exercício de storytelling em que o deputado narra intenções, o ministro promete resultados, e o cidadão paga a conta. Como escreveu Isaiah Berlin em “The Sense of Reality” (1996), “a política é o reino das intenções não verificadas”. Em Portugal, as intenções são tão abundantes quanto os decretos, e tão inúteis quanto os relatórios que ninguém lê. A ausência de estudos de impacto é, portanto, o sintoma de uma doença crónica que é o narcisismo institucional. O Parlamento legisla para se ver legislar, para se ouvir legislar e para se citar a si próprio. É um espelho que reflecte poder, não responsabilidade. E enquanto o espelho brilha, o país afunda-se em leis que não resolvem, regulamentos que não funcionam e políticas que não se sustentam.

A Ironia da Transparência

Portugal orgulha-se da sua transparência legislativa. Tudo é público, tudo é acessível e tudo é digital. Mas a transparência é apenas o verniz da opacidade. O cidadão pode ler todas as leis, mas não pode compreender porque foram feitas. O estudo de impacto, sendo ausente, é o segredo mais bem guardado da democracia. A governação sem evidência é como um médico que receita sem diagnóstico e ainda assim é aplaudido. Como ironizou Bertrand Russell em “Power: A New Social Analysis” (1938), “a ignorância é sempre mais confortável quando é partilhada”. O Parlamento partilha essa ignorância com entusiasmo. Deputados, ministros e assessores vivem num ecossistema onde o desconhecimento é virtude e a dúvida é fraqueza. O estudo de impacto seria uma ameaça à harmonia pois introduziria o desconforto da realidade num sistema que vive de ficções.

O Impacto da Ausência de Impacto

A ausência de estudos de impacto tem consequências que transcendem a técnica. Cria uma cultura política onde o erro é normal e a correcção é excepcional. Cada lei mal concebida gera novas leis para corrigir as anteriores e assim o Parlamento se eterniza na sua própria incompetência. O European Court of Auditors, no relatório “Better Regulation for Better Results” (2023), alerta que “a ausência de avaliação prévia conduz a políticas ineficazes e desperdício de recursos públicos”. Em Portugal, essa frase é quase um epitáfio. A má governação não é apenas o erro mas a recusa em aprender com ele. O Parlamento português não aprende; repete. E repete com a convicção de quem acredita que a repetição é experiência. É o país onde o erro é tradição e a reforma é tabu.

O Futuro da Governação sem Evidência

O futuro promete mais do mesmo. A digitalização da política não trouxe racionalidade mas velocidade. Legisla-se ainda mais depressa, com ainda menos reflexão. O algoritmo substitui o argumento, e o copy-paste substitui o estudo. A governação sem impacto é o novo normal. E o cidadão, anestesiado por décadas de promessas, não exige rigor mas espectáculo. Como escreveu Neil Postman em “Amusing Ourselves to Death” (1985), “a política transformou-se em entretenimento”. O Parlamento é o palco, os deputados são os actores, e o estudo de impacto é o guião que ninguém lê.

A Tragédia da Competência

A verdadeira tragédia da política portuguesa é que a competência deixou de ser necessária. O sistema recompensa a aparência, não o mérito. O deputado que cita autores é considerado erudito; o que exige estudos é considerado incómodo. A ausência de estudos de impacto é, portanto, o reflexo de uma cultura que prefere o improviso à evidência, o discurso à análise, o consenso à verdade. Como escreveu Václav Havel em “The Power of the Powerless” (1978), “a mentira tornou-se o oxigénio da política”. E assim o Parlamento continua a legislar sem estudos, sem impacto e sem vergonha. O país continua a obedecer sem exigir, sem compreender e sem esperança. E a governação, essa palavra que deveria significar responsabilidade, tornou-se sinónimo de rotina. Portugal não sofre de má governação; sofre de governação sem consciência. E enquanto o estudo de impacto continuar a ser tratado como luxo académico, o país continuará a legislar às cegas com a elegância de quem tropeça em nome da democracia.

Bibliografia

Weber, Max. Economy and Society. University of California Press, 1922.

Arendt, Hannah. The Human Condition. University of Chicago Press, 1958.

Popper, Karl. The Open Society and Its Enemies. Routledge, 1945.

Festinger, Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford University Press, 1957.

Kahneman, Daniel. Thinking, Fast and Slow. Farrar, Straus and Giroux, 2011.

Crozier, Michel. The Bureaucratic Phenomenon. University of Chicago Press, 1964.

Fromm, Erich. To Have or To Be? Harper & Row, 1976.

Tocqueville, Alexis de. Democracy in America. Vintage Books, 1835.

Berlin, Isaiah. The Sense of Reality. Farrar, Straus and Giroux, 1996.

Russell, Bertrand. Power: A New Social Analysis. Routledge, 1938.

Galbraith, John Kenneth. The Culture of Contentment. Penguin Books, 1992.

Havel, Václav. The Power of the Powerless. Routledge, 1978.

OECD. Better Regulation Practices across the European Union. OECD Publishing, 2021.

European Court of Auditors. Better Regulation for Better Results. ECA Report, 2023.

World Bank. Worldwide Governance Indicators. World Bank Group, 2025.

European Parliamentary Research Service (EPRS). Impact Assessment in EU Policy-Making. European Parliament, 2024.

Jorge Rodrigues Simão 2026