A publicação recente do artigo do Chefe do Executivo na China Newsweek marca um momento relevante na narrativa governativa da RAEM. O texto, enquadrado no contexto do Terceiro Plano Quinquenal, apresenta uma visão estruturada para o desenvolvimento económico até 2030, procurando reafirmar a determinação do Governo em avançar com a diversificação adequada da economia local.

O Chefe do Executivo sublinha que a Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin constitui elemento central para “quebrar o impasse” que tem condicionado a evolução económica da RAEM. A expressão é forte, mas revela uma intenção clara de que Macau deverá procurar, através de Hengqin, complementar aquilo que não pode desenvolver plenamente dentro das suas fronteiras, seja por limitação territorial, seja por enquadramento industrial.

A afirmação de que “a promoção com elevada qualidade da construção da Zona de Cooperação em Hengqin será a chave para ‘quebrar o impasse’ na promoção da diversificação adequada da economia de Macau” sintetiza a orientação estratégica que o Governo pretende seguir. A diversificação, tantas vezes discutida, surge agora associada a metas concretas e a sectores específicos, numa tentativa de transformar ambição em execução.

O artigo apresenta Macau como participante activo de uma “nova conjuntura de desenvolvimento de qualidade elevada”. A expressão, embora ampla, enquadra-se na linguagem habitual dos planos de desenvolvimento nacionais e regionais, onde se procura transmitir confiança, estabilidade e visão de longo prazo. O Chefe do Executivo reforça que tecnologia e educação serão motores essenciais da integração Macau-Hengqin, destacando a necessidade de criar sinergias económicas que permitam ao território reduzir gradualmente a dependência do jogo.

A lista de sectores prioritários como o turismo cultural, convenções e exposições, big health da medicina tradicional chinesa, finanças com características próprias, investigação e desenvolvimento tecnológico reflecte uma tentativa de alinhar Macau com tendências internacionais de inovação e serviços especializados. A meta de que a produção avançada na Zona de Cooperação atinja “65 por cento do PIB regional ou mais” até 2030 é ambiciosa, mas enquadra-se no esforço de estabelecer indicadores mensuráveis.

A referência de John Maynard Keynes, “A dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar às antigas” (The General Theory of Employment, Interest and Money, 1936), é particularmente pertinente. A transição de uma economia fortemente dependente do jogo para um modelo mais diversificado exige não apenas novas iniciativas, mas também a capacidade de ultrapassar hábitos económicos enraizados.

O apelo final do Chefe do Executivo aos investidores nacionais e estrangeiros de que “Vamos avançar, de mãos dadas, de forma empenhada, abrir em conjunto o novo capítulo no desenvolvimento de Macau e Hengqin” procura transmitir confiança e abertura. É uma mensagem diplomática, dirigida a quem poderá desempenhar papel decisivo na concretização das metas estabelecidas.

Paralelamente, o debate sobre governação electrónica, levantado por Kou Ngon Fong, presidente da Associação Choi In Tong Sam, revela que a modernização administrativa é vista como componente essencial para apoiar o desenvolvimento económico. A proposta de reforçar a digitalização dos serviços públicos, incluindo a gestão do registo de associações pela DSI, visa reduzir encargos administrativos e aumentar a eficiência. Trata-se de um passo alinhado com práticas internacionais e com expectativas contemporâneas de simplificação administrativa.

O Governo estabelece ainda como objectivo alcançar um valor acrescentado da indústria não relacionada com o jogo de cerca de 60% do PIB local até 2030. Para tal, prevê “aumentar substancialmente a aposta de dinheiro” na diversificação, reforçar o papel do Fundo de Orientação Governamental e promover a concentração de indústrias e quadros qualificados. As estimativas preliminares apontam para um investimento total de cerca de 130 mil milhões de patacas até 2030 que é um valor significativo que demonstra o compromisso financeiro com esta transformação.

Adam Smith, no seu clássico The Wealth of Nations (1776), observou que “não há arte que um governo aprenda mais rapidamente do que a de tirar dinheiro do bolso das pessoas”. A citação, embora histórica, recorda que grandes investimentos públicos exigem sempre equilíbrio entre ambição e sustentabilidade.

O Chefe do Executivo menciona ainda a expansão da plataforma sino-lusófona/hispânica, reforçando o papel de Macau como “interlocutor com precisão” entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Esta função, que tem sido desenvolvida ao longo dos anos, continua a ser vista como vantagem estratégica do território, especialmente no contexto da cooperação económica e comercial.

Em síntese, o artigo publicado na China Newsweek apresenta uma visão estruturada e diplomática para o futuro económico da RAEM. As metas são ambiciosas, os sectores são diversificados e o papel de Hengqin surge como elemento central da estratégia. Como escreveu Eric Hobsbawm em Age of Extremes (1994): “Os governos são excelentes a anunciar o futuro; são menos competentes a construí-lo.” A execução será, portanto, o verdadeiro teste da visão apresentada.

Macau, entre planos e projectos, procura agora transformar intenção em realidade. O horizonte de 2030 aproxima-se, e o sucesso dependerá da capacidade de alinhar políticas, recursos, quadros qualificados e investimento numa jornada que, mais do que retórica, exigirá consistência e continuidade.

Bibliografia

Livros e Ensaios Económicos e Políticos

Smith, Adam. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. London: W. Strahan and T. Cadell, 1776.

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Hobsbawm, Eric. Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914–1991. London: Michael Joseph, 1994.

Sen, Amartya. Development as Freedom. Oxford: Oxford University Press, 1999.

Stiglitz, Joseph E. Globalization and Its Discontents. New York: W.W. Norton, 2002.

Acemoglu, Daron; Robinson, James A. Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity, and Poverty. New York: Crown Publishers, 2012.

Fontes Oficiais e Governativas

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Ministério do Comércio da República Popular da China. China–Portuguese-Speaking Countries Economic Cooperation Report 2024. Beijing: MOFCOM, 2024.

Artigos e Publicações Periódicas

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Macau Economic Journal. “Hengqin Integration and Regional Synergy: A Policy Analysis.” MEJ, Vol. 18, n.º 2, 2025.

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Estudos Académicos e Relatórios Técnicos

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Citações Literárias e Históricas Utilizadas no Texto

Pascal, Blaise. Pensées. Paris: Michel Lévy Frères, 1862.

São João da Cruz. A Noite Escura da Alma. Lisboa: Editorial A.O., 1959.

Jorge Rodrigues Simão 2026