Há sempre um instante na história das nações em que o verniz civilizacional estala, revelando por baixo a madeira crua, por vezes podre, de que são feitas as estruturas morais dos Estados. Em Ceuta, esse instante não foi um relâmpago, mas uma claridade contínua, quase obscena, que iluminou centenas de menores de idade abandonados à sua sorte, como se fossem figurantes descartáveis de um teatro político que insiste em fingir que não é teatro, que não é político e que, sobretudo, não é humano.
A UNICEF, com a paciência resignada das instituições que viram demasiadas tragédias para se surpreenderem com mais uma, veio recordar ontem ao mundo que aquilo que está em causa são crianças, palavra simples, curta, mas que parece exigir hoje um esforço hercúleo para ser compreendida. “Não esqueçamos em nenhum momento que se trata de meninos e meninas, que não é um debate político”, declarou Ildefonso González, porta-voz da agência das Nações Unidas para a infância em Espanha. A frase, tão evidente que deveria ser desnecessária, tornou-se súbita e tragicamente revolucionária.
A vitrina de desgraças, viu-se transformada num laboratório improvisado de incapacidade administrativa. A UNICEF Espanha lembrou que o território não tem meios para responder à situação das crianças e adolescentes que ali ficaram, como quem recorda a um anfitrião distraído que não se convida mil pessoas para jantar quando só se possui uma mesa de quatro lugares e duas cadeiras bambas. “A situação é agora de contingência, uma crise migratória em que temos de agir de forma urgente e rápida para lhes dar o melhor acolhimento possível”, insistiu González.
Mas a urgência, essa palavra que os governos pronunciam com a mesma leveza com que se acende um cigarro, não parece ter chegado às ruas de Ceuta, onde crianças e adolescentes permanecem escondidos, feridos, invisíveis, como se a invisibilidade fosse uma forma de protecção. A invisibilidade, porém, protege apenas quem não quer ver.
As autoridades espanholas identificaram 528 menores de idade sozinhos em Ceuta, que entraram ilegalmente na cidade na semana passada. O número, porém, é apenas uma estimative; uma espécie de contabilidade criativa que tenta transformar uma tragédia humana num exercício de estatística. Há mais nas ruas, admitiu o delegado do Governo de Espanha, como quem confessa que perdeu o fio à meada de um novelo que nunca deveria ter sido largado.
A política, essa senhora vaidosa que gosta de se ver ao espelho, tenta agora maquilhar a situação com comunicados, reuniões e promessas de redistribuição dos menores por estruturas de acolhimento noutros pontos de Espanha. A UNICEF, com a serenidade dos que sabem que a verdade não precisa de gritar, apelou a que as mais de mil crianças desacompanhadas identificadas sejam enviadas para locais onde possam ser tratadas como seres humanos e não como incómodos administrativos.
Mas a política, sempre ela, insiste em transformar crianças em símbolos, símbolos em bandeiras, bandeiras em trincheiras. E assim se constrói o debate político que a UNICEF implora que não exista. A instrumentalização da infância não é novidade. Já Rousseau, no seu Émile, advertia que “a infância tem maneiras de ver, de pensar e de sentir que lhe são próprias” uma frase que deveria ser tatuada na testa de cada governante que se atreve a legislar sobre menores sem antes os considerar pessoas. Mas a Europa, tão orgulhosa da sua tradição humanista, parece ter esquecido que a infância não é uma categoria jurídica, mas uma condição humana.
Em Ceuta, a criança tornou-se objecto político, moeda de troca, argumento de campanha, fantasma conveniente. A sua dor é contabilizada, a sua presença é negociada, o seu futuro é adiado. E tudo isto acontece enquanto os discursos oficiais se enchem de palavras como “acolhimento”, “protecção”, “integração”, que soam tão bem nos relatórios quanto soam mal na realidade. Ceuta, essa pequena península que sempre viveu entre fronteiras, tornou-se agora palco de um drama que não é novo, mas que se repete com a monotonia cruel das tragédias humanas. As crianças escondem-se em armazéns, dormem em escadarias, vagueiam pelas ruas como sombras que ninguém quer reconhecer. Há menores feridos, menores assustados, menores que não sabem sequer que são notícia. A cidade, incapaz de responder, tenta sobreviver ao caos com a dignidade possível. Mas a dignidade, quando não é acompanhada de meios, transforma-se em impotência.
A situação em Ceuta é também um espelho partido da Europa, que gosta de se ver como continente de direitos humanos, mas que treme sempre que esses direitos exigem esforço, dinheiro ou coragem. Hannah Arendt, no seu The Origins of Totalitarianism, lembrava que “a perda dos direitos humanos ocorre no momento em que a pessoa se torna um ser humano em geral sem cidadania, sem pertença, sem protecção”. As crianças de Ceuta são precisamente isso: seres humanos em geral, sem país, sem documentos, sem voz. E a Europa, que tanto fala de valores, parece incapaz de os aplicar quando esses valores exigem mais do que discursos.
No meio deste cenário, a UNICEF surge como a última voz de sanidade, repetindo o óbvio com a insistência dos que sabem que o óbvio é hoje revolucionário. Não são números, não são problemas, não são invasores, não são instrumentos políticos. São crianças. A sua missão, diz González, é garantir os direitos destas crianças e a sua protecção. A frase, tão simples, deveria ser suficiente para mobilizar governos, instituições, cidadãos. Mas não é. Porque a política, essa máquina de transformar o humano em abstracto, insiste em transformar crianças em debate político.
A ironia maior desta história é que a UNICEF teve de recordar ao mundo que crianças são crianças. Que precisam de protecção. Que não devem ser deixadas nas ruas. Que não devem ser feridas. Que não devem ser invisíveis. É como se a humanidade tivesse desaprendido o básico, como se fosse necessário um comunicado oficial para recordar que a infância merece cuidado. A situação em Ceuta não é apenas uma crise migratória; é uma crise moral. E crises morais não se resolvem com estatísticas, mas com coragem.
Bibliografia
Arendt, H. (1951). The Origins of Totalitarianism. New York: Schocken Books.
Rousseau, J.-J. (1762). Émile, ou De l’éducation. Paris: Garnier.
UNICEF España. (2024). Comunicados oficiais sobre la situación de menores en Ceuta. https://www.unicef.es
Agencia EFE. (2024). Despachos sobre migración y menores en Ceuta. https://www.efe.com
United Nations High Commissioner for Refugees. (2023). Children on the Move. https://www.unhcr.org
Jorge Rodrigues Simão 2026

