Há quem insista em proclamar que o mundo moderno é regido por algoritmos, gráficos de bolsa e relatórios trimestrais. Ingénuos. A verdadeira força motriz da sociedade contemporânea essa locomotiva que avança, ora aos solavancos, ora em frenética disparada não é feita de aço, mas de vapor das emoções humanas, esse combustível invisível que, apesar de não constar em nenhum orçamento de Estado, determina o destino das nações com a mesma eficácia com que um vendaval derruba barracas de feira.

O leitor, que certamente se julga racional, ponderado e senhor das suas decisões, talvez se ofenda com esta afirmação. Mas não se preocupe pois a ofensa é apenas mais um produto deste vasto mercado emocional, onde cada sentimento é mercadoria, cada impulso é transacção, e cada indignação é investimento de alto risco. Como escreveu William James, “a emoção não é apenas o que sentimos; é aquilo que nos move” (The Principles of Psychology, 1890). E move-nos com tal vigor que, se as emoções pagassem imposto, o Ministério das Finanças teria finalmente superavit.

Se existisse uma bolsa de valores dedicada às emoções, o pânico seria a acção mais volátil, a esperança a mais especulativa, e a culpa a mais lucrativa sobretudo para instituições que, desde tempos imemoriais, descobriram que o arrependimento rende mais do que o ouro.

O medo, por exemplo, é um activo de liquidez imediata. Basta um rumor, uma sombra, um título sensacionalista, e o mercado entra em euforia negativa. A história económica do mundo é, aliás, um catálogo de pânicos bem-sucedidos desde a célebre South Sea Bubble de 1720 até às crises contemporâneas, sempre houve quem lucrasse com o desassossego alheio. Como observou John Maynard Keynes, “os mercados podem permanecer irracionais mais tempo do que você pode permanecer solvente” (A Tract on Monetary Reform, 1923).

O que Keynes não disse talvez por pudor académico é que essa irracionalidade não é defeito, mas característica essencial do ser humano. A emoção é o verdadeiro regulador do mercado, e o investidor mais astuto não é o que lê gráficos, mas o que lê pessoas.

O século XXI trouxe-nos uma inovação extraordinária que é a profissionalização das emoções. Já não basta sentir; é preciso sentir com método, com estratégia e com retorno garantido.

As redes sociais, esses palcos onde cada indivíduo se transforma em actor de si próprio, são o grande centro comercial deste mercado. Ali se vendem indignações por atacado, felicidades embaladas a vácuo, tristezas gourmet e entusiasmos com prazo de validade. Cada “gosto” é uma moeda, cada partilha um contrato, cada comentário um investimento emocional que, como qualquer investimento, pode resultar em lucro ou falência moral.

E não nos esqueçamos da publicidade, essa venerável instituição que descobriu que o consumidor não compra produtos, compra sensações. “A função da publicidade é criar necessidades”, escreveu Vance Packard em “The Hidden Persuaders (1957)”. Hoje, cria sobretudo ansiedades e fá-lo com uma competência digna de prémio Nobel.

O Estado, sempre atento às tendências do mercado, percebeu que governar emoções é mais eficaz do que governar pessoas. Assim, substituiu a velha política do pão e circo pela política do medo e esperança.

O medo, claro está, é excelente para disciplinar. A esperança, por sua vez, é perfeita para adiar revoluções. Entre ambos, o cidadão permanece numa espécie de servidão voluntária, convencido de que escolhe livremente aquilo que lhe foi cuidadosamente sugerido.

Michel Foucault, que tinha o hábito de ver prisões onde outros viam escolas, explicou que “o poder não se exerce sobre coisas, mas sobre condutas” (Surveiller et punir, 1975). Ora, a conduta humana é moldada sobretudo por emoções. Logo, o poder moderno é essencialmente emocional e portanto, invisível, difuso, omnipresente, e tão eficaz que dispensa a força física.

Se há emoção que domina todas as outras, é a carência. A carência é a mãe de todos os mercados, porque cria procura infinita.

O indivíduo carente compra afecto, validação, atenção, pertença. Compra até aquilo que não precisa, desde que lhe prometam que o fará sentir-se completo. A carência é o motor da sociedade de consumo, e a sua rentabilidade é tão elevada que, se fosse cotada na bolsa, ultrapassaria todas as tecnológicas.

Erich Fromm, sempre lúcido, escreveu que “o homem moderno está profundamente só, e essa solidão é a raiz da sua ansiedade” (The Art of Loving, 1956). A indústria contemporânea, percebendo esta verdade, transformou a solidão num negócio florescente. Hoje, vende-se companhia em pacotes mensais, atenção em subscrições, e até amor em formato digital com garantia de devolução caso o algoritmo não corresponda às expectativas.

O leitor talvez se pergunte, se tudo isto é invisível, como pode governar o visível? A resposta é simples; porque o invisível é mais poderoso do que qualquer força material.

As emoções são invisíveis, mas constroem cidades, derrubam governos, criam impérios, arruinam fortunas, inspiram revoluções e sustentam religiões. São elas que determinam o rumo da história, mesmo quando os historiadores insistem em atribuir esse mérito a batalhas, tratados e decretos.

Como escreveu Gustave Le Bon, “as multidões não raciocinam; obedecem às emoções” (Psychologie des Foules, 1895). E como as multidões fazem a história, e esta é, inevitavelmente, um produto emocional.

O Mercado das Emoções é o único mercado verdadeiramente global, eterno e infalível. Não conhece recessões, não sofre quebras, não depende de juros, não precisa de regulamentação. Funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, desde que o primeiro ser humano decidiu que sentir era mais importante do que pensar.

E assim continuará, enquanto houver corações a bater, egos a inflamar, medos a explorar e esperanças a vender. O invisível governa o visível porque o visível é apenas o palco; o invisível é o dramaturgo.

O leitor, que chegou até aqui, talvez se sinta tentado a acreditar que compreendeu o mecanismo deste mercado. Não se iluda. Compreender emoções é como tentar apanhar nevoeiro com as mãos pois quanto mais se tenta, mais ele escapa. Mas reconhecer que elas governam o mundo é um primeiro passo ainda que, como todos os primeiros passos, seja emocionalmente motivado.

Bibliografia

Foucault, M. (1975). Surveiller et punir: Naissance de la prison. Paris: Gallimard.

Fromm, E. (1956). The Art of Loving. New York: Harper & Row.

James, W. (1890). The Principles of Psychology. New York: Henry Holt.

Keynes, J. M. (1923). A Tract on Monetary Reform. London: Macmillan.

Le Bon, G. (1895). Psychologie des Foules. Paris: Félix Alcan.

Packard, V. (1957). The Hidden Persuaders. New York: D. McKay.

Jorge Rodrigues Simão 2026