Há quem diga que a educação é o espelho de uma nação. Se assim for, Portugal aparece no reflexo como aquele aluno que chega atrasado, com o caderno amarrotado, a caneta emprestada e a desculpa pronta de que “O cão comeu-me os planos de reforma”. A verdade é que, ao longo das últimas décadas, o país tem tratado a educação como um parente distante que só se visita em dias de festa e mesmo assim com uma certa má vontade, como quem cumpre um protocolo social inevitável.

O estado da educação portuguesa é, portanto, um romance de costumes como personagens que mudam de pasta governamental como quem troca de chapéu, reformas que se anunciam com pompa e circunstância para depois se dissolverem na prática como açúcar num café demasiado quente, e uma sucessão de diagnósticos que confirmam sempre o mesmo de que continuamos a tropeçar nas mesmas pedras, mas com uma elegância cada vez mais ensaiada.

A escola portuguesa tornou-se, ao longo dos anos, um laboratório onde se testam ideias brilhantes, ideias medíocres e ideias que não deveriam ter saído da mesa de café onde foram concebidas. Cada governo chega com a convicção de que descobriu a fórmula mágica para resolver todos os problemas, ora é a reorganização curricular, ora é a avaliação dos professores, ora é a introdução de mais tecnologia, ora é a promessa de que “agora é que vai ser”.

O problema é que, em Portugal, a educação é tratada como um brinquedo político que todos mexem, todos ajustam, todos experimentam, mas ninguém lê o manual de instruções. E quando o brinquedo avaria como invariavelmente acontece culpa-se o fabricante, o utilizador, o vizinho do lado, o clima, o alinhamento dos planetas, tudo menos a mão que o partiu.

Se há figura trágica neste enredo, é o professor português. Não o professor idealizado das campanhas institucionais, mas o professor real, aquele que tenta ensinar enquanto equilibra burocracias, reuniões, plataformas digitais que falham à primeira tentativa e turmas onde coexistem alunos brilhantes, alunos desinteressados e alunos que acreditam que a escola é apenas um intervalo entre dois episódios de entretenimento online.

O professor português é um sobrevivente. Aguenta décadas de reformas, contrarreformas, grelhas de avaliação, metas curriculares, plataformas que prometem simplificar mas complicam, e uma sociedade que ora o idolatra como guardião do futuro, ora o acusa de ser o culpado de todos os males educativos. É uma profissão que exige vocação, resiliência e uma dose generosa de humor negro porque só com este se consegue explicar a alguém que, apesar de ter estudado anos, continua a ser tratado como se estivesse eternamente em estágio.

Quanto aos alunos, são simultaneamente vítimas e cúmplices deste sistema. Vítimas porque muitas vezes recebem uma educação que não os prepara para o mundo real; cúmplices porque, habituados à lógica da facilidade, exigem cada vez mais que a escola se adapte aos seus ritmos, gostos e distracções. São protagonistas porque, no fim de contas, tudo isto existe por causa deles embora raramente alguém lhes pergunte o que realmente precisam.

O aluno português vive num paradoxo pois é incentivado a ser crítico, mas raramente lhe é permitido questionar o essencial; é encorajado a ser autónomo, mas é vigiado como se estivesse num laboratório; é convidado a ser criativo, mas avaliado por critérios que medem tudo menos criatividade. A escola diz-lhe que o prepara para o futuro, mas muitas vezes prepara-o apenas para exames que avaliam o passado.

A educação portuguesa também se distingue pela sua arquitectura peculiar com escolas que chovem por dentro, ginásios que servem de auditórios, bibliotecas que são depósitos de livros desactualizados, laboratórios que não veem uma experiência científica desde o século passado. Há excepções, claro com escolas modernas, bem equipadas, com tecnologia de ponta mas são excepções que servem sobretudo para ilustrar o contraste com a realidade dominante.

O país habituou-se a inaugurar escolas como quem inaugura rotundas, com entusiasmo, discursos e fotografias. Depois, quando o telhado começa a ceder ou o aquecimento deixa de funcionar, descobre-se que não há verba para manutenção. É a metáfora perfeita da educação portuguesa do investe-se no espetáculo, esquece-se o essencial.

Nos últimos anos, a tecnologia foi apresentada como a grande salvação da educação. Tablets, plataformas digitais, aulas online, inteligência artificial tudo isto prometia revolucionar o ensino. O problema é que, em Portugal, a tecnologia educativa funciona como o Wi-Fi de um café barato que está lá, mas raramente cumpre o que promete.

As plataformas digitais são lentas, os equipamentos avariam, os programas não são compatíveis, e os professores passam mais tempo a tentar fazer login do que a ensinar. A tecnologia, em vez de simplificar, acrescenta mais uma camada de complexidade a um sistema saturado. E quando falha sempre culpa-se a “transição digital”, expressão que se tornou um mantra para justificar tudo e mais alguma coisa.

Portugal desenvolveu uma obsessão peculiar por rankings, estatísticas e relatórios internacionais. Sempre que um estudo é publicado, o país inteiro entra em estado de análise profunda e se os resultados são bons, celebra-se como se tivéssemos descoberto a fórmula da felicidade; se são maus, culpa-se o governo anterior, o actual, o futuro, ou qualquer entidade abstracta que sirva de bode expiatório.

O problema é que esta obsessão pelos números raramente se traduz em melhorias reais. Os rankings tornam-se uma espécie de reality show educativo, onde cada escola compete para aparecer bem na fotografia, mesmo que isso implique estratégias que pouco têm a ver com qualidade de ensino.

O estado da educação em Portugal é, em suma, um sistema que vive de remendos, promessas e ilusões. Falta-lhe coragem para enfrentar os problemas estruturais, falta-lhe visão para pensar a longo prazo, falta-lhe estabilidade para permitir que as reformas tenham tempo de produzir resultados. O país continua preso a uma lógica de curto prazo, onde cada governo quer deixar a sua marca, mesmo que essa marca seja apenas mais uma camada de tinta sobre paredes que  não aguentam mais pintura.

A educação portuguesa não precisa de mais discursos, mais plataformas, mais relatórios ou mais reformas cosméticas. Precisa de uma revolução silenciosa, feita de respeito pelos professores, de escuta activa dos alunos, de investimento real nas escolas e de políticas que sobrevivam às mudanças de governo. Precisa, acima de tudo, de ser tratada como aquilo que realmente é; o alicerce de qualquer sociedade que se queira digna, justa e preparada para o futuro.

Jorge Rodrigues Simão