A discussão sobre o futuro da NATO, agora baptizada com o rótulo pomposo de NATO 3.0, tornou-se um exercício de ilusionismo político em que todos fingem acreditar que o espectáculo continua, apesar de o palco estar a ruir. A cimeira em Ancara, envolta em declarações coreografadas e promessas de unidade, expõe mais fragilidades do que soluções. A Europa chega ao encontro como aquele aluno aplicado que tenta salvar um grupo de trabalho em que o colega dominante decidiu faltar às aulas. Os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, não escondem que o seu interesse estratégico se deslocou para o Indo-Pacífico, deixando o Velho Continente a lidar com a súbita descoberta de que a tutela americana não é eterna.

O discurso oficial insiste em que a Europa deve assumir “mais responsabilidades”, como se esta frase fosse uma revelação inédita e não um mantra repetido há décadas. A diferença é que, desta vez, o aviso não vem embrulhado em diplomacia. Vem em forma de retirada de tropas, de redução de capacidades críticas e de uma pressão orçamental que transforma a defesa europeia num exercício de contabilidade criativa. A promessa de que a Europa será “mais forte numa NATO mais forte” soa a slogan publicitário, daqueles que tentam vender um produto cuja data de validade expirou.

A ideia de que a Europa pode liderar a NATO é simultaneamente sedutora e absurda. Sedutora porque alimenta a fantasia de soberania estratégica que muitos governos europeus gostam de proclamar; absurda porque ignora a realidade material das forças armadas europeias. O continente não dispõe de tropas suficientes, não possui os sistemas de armas necessários e continua dependente dos Estados Unidos para tudo o que envolve capacidades de alto nível desde o reabastecimento aéreo até aos sistemas de defesa antimíssil. A Europa quer liderar, mas não tem instrumentos para tal. É como tentar dirigir uma orquestra sem instrumentos, esperando que o público não note.

A situação torna-se ainda mais caricata quando se observa que alguns exércitos europeus atingiram níveis históricos de redução. O Reino Unido, outrora potência militar de referência, tem hoje um exército mais pequeno do que aquele que levou a Waterloo. A França, apesar da retórica gaullista reciclada, luta para manter uma capacidade de projecção que não seja meramente simbólica. A Alemanha, que finalmente descobriu que a geopolítica existe, tenta recuperar décadas de desinvestimento, mas fá-lo com a lentidão burocrática que caracteriza o seu aparelho estatal.

A metáfora usada por Radoslaw Sikorski de que os Estados Unidos como “cavalaria que chega por cima da colina” é reveladora. A Europa não terá o apoio americano no início de um conflito, mas talvez o receba quando a situação estiver suficientemente grave para justificar a intervenção. Esta visão transforma a NATO numa espécie de seguro automóvel com franquia elevada e está lá, mas só cobre danos quando o desastre é irreversível.

A questão central é que esta mudança não resulta de capricho. É estrutural. Os Estados Unidos enfrentam uma competição estratégica com a China que exige recursos, atenção e capacidade militar. A Europa, para Washington, tornou-se um teatro secundário, relevante apenas quando a instabilidade ameaça os interesses americanos. A guerra na Ucrânia acelerou esta percepção, demonstrando que a Rússia é uma ameaça séria, mas não existencial para os Estados Unidos. Para a Europa, porém, é uma ameaça directa. E é precisamente esta assimetria que torna a narrativa da “liderança europeia” tão frágil.

Os governos europeus repetem que a Rússia poderá estar pronta para um confronto com a NATO em 2029. Esta previsão, apresentada com ar grave, serve sobretudo para justificar aumentos orçamentais e para criar a sensação de urgência. No entanto, a Europa continua a agir como se tivesse todo o tempo do mundo. Os calendários de investimento apontam para 2035, como se Moscovo estivesse obrigada a respeitar o cronograma europeu. A contradição é evidente pois a ameaça é urgente, mas a resposta é adiada.

A dependência europeia de sistemas críticos desde satélites a mísseis de longo alcance permanece intacta. A promessa de que a Europa irá desenvolver estes meios é, no melhor dos casos, optimista; no pior, ilusória. A indústria de defesa europeia é fragmentada, dominada por rivalidades nacionais e incapaz de produzir rapidamente o que é necessário. A integração de capacidades, tantas vezes proclamada, continua a ser mais um exercício de retórica do que de prática.

A questão nuclear é talvez a mais sensível. A Europa sabe que não pode substituir o dissuasor americano. A França possui armas nucleares, mas não tem capacidade para garantir a defesa de todo o continente. O Reino Unido, atolado em debates internos e limitações orçamentais, não está em posição de assumir esse papel. A dependência do chamado “guarda-chuva nuclear” americano é absoluta. E, no entanto, esta dependência torna-se cada vez mais incerta. Se os Estados Unidos reduzirem significativamente a sua presença militar na Europa, a credibilidade da dissuasão nuclear diminui. A pergunta torna-se inevitável: estará um presidente americano disposto a arriscar uma guerra nuclear para defender países que não considera prioritários?

A NATO foi construída com um comando americano no topo. Esta estrutura não é um detalhe; é o mecanismo que garante coerência operacional. Sem os Estados Unidos, a Europa teria de criar um comando unificado. Mas como fazê-lo quando cada país insiste em preservar a sua soberania militar? A Europa não consegue sequer harmonizar calibres de munições, quanto mais estabelecer uma cadeia de comando única. A ideia de um comandante europeu à frente da NATO é discutida em voz baixa, mas ninguém acredita verdadeiramente nela. A própria Alemanha e França, que poderiam disputar esse papel, evitam o tema para não expor divisões internas.

O problema estrutural é simples; a Europa não coopera verdadeiramente em matéria de defesa. Existem iniciativas, grupos de trabalho, comunicados e plataformas de coordenação. Mas, quando chega a hora de decisões concretas, cada país actua de acordo com os seus interesses nacionais. A fragmentação é tão profunda que, em caso de crise, a Europa teria dificuldade em organizar uma resposta coordenada sem os Estados Unidos. A pergunta que Max Bergmann coloca é “como trabalharão estes países juntos na defesa?” e é tão óbvia quanto desconfortável. A resposta, infelizmente, é que não trabalharão. Ou, pelo menos, não o farão com a rapidez e eficácia necessárias.

A narrativa oficial insiste que a transição para a NATO 3.0 será “suave”, “coordenada” e “conjunta”. Mas tudo indica que será caótica, improvisada e marcada por tensões internas. A Europa tenta convencer-se de que pode substituir capacidades americanas, mas sabe que isso exigirá décadas. Os Estados Unidos, por sua vez, querem reduzir a sua presença sem criar vulnerabilidades, mas sabem que a Europa não está preparada. O resultado é uma dança diplomática em que ambos os lados fingem que o processo está sob controlo.

Em suma, a questão central não é se a Europa pode liderar a NATO. É se a Europa pode liderar-se a si própria. A NATO 3.0 não é um novo modelo; é o reconhecimento de que o modelo anterior não funciona. A Europa enfrenta uma Rússia agressiva, uma China assertiva e um aliado americano cada vez mais distante. A resposta europeia tem sido lenta, hesitante e marcada por contradições. A liderança europeia na NATO é possível apenas se a Europa aceitar que não pode continuar a viver da protecção americana enquanto proclama autonomia estratégica.

A Europa terá de decidir se quer ser actor ou espectador. Se quer assumir responsabilidades reais ou continuar a recitar slogans. Se quer construir capacidades ou continuar a depender de Washington. A NATO 3.0 não é um projecto; é um teste. E, até agora, a Europa não tem mostrado grande aptidão para o exame.

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