A coesão social na União Europeia, esse ideal tantas vezes proclamado como se fosse uma espécie de sacramento laico, encontra‑se hoje num estado de erosão que nem os mais pessimistas tecnocratas de Bruxelas ousariam admitir em público. Depois de décadas a distribuir fundos estruturais como quem tenta resolver tensões familiares com envelopes recheados, a Europa descobre, com um espanto quase infantil, que o dinheiro não compra solidariedade, não cria pertença e, muito menos, cura ressentimentos históricos. A narrativa oficial insiste que os fundos serviram para aproximar regiões, reduzir desigualdades e fortalecer o projecto europeu. A realidade, porém, revela um continente onde a convergência económica se transformou numa miragem e onde a coesão social se dissolve como açúcar em água quente. A ironia é que ninguém parece verdadeiramente surpreendido pois afinal, a UE sempre acreditou que a engenharia financeira substituía a política, que a redistribuição bastava para criar confiança e que a integração se fazia por decreto. O resultado está à vista com um edifício europeu com fundações cada vez mais frágeis, sustentado por relatórios triunfalistas que ninguém lê e por discursos que não convencem nem os próprios autores.
A fragilidade da coesão social europeia não nasce de um único factor, mas de uma combinação de erros estratégicos, ilusões tecnocráticas e expectativas irrealistas. Desde o início, os fundos estruturais foram apresentados como instrumentos milagrosos capazes de transformar regiões deprimidas em pólos de prosperidade. Contudo, ao longo dos anos, tornaram‑se mais num ritual burocrático do que numa política transformadora. A UE investiu em infra-estruturas, modernização administrativa e inovação tecnológica, mas negligenciou dimensões essenciais da vida social como a confiança nas instituições, a estabilidade das classes médias, a integração de migrantes, a coesão intergeracional e a redução das desigualdades internas dentro dos Estados‑membros. A Europa construiu estradas impecáveis que ligam cidades onde ninguém consegue pagar renda, financiou centros culturais em localidades onde a população activa emigrou e apoiou incubadoras tecnológicas em regiões onde a economia real continua dependente de salários baixos. A infra-estrutura avançou; a vida das pessoas, nem por isso.
A divergência económica entre Estados‑membros, longe de ser corrigida pelos fundos, aprofundou‑se. O Norte consolidou‑se como centro de valor acrescentado, o Sul perdeu indústria e autonomia produtiva, e o Leste tornou‑se plataforma de mão‑de‑obra barata para cadeias de produção transnacionais. A UE, sempre pronta a celebrar sucessos estatísticos, ignorou que a convergência real exige mais do que investimentos pontuais exige políticas industriais, redistribuição robusta e capacidade de intervenção social. Mas a União, com um orçamento que ronda 1% do PIB europeu, nunca teve meios para agir como um verdadeiro Estado social continental. Assim, os fundos estruturais funcionaram como pensos rápidos aplicados numa hemorragia profunda. E quando os resultados não surgiram, a culpa foi atribuída à falta de reformas, à ineficiência local ou à resistência cultural nunca ao desenho estrutural das políticas.
A percepção pública dos fundos estruturais também contribuiu para o enfraquecimento da coesão social. Nos países contribuintes líquidos, instalou‑se a narrativa de que financiam eternamente os mesmos problemas, como se a solidariedade europeia fosse um imposto moral sem retorno. Nos países beneficiários, a sensação é a oposta pois recebem migalhas condicionadas a exigências burocráticas que mais parecem testes de obediência institucional. Esta dupla frustração alimenta discursos populistas que encontram terreno fértil num continente cansado de promessas incumpridas. A UE, incapaz de comunicar de forma clara e humana, deixou que outros preenchessem o vazio. E quando o espaço público se transforma num concurso de ressentimentos, a coesão social evapora‑se com uma rapidez impressionante.
A burocracia europeia, sempre zelosa, contribuiu para transformar a coesão social num exercício de contabilidade. Os fundos estruturais tornaram‑se sinónimo de formulários intermináveis, auditorias exaustivas e relatórios trimestrais que ninguém lê, mas que todos têm de produzir. A política social foi substituída por procedimentos, e a cidadania, por frustração. Muitos projectos sociais morrem antes de nascer, esmagados por exigências administrativas que parecem concebidas para desencorajar qualquer iniciativa. A UE, obcecada com o controlo e a conformidade, esqueceu que a coesão exige flexibilidade, proximidade e capacidade de adaptação às realidades locais. Em vez disso, impôs modelos uniformes a contextos profundamente diferentes, como se a diversidade europeia fosse um inconveniente a ser domesticado.
Outro elemento central do enfraquecimento da coesão social é a ausência de uma narrativa europeia capaz de responder às ansiedades contemporâneas. Durante décadas, a UE viveu da narrativa da paz, da prosperidade e da mobilidade. Mas estas narrativas envelheceram. As novas gerações não viveram guerras, enfrentam precariedade laboral e não acreditam na promessa de ascensão social. A mobilidade, outrora símbolo de liberdade, tornou‑se sinónimo de necessidade pois muitos jovens mudam de país não por escolha, mas por falta de oportunidades. A Europa falhou em criar uma narrativa comum que respondesse à insegurança económica, à crise climática, às tensões migratórias e à perda de confiança democrática. Sem narrativa, não há pertença. Sem pertença, não há coesão.
A fragmentação identitária dentro da UE também contribui para o problema. A União tentou construir uma identidade europeia baseada em valores universais, mas esqueceu que identidades não se decretam; constroem‑se. A diversidade cultural, longe de ser celebrada, foi muitas vezes tratada como obstáculo à harmonização. Os Estados‑membros, por sua vez, instrumentalizaram a identidade nacional para resistir a reformas europeias, reforçando a ideia de que Bruxelas é um actor distante e intrusivo. Esta tensão permanente entre identidade nacional e identidade europeia alimenta desconfiança e dificulta a construção de solidariedade transnacional.
A crise financeira de 2008 e a crise das dívidas soberanas expuseram de forma brutal as fragilidades da coesão europeia. As políticas de austeridade, impostas em nome da estabilidade, destruíram confiança e alimentaram ressentimentos. Países inteiros sentiram‑se punidos por decisões que não controlavam, enquanto outros se convenceram de que estavam a pagar pelos erros alheios. A UE, ao gerir a crise com uma rigidez quase dogmática, aprofundou divisões que ainda hoje persistem. A pandemia da COVID‑19, embora tenha levado à criação de instrumentos de solidariedade inéditos, também revelou desigualdades profundas na capacidade de resposta dos Estados‑membros. A coesão social, fragilizada, sofreu novo abalo.
A questão migratória acrescentou mais uma camada de tensão. A UE nunca conseguiu desenvolver uma política comum de migração e asilo que fosse eficaz, humana e solidária. Os Estados‑membros dividiram‑se entre os que defendem acolhimento e os que erguem muros. Esta divisão alimentou discursos xenófobos, polarizou sociedades e expôs a incapacidade europeia de agir de forma coordenada. A coesão social, que exige inclusão e confiança, foi substituída por medo e desconfiança.
No fundo, a coesão social na UE está a enfraquecer porque a Europa tentou resolver problemas humanos com ferramentas tecnocráticas. Investiu em cimento, mas não em confiança. Investiu em competitividade, mas não em solidariedade. Investiu em convergência económica, mas ignorou divergências sociais. Investiu em fundos, mas não em futuro. A ironia suprema é que, quanto mais dinheiro investe, mais evidente se torna que o problema nunca foi financeiro mas sempre político.
A Europa precisa de menos relatórios e mais coragem. Precisa de políticas sociais europeias reais, de redistribuição efectiva, de combate às desigualdades internas, de participação cidadã genuína e de comunicação clara e humana. Precisa de enfrentar conflitos em vez de os mascarar com fundos. Precisa de reconhecer que a coesão social não se compra; constrói‑se. E enquanto não assumir esta verdade simples, continuará a financiar projectos brilhantes em powerpoints e irrelevantes na vida real, enquanto a coesão social se desfaz lentamente, como um tecido gasto que não aguenta mais remendos.
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