A expressão “reinvenção do comum” tornou‑se uma espécie de mantra académico contemporâneo, repetido com a mesma devoção com que certos fiéis recitam ladainhas sem perceber metade do que dizem. A verdade, porém, é que o comum não precisa de ser reinventado porque tenha desaparecido; precisa de ser reinventado porque foi sequestrado por Estados que fingem representá‑lo, por mercados que fingem servi‑lo e por comunidades que fingem praticá‑lo. O comum tornou‑se um fantasma administrativo, uma categoria burocrática, um slogan de campanha, um ornamento discursivo. E, como qualquer fantasma, assombra sobretudo aqueles que insistem em negar que ele está morto. A política e a espiritualidade, esses dois campos que durante séculos se olharam com desconfiança, reaparecem agora como cúmplices improváveis na tentativa de ressuscitar o cadáver.
A política, tal como a praticamos, transformou‑se num teatro de sombras onde o comum é invocado apenas para justificar decisões previamente cozinhadas em gabinetes insonorizados. A espiritualidade, por sua vez, foi convertida num supermercado emocional onde cada um escolhe a transcendência que melhor combina com o seu estilo de vida. Entre a política que perdeu o povo e a espiritualidade que perdeu o sagrado, sobra um vazio que se tenta preencher com discursos sobre participação, cidadania, bem‑estar e outras palavras‑almofada. Reinventar o comum significa, portanto, desmontar esta coreografia de aparências e recuperar a possibilidade de uma vida partilhada que não seja apenas um simulacro.
O problema é que o comum não é simpático. Não é confortável. Não é instagramável. O comum exige convivência, conflito, negociação, limites e responsabilidades tudo aquilo que a cultura contemporânea, obcecada com a autonomia individual, considera uma agressão. A reinvenção do comum implica contrariar a lógica do “eu primeiro”, essa religião civil do século XXI que transformou cada cidadão num pequeno soberano armado com direitos, mas alérgico a deveres. A política, reduzida a gestão de expectativas e contenção de danos, não sabe lidar com esta tensão. A espiritualidade, domesticada por gurus de bolso e práticas de autoajuda, também não.
É aqui que surge a necessidade de uma nova gramática do comum, capaz de articular o que a política esqueceu e o que a espiritualidade banalizou. Não se trata de fundir Estado e religião pois essa experiência histórica demonstrou suficientemente o seu potencial destrutivo mas de reconhecer que a vida colectiva exige mais do que procedimentos administrativos e conselhos motivacionais. O comum precisa de instituições, sim, mas também de sentido; precisa de regras, mas também de imaginação; precisa de racionalidade, mas também de transcendência. O comum é, inevitavelmente, um espaço híbrido, onde a política e a espiritualidade se cruzam sem se confundir.
A política moderna, ao expulsar a espiritualidade do espaço público, acreditou estar a libertar‑se de irracionalidades perigosas. O que conseguiu, na prática, foi entregar a espiritualidade ao mercado, que a transformou num produto de consumo rápido. A espiritualidade, ao afastar‑se da política, imaginou estar a preservar a pureza da experiência interior. O que obteve foi irrelevância social. A reinvenção do comum exige que ambas reconheçam o erro de que a política precisa de recuperar a dimensão simbólica que perdeu; a espiritualidade precisa de recuperar a dimensão comunitária que abandonou. O comum é o ponto de encontro possível e necessário.
Mas não nos iludamos dado que esta reinvenção não será feita por decreto, nem por workshops de desenvolvimento pessoal, nem por plataformas digitais que prometem “comunidades” compostas por pessoas que nunca se encontram. O comum não se cria com cliques, cria‑se com corpos. O comum não se constrói com slogans, constrói‑se com práticas. O comum não se decreta, exerce‑se. E é precisamente por isso que a reinvenção do comum é tão difícil pois exige tempo, presença ee compromisso três realidades que a sociedade contemporânea considera desperdícios intoleráveis.
A política, se quiser participar nesta reinvenção, terá de abandonar a sua obsessão com a gestão tecnocrática e recuperar a capacidade de mobilizar, inspirar e convocar. Não basta administrar o comum; é preciso imaginá‑lo. A espiritualidade, se quiser ser mais do que um spa emocional, terá de abandonar a sua fuga para dentro e reencontrar a dimensão ética e comunitária que sempre a sustentou. Não basta sentir o comum; é preciso praticá‑lo. A reinvenção do comum exige uma política com alma e uma espiritualidade com responsabilidade.
O que está em causa não é apenas a revitalização de conceitos, mas a reconstrução de formas de vida. O comum não é uma ideia abstracta; é uma experiência concreta. É a praça onde se discute, o serviço público que se partilha, o espaço verde que se cuida, o ritual que se celebra, a decisão que se toma em conjunto. O comum é o que resta quando o individualismo se revela insuficiente e o Estado se revela incompetente. O comum é o que emerge quando percebemos que a vida não se sustenta sozinha. O comum é, paradoxalmente, aquilo que nunca deixámos de ter e aquilo que mais urgentemente precisamos de reinventar.
A reinvenção do comum implica também enfrentar a crise de confiança que atravessa as sociedades contemporâneas. A política tornou‑se um espectáculo de cinismo, onde cada promessa é recebida como uma mentira antecipada. A espiritualidade tornou‑se um espectáculo de narcisismo, onde cada prática é avaliada pelo seu impacto no bem‑estar individual. O comum, para renascer, precisa de romper com ambos os espectáculos. Precisa de recuperar a confiança como prática social e não como sentimento privado. Precisa de recuperar a responsabilidade como vínculo e não como fardo.
É aqui que a reinvenção do comum se torna um exercício simultaneamente político e espiritual. Político, porque exige a construção de instituições capazes de sustentar a vida colectiva. Espiritual, porque exige a construção de significados capazes de orientar essa vida colectiva. O comum não é apenas o que partilhamos; é o que nos orienta. O comum não é apenas o que fazemos juntos; é o que nos permite continuar juntos. O comum não é apenas um espaço; é uma promessa.
Claro que haverá sempre quem considere tudo isto uma fantasia romântica, uma tentativa de ressuscitar formas de vida comunitária que não têm lugar num mundo globalizado, acelerado e hiperindividualizado. Mas essa crítica esquece que o comum não é uma nostalgia; é uma necessidade. A globalização criou interdependências que nenhum indivíduo pode ignorar. A aceleração criou vulnerabilidades que nenhum Estado pode resolver sozinho. O hiperindividualismo criou solidões que nenhuma terapia pode curar. A reinvenção do comum não é uma opção; é uma condição de sobrevivência.
O desafio, portanto, não é convencer as pessoas de que o comum é desejável, mas de que é inevitável. A política terá de aprender a governar com o comum e não apenas sobre o comum. A espiritualidade terá de aprender a inspirar o comum e não apenas a consolar indivíduos isolados. A sociedade terá de aprender a viver o comum e não apenas a consumi‑lo como mais um produto cultural. A reinvenção do comum exige uma mudança de paradigma, não uma mudança de decoração.
No fundo, reinventar o comum significa recuperar a capacidade de imaginar um “nós” que não seja uma soma de “eus”. Significa reconhecer que a vida colectiva não é um acidente, mas uma escolha. Significa aceitar que a liberdade não é apenas a ausência de constrangimentos, mas a presença de vínculos. Significa compreender que a espiritualidade não é apenas uma experiência interior, mas uma forma de estar no mundo. Significa admitir que a política não é apenas gestão, mas criação.
E, acima de tudo, significa perceber que o comum não é um luxo conceptual, mas a matéria‑prima da própria humanidade. Podemos tentar fugir dele, mas ele acabará sempre por nos encontrar nas crises, catástrofes e fragilidades que nos lembram que nenhum indivíduo, por mais autónomo que se julgue, é uma ilha. A reinvenção do comum é, portanto, a reinvenção da própria condição humana.
Se a política quiser sobreviver, terá de reencontrar o comum. Se a espiritualidade quiser ser relevante, terá de reencontrar o comum. E se nós quisermos continuar a ser uma sociedade e não apenas uma multidão de solitários teremos de reinventar o comum. Não como um ideal abstracto, mas como uma prática quotidiana. Não como um slogan, mas como uma forma de vida. Não como uma nostalgia, mas como um futuro possível.
Bibliografia Real
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