O 10 de Junho, oficialmente dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, continua a ser celebrado com a solenidade de um ritual que já ninguém leva verdadeiramente a sério, excepto os que dependem do protocolo para justificar a existência. A data, que deveria convocar um país inteiro para a reflexão sobre a sua identidade, tornou‑se um exercício anual de cosmética patriótica, cuidadosamente embalado para esconder o desconforto de um país que vive entre greves gerais, crises sociais, caos migratório, colapso dos serviços públicos e uma pobreza que insiste em não desaparecer, apesar das promessas sucessivas de que “agora é que é”. O 10 de Junho é, portanto, a ocasião perfeita para observar o contraste entre a liturgia oficial e a realidade quotidiana de um contraste tão gritante que quase se torna cómico, não fosse trágico.

A narrativa oficial insiste em que este é o dia da “portugalidade”, conceito tão maleável que serve para tudo como discursos inflamados, homenagens militares, lembrar Camões como se fosse um influencer renascentista, e para garantir que, pelo menos uma vez por ano, o país parece unido. Mas a verdade é que a portugalidade contemporânea se parece mais com um mosaico de frustrações acumuladas do que com um ideal colectivo. O país que desfila bandeiras no 10 de Junho é o mesmo que, no dia seguinte, volta a enfrentar hospitais sem médicos, escolas sem professores, famílias sem casa, trabalhadores sem salário digno e imigrantes sem direitos, enquanto os governantes regressam ao conforto climatizado dos gabinetes onde a realidade raramente entra.

O 10 de Junho funciona, assim, como um espelho distorcido que reflecte um país que gostaríamos de ser, não o país que realmente somos. A cerimónia militar, com a sua coreografia impecável, tenta convencer-nos de que existe ordem, disciplina e propósito colectivo. No entanto, basta sair do perímetro do desfile para reencontrar o país real, aquele onde a crise social deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural, onde a precariedade laboral é regra e não excepção, e onde a classe média se tornou uma espécie em vias de extinção, preservada apenas nos discursos políticos.

Há quem diga que o 10 de Junho serve para unir o país. Na prática, funciona mais como uma anestesia temporária que durante algumas horas, finge‑se que tudo está bem, que Portugal é um exemplo de estabilidade, que as instituições funcionam e que o futuro é promissor. É uma espécie de feriado emocional, cuidadosamente desenhado para suspender a consciência crítica. Mas, como qualquer anestesia, o efeito passa depressa e o despertar é sempre mais doloroso.

A ironia é que, enquanto se celebra a grandeza histórica, o país contemporâneo parece incapaz de resolver problemas básicos. A educação vive num estado de agonia prolongada, com professores exaustos, carreiras congeladas e escolas que funcionam graças ao heroísmo silencioso de quem ainda acredita que ensinar vale a pena. O sistema de saúde, outrora motivo de orgulho, transformou‑se num labirinto burocrático onde os doentes esperam meses por consultas e anos por cirurgias. E a pobreza, essa velha companheira da história portuguesa, continua instalada como se fosse parte do património nacional.

O 10 de Junho, ao insistir na narrativa da grandeza, acaba por acentuar o ridículo da situação pois celebra‑se um país épico enquanto se vive num país exausto. É como homenagear um atleta olímpico no exacto momento em que ele tenta correr com uma perna partida.

Outro elemento que torna o 10 de Junho particularmente desconfortável é a forma como Portugal lida com a migração. Oficialmente, somos um país acolhedor, aberto ao mundo, orgulhoso das comunidades espalhadas pelos quatro cantos do planeta. Na prática, porém, a política migratória portuguesa oscila entre o improviso e a contradição. Precisamos desesperadamente de mão-de-obra, mas tratamos muitos imigrantes como se fossem descartáveis; proclamamos integração, mas deixamos milhares viver em condições indignas; falamos de inclusão, mas permitimos que a burocracia transforme vidas em números.

O 10 de Junho, que também celebra as comunidades portuguesas no estrangeiro, expõe esta contradição com uma clareza quase cruel. Homenageiam-se os portugueses que emigraram, mas ignora-se o facto de que muitos o fizeram porque o país não lhes oferecia condições mínimas de dignidade. E, ao mesmo tempo, critica-se a chegada de imigrantes como se fossem uma ameaça, esquecendo que Portugal sempre viveu de fluxos migratórios para dentro e para fora.

A crise migratória não é apenas um problema administrativo; é um sintoma de um país que não sabe o que quer ser. Quer mão-de-obra barata, mas não quer lidar com as consequências sociais. Quer parecer moderno, mas mantém práticas antiquadas. Quer ser solidário, mas só quando não custa nada.

Se há fenómeno que revela o estado emocional do país, são as greves. Portugal tornou-se especialista em greves sectoriais, parciais, simbólicas, estratégicas, e, quando a paciência se esgota, greves gerais. Cada paralisação é um grito colectivo, uma forma de dizer que o país não aguenta mais. Mas, paradoxalmente, também se tornaram tão frequentes que já quase ninguém se surpreende. O país aprendeu a viver com greves como quem vive com alergias sazonais;  incomodam, mas fazem parte da paisagem.

O 10 de Junho, com o seu aparato militar e institucional, tenta transmitir a ideia de estabilidade. Mas a sucessão de greves mostra exactamente o contrário de que Portugal vive num estado permanente de tensão social, onde cada sector luta para não ser o próximo a colapsar. A greve tornou-se a linguagem política mais eficaz, porque é a única que o poder parece compreender.

A pobreza em Portugal não é um fenómeno marginal; é uma ferida aberta que atravessa gerações. O 10 de Junho, ao celebrar a identidade nacional, deveria ser o momento ideal para confrontar esta realidade. Mas, em vez disso, prefere-se a retórica da esperança, como se a esperança pagasse rendas, enchesse frigoríficos ou substituísse salários dignos.

A pobreza portuguesa é subtil, envergonhada, quase silenciosa. Não se vê em grandes números nas ruas, mas manifesta-se nas casas geladas no inverno, nas famílias que vivem com medo de uma despesa inesperada, nos jovens que não conseguem sair de casa dos pais, nos idosos que contam moedas para comprar medicamentos. É uma pobreza que se disfarça bem, mas que corrói o país por dentro.

No fundo, o 10 de Junho tornou-se um ritual de negação colectiva. Celebra-se o passado para evitar encarar o presente. Homenageia-se Camões para não falar dos professores que faltam. Exaltam-se os feitos militares para não discutir os hospitais que fecham. Fala-se das comunidades portuguesas no estrangeiro para não enfrentar a precariedade dos que ficaram.

É um dia que funciona como uma cortina de fumo pois por trás da pompa, esconde-se um país que vive numa espécie de limbo, incapaz de decidir se quer modernizar-se ou continuar a adiar tudo para “amanhã”.

Significa, acima de tudo, a persistência de um país que continua a acreditar que merece melhor, mesmo quando tudo à sua volta parece desmentir essa convicção. Significa a capacidade de celebrar, mesmo quando há pouco para celebrar. Significa a teimosia de um povo que, apesar de tudo, insiste em existir.

O 10 de Junho é, paradoxalmente, o retrato perfeito de Portugal; um país que vive entre a nostalgia do passado e a ansiedade do futuro, entre a esperança e o desencanto, entre a grandeza simbólica e a pequenez prática. É um dia que revela, com uma clareza desconfortável, a distância entre o país que somos e o país que fingimos ser.

E talvez seja precisamente por isso que o 10 de Junho continua a ser importante, porque nos obriga, mesmo que por instantes, a olhar para o espelho. E, apesar de todas as tentativas de maquilhagem institucional, o espelho não mente.