A queda progressiva do sistema político construído pela família al‑Asad abriu na Síria um campo de incerteza que ultrapassa a disputa entre facções e a competição por cargos. O país encontra‑se perante uma questão mais profunda, a de saber se o novo poder será capaz de reconstruir um Estado funcional ou se, pelo contrário, se limitará a gerir os despojos de uma ordem colapsada. Esta tensão, que Samir Aita sintetiza na noção de ghanima “o espólio” constitui o eixo interpretativo a partir do qual se pode compreender o dilema sírio contemporâneo. A alternativa é clara; ou se reconstitui um espaço público minimamente coeso, ou se abre caminho a uma fragmentação descrita como libanização.

A Síria que emerge do colapso do regime não é um território vazio, mas um mosaico de memórias, lealdades, redes económicas e feridas sociais acumuladas ao longo de décadas. A guerra destruiu infra-estruturas, deslocou milhões de pessoas e corroeu a confiança entre comunidades. Contudo, não eliminou a expectativa, profundamente enraizada na sociedade síria, de que o Estado deve desempenhar funções essenciais como garantir educação, saúde, salários, registos civis, serviços básicos e uma forma mínima de previsibilidade. Esta expectativa não nasce de idealizações, mas da experiência concreta de um Estado que, apesar de autoritário, assegurava mecanismos de redistribuição e protecção social. A ambiguidade desse passado explica por que razão muitos sírios rejeitam simultaneamente o regime e a sua completa dissolução.

  1. O Estado como memória social e como disputa

Aita sublinha que, na memória colectiva síria, o Estado não era apenas repressão. Era também escola pública, hospital distrital, funcionário acessível mediante suborno, subsídio alimentar, preço regulado, arquivo administrativo e certificado oficial. Esta teia de práticas, embora marcada por desigualdades e corrupção, produziu uma forma de cidadania pragmática, na qual o Estado funcionava como mediador entre necessidades básicas e recursos escassos. A erosão desse mediador abre espaço a actores sub‑estatais como milícias, redes religiosas, notáveis locais, organizações caritativas que substituem a protecção pública por lógicas de dependência pessoal.

A «libanização» da Síria, neste sentido, não é apenas a multiplicação de centros de poder, mas a transformação da protecção social em favor privado. O hospital público que se converte em clínica privada, a distribuição de alimentos que passa a depender da lealdade a um chefe local, a segurança que se torna serviço comprado ou negociado. A fragmentação institucional gera uma economia política da sobrevivência, na qual cada grupo procura assegurar o controlo de um território, de uma rota comercial, de um ministério ou de uma empresa pública. A administração deixa de ser instrumento de governo e converte‑se em mecanismo de captura.

  1. O novo poder e a tentação da conquista

O risco que Aita identifica o de tratar Damasco como um prémio que deriva da forma como o poder se reconfigurou após o colapso do regime. A ausência de uma autoridade central forte, combinada com a proliferação de actores armados e de patrocinadores externos, criou um ambiente em que a conquista militar se confunde com legitimidade política. Quem controla um bairro, porto, posto fronteiriço ou empresa estatal tende a considerá‑lo propriedade sua. Esta lógica de apropriação dificulta a reconstrução de instituições neutras e impede a emergência de uma administração pública orientada para o interesse comum.

A reconstrução física como estradas, redes eléctricas, escolas, hospitais depende de decisões políticas que definam prioridades, estabeleçam critérios e distribuam recursos. Se estas decisões forem capturadas por grupos que veem o Estado como fonte de rendas, a reconstrução tornar‑se‑á instrumento de enriquecimento e de consolidação de feudos locais. O dilema sírio reside precisamente aqui; que reconstruir implica recentraliza que confiança, e esta foi destruída pela guerra.

  1. A questão social como segurança nacional

Aita insiste que a verdadeira segurança nacional síria não reside na força militar, mas na capacidade de garantir serviços básicos. A estabilidade não se produz apenas pela ausência de violência, mas pela existência de um horizonte de vida minimamente previsível. A população síria, exausta por anos de conflito, deseja um poder central capaz de assegurar essa previsibilidade. Não se trata de nostalgia pelo regime, mas de reconhecimento de que a alternativa  à fragmentação, conduz a um cenário semelhante ao libanês, mas sem os mecanismos financeiros e sociais que permitiram ao Líbano sobreviver às suas próprias crises.

A questão social, portanto, não é um tema secundário, mas o núcleo da reconstrução política. Sem salários regulares, escolas funcionais, hospitais acessíveis, electricidade estável, qualquer governo será percebido como ilegítimo. A legitimidade, na Síria pós‑guerra, não se constrói através de discursos ideológicos, mas através da capacidade de restaurar a normalidade quotidiana.

  1. O risco da economia de guerra permanente

A guerra criou uma economia paralela que beneficia grupos armados, intermediários comerciais, contrabandistas e empresários ligados a redes de poder. Esta economia de guerra tende a perpetuar‑se, porque muitos dos seus beneficiários não têm interesse na estabilização. A transição para uma economia produtiva exige desmantelar redes de contrabando, regular mercados, reabrir rotas comerciais e reintegrar trabalhadores deslocados. Exige também recuperar empresas públicas e privadas destruídas ou capturadas por actores armados.

Se o novo poder optar por administrar a conquista, a economia de guerra continuará a dominar. Se, pelo contrário, decidir reconstruir o Estado, terá de enfrentar interesses poderosos que lucram com a desordem. A escolha entre governar e administrar não é apenas moral; é estrutural.

  1. A centralidade de Damasco e o problema da legitimidade

Damasco, enquanto capital histórica, possui um valor simbólico que ultrapassa a sua função administrativa. Controlar Damasco significa controlar a narrativa do Estado. Mas se a capital for tratada como ghanima, a sua função simbólica será corroída. A capital deve ser espaço de representação nacional, não de distribuição de espólios.

A legitimidade do novo governo dependerá da sua capacidade de se apresentar como guardião do interesse público. Isso implica romper com a lógica patrimonialista que marcou o regime anterior e que ameaça reproduzir‑se sob novas formas. A Síria não pode reconstruir‑se se o Estado for reduzido a fonte de rendimentos.

  1. A reconstrução como processo político e não apenas técnico

A reconstrução é frequentemente apresentada como questão técnica com planos urbanísticos, financiamento internacional, corredores energéticos, parcerias público‑privadas. Mas, na Síria, a reconstrução é antes de tudo um processo político. Quem decide o que reconstruir? Quem financia? Quem executa? Quem beneficia? Cada uma destas perguntas envolve escolhas que moldam o futuro do país.

A reconstrução pode reforçar a coesão nacional ou aprofundar a fragmentação. Pode criar empregos ou consolidar monopólios. Pode restaurar confiança ou alimentar ressentimentos. A técnica não substitui a política; depende dela.

  1. O papel das comunidades locais

As comunidades locais desempenharão um papel decisivo. Durante a guerra, muitas desenvolveram mecanismos próprios de sobrevivência com comités de bairro, redes de solidariedade, sistemas informais de segurança. Estes mecanismos podem ser integrados num processo de reconstrução participativa ou podem transformar‑se em obstáculos à recentralização. A escolha dependerá da capacidade do novo governo de dialogar com estas comunidades e de lhes oferecer alternativas credíveis.

  1. O dilema final: Estado ou feudo

O dilema sírio pode ser formulado de forma simples: o país será reconstruído como Estado ou como conjunto de feudos? A resposta dependerá da forma como o novo poder interpretará a sua própria função. Se se considerar administrador de uma conquista, distribuirá cargos, empresas e territórios como recompensas. Se se considerar governo de um Estado, procurará restaurar instituições, regular mercados, garantir serviços e reconstruir a confiança.

A Síria encontra‑se num momento em que a história não está escrita. A guerra destruiu muito, mas não eliminou a possibilidade de reconstrução. O que está em causa não é apenas a arquitetura institucional, mas a própria ideia de comunidade política.

Bibliografia

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Referência:

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