Há fenómenos naturais que funcionam como espelhos que devolvem-nos, sem piedade, a imagem das escolhas que preferimos ignorar. O El Niño é um desses espelhos. Surge ciclicamente, como quem regressa para verificar se aprendemos alguma coisa desde a última visita, e invariavelmente se conclui que não. Agora, com previsões que apontam para recordes de calor em 2026 e 2027, o fenómeno volta a ocupar o centro das atenções, não porque seja novidade, mas porque insiste em revelar a nossa incapacidade crónica de lidar com o óbvio.

O Observatório de Hong Kong, sempre prudente na forma e incisivo no conteúdo, anunciou que o El Niño está a formar-se com intensidade forte a muito forte. Traduzindo; o planeta prepara-se para mais um episódio de temperaturas anormalmente elevadas, como se o aquecimento global não estivesse suficientemente empenhado em bater recordes por conta própria. A conjugação entre o fenómeno natural e o aquecimento antropogénico promete um cocktail climático que dispensa gelo , até porque gelo é precisamente o que está a faltar.

O El Niño, esse aumento das temperaturas da superfície no Pacífico equatorial, não é um capricho meteorológico. É um mecanismo complexo, parte de um sistema planetário que tenta, de forma quase desesperada, redistribuir energia. O problema é que, ao contrário de nós, o planeta não tem a opção de fingir que não vê. Quando as águas aquecem no Pacífico, o clima global responde como um corpo febril que altera padrões, intensifica extremos, reorganiza ventos, desloca chuvas, provoca secas, multiplica tempestades. É a fisiologia da Terra em modo de alerta.

A previsão de que Hong Kong poderá enfrentar temperaturas recorde este ano e no próximo não é um aviso local. É um lembrete global. O que acontece no Pacífico nunca fica no Pacífico. O fenómeno afecta sistemas agrícolas, redes energéticas, infra-estruturas urbanas, ecossistemas frágeis e economias inteiras. Mas, curiosamente, continua a ser tratado como se fosse apenas mais um capítulo da meteorologia sazonal, quando na verdade é um diagnóstico.

O mais sarcástico nesta história é que não estamos perante um fenómeno desconhecido. O El Niño ocorre a cada dois a sete anos, dura entre nove e doze meses, e está amplamente estudado. A ciência explica-o, monitoriza-o, prevê-o. O que falta não é conhecimento; é vontade política, capacidade de planeamento e coragem para enfrentar a realidade sem recorrer ao habitual repertório de desculpas.

A cada novo episódio, multiplicam-se conferências, relatórios, declarações solenes e compromissos vagos. Fala-se em adaptação, mitigação, resiliência, transição energética e neutralidade carbónica. Conceitos nobres, sem dúvida, mas frequentemente usados como anestesia discursiva. A verdade é que o planeta aquece mais depressa do que as políticas se implementam, e o El Niño limita-se a amplificar o que estava mal.

A nível global, as consequências do El Niño são tão previsíveis quanto evitáveis como se tivéssemos aprendido alguma coisa com as últimas décadas. Aumento de ondas de calor, secas prolongadas em algumas regiões, chuvas torrenciais noutras, colapso de colheitas, pressão sobre sistemas alimentares, subida dos preços, instabilidade social, migrações forçadas. É o catálogo habitual, que se repete com a precisão de um relógio que ninguém quer acertar.

O mais desconcertante é que continuamos a tratar estes impactos como se fossem inevitáveis, quando são, em grande parte, agravados por decisões humanas. A expansão urbana desordenada, a destruição de ecossistemas, a dependência de combustíveis fósseis, a negligência na gestão da água, a ausência de planeamento climático, que transforma um fenómeno natural num amplificador de vulnerabilidades.

O El Niño não é apenas um fenómeno oceânico; é um reorganizador global. A sua influência estende-se ao Atlântico, ao Índico, ao Árctico, às monções, aos ciclones, às correntes atmosféricas. É um maestro involuntário de uma orquestra que toca cada vez mais alto e mais desafinada. E, como qualquer maestro, não se preocupa com o público, apenas com a física.

A previsão de recordes de calor em 2026 e 2027 não é um exercício de dramatização. É uma projecção baseada em dados concretos de que o planeta está mais quente, os oceanos acumulam mais energia, os extremos climáticos tornaram-se mais frequentes e mais intensos. O El Niño, ao surgir num contexto de aquecimento global acelerado, funciona como um catalisador. Não cria o problema, mas expõe-no.

Há algo profundamente irónico na forma como os governos reagem a estas previsões. Primeiro, expressam preocupação. Depois, prometem medidas. Finalmente, esperam que o fenómeno passe para que tudo possa regressar à normalidade que não existe. O termómetro sobe, mas a ambição política permanece teimosamente baixa.

A verdade é que o El Niño obriga a decisões que muitos preferem adiar como reforçar infra-estruturas, reorganizar sistemas agrícolas, repensar modelos energéticos, investir em ciência, proteger ecossistemas, planear cidades de forma inteligente. Mas estas medidas exigem tempo, dinheiro e, sobretudo, coragem. E coragem é um recurso que, ao contrário do dióxido de carbono, parece estar em declínio.

As consequências económicas do El Niño são vastas e frequentemente subestimadas. A quebra de produção agrícola afecta cadeias de abastecimento, aumenta preços, reduz exportações, pressiona famílias e governos. As ondas de calor elevam o consumo energético, provocam falhas em redes eléctricas, aumentam internamentos hospitalares, reduzem produtividade laboral. As tempestades e cheias destroem infra-estruturas, exigem reconstrução, drenam orçamentos públicos.

Tudo isto é conhecido, mensurável e previsível. E, no entanto, a resposta global continua a ser marcada por uma espécie de fatalismo confortável de que “É um fenómeno natural, não há muito a fazer.” Há, sim. O que falta é vontade.

O Observatório de Hong Kong não está sozinho nas previsões. Agências meteorológicas de vários países alertam para o impacto global do fenómeno. Mas o que deveria ser um sinal de mobilização transforma-se, demasiadas vezes, num exercício de comunicação institucional. Publicam-se relatórios, organizam-se conferências, divulgam-se gráficos. E depois? Depois espera-se. O planeta, porém, não espera. O aquecimento global avança, os oceanos acumulam energia, os extremos intensificam-se. O El Niño é apenas mais um capítulo numa narrativa que  não admite pausas.

Talvez o aspecto mais mordaz desta história seja o facto de o El Niño funcionar como um professor paciente, mas implacável. Regressa periodicamente para verificar se aprendemos alguma coisa. E, invariavelmente, conclui que não. Continuamos a agir como se o clima fosse uma variável secundária, quando é a base de tudo como agricultura, energia, saúde, economia, segurança, vida. O fenómeno não é uma ameaça externa. É um lembrete interno. Mostra-nos que o planeta responde às nossas acções com a precisão de uma equação física. E que, por mais que tentemos ignorar, relativizar ou adiar, a realidade acaba sempre por se impor.

O El Niño poderá levar a recordes de calor em 2026 e 2027. Poderá intensificar secas, tempestades, ondas de calor. Poderá pressionar economias, sistemas alimentares, infra-estruturas. Mas o verdadeiro problema não é o fenómeno em si. É a nossa incapacidade de agir com a urgência que a realidade exige. O planeta não está a pedir permissão para aquecer. Está a aquecer. E nós continuamos a discutir detalhes enquanto ignoramos o essencial. O El Niño é um aviso, não uma sentença. Mas, como qualquer aviso, só é útil se for ouvido.

Bibliografia

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