“The unreasonable has become the majoritarian.”

Umberto Eco, Ur-Fascism (1995)

 Durante muito tempo acreditou-se que as sociedades europeias tinham desenvolvido anticorpos suficientes contra as velhas epidemias ideológicas que devastaram o continente no século XX. Era uma convicção confortável, dessas que permitem dormir descansado enquanto a casa começa lentamente a cheirar a fumo. A recente popularização do conceito de “remigração” demonstra precisamente o contrário de que as ideias mais perigosas raramente regressam pela porta principal, trajadas de brutalidade e violência declarada; preferem entrar pela recepção, sorridentes, bem penteadas, acompanhadas por especialistas de comunicação e embaladas em terminologia aparentemente técnica.

A palavra em si possui uma elegância burocrática quase admirável. Parece saída de um relatório administrativo, de uma comissão de peritos ou de uma conferência patrocinada por alguma instituição respeitável. No entanto, por detrás da embalagem asséptica esconde-se uma concepção da sociedade baseada na exclusão, na suspeita permanente e na obsessão identitária. Como observava Hannah Arendt em “The Origins of Totalitarianism” (1951), os movimentos autoritários prosperam quando conseguem transformar grupos humanos em categorias abstractas, reduzindo indivíduos concretos a problemas administrativos.

A grande inovação contemporânea não é a intolerância; a novidade consiste em vender a intolerância como se fosse uma actualização de software destinada a corrigir falhas do sistema democrático. O fenómeno torna-se particularmente revelador quando analisado à luz da paisagem política europeia actual, onde a ansiedade colectiva se converteu numa matéria-prima extraordinariamente lucrativa. Há partidos que exploram o medo com a mesma competência com que uma multinacional explora um recurso natural.

Descobriram que a insegurança cultural rende votos, que a inquietação económica gera cliques e que a sensação de deslocação social pode ser transformada numa poderosa mercadoria eleitoral. O cidadão deixa de ser encarado como participante numa comunidade política e passa a ser tratado como consumidor de angústias cuidadosamente produzidas. Em vez de resolução de problemas oferece-se indignação; em vez de pensamento apresenta-se espectáculo; em vez de soluções distribuem-se culpados.

O mais curioso é que muitos dos promotores destas narrativas se apresentam como campeões do realismo. Falam de pragmatismo, racionalidade e bom senso, enquanto constroem fantasias colectivas que fariam corar qualquer romancista menos ambicioso. A realidade, naturalmente, é inconveniente. A realidade recorda que as sociedades modernas são complexas, heterogéneas e interdependentes. A realidade insiste em mostrar que os desafios relacionados com migrações, integração social, habitação, mercado de trabalho ou segurança não podem ser reduzidos a slogans de três palavras impressos em cartazes eleitorais.

Mas a realidade tem um problema grave pois exige esforço intelectual. O slogan, pelo contrário, oferece gratificação instantânea. Como escrevia Umberto Eco em “Ur-Fascism”(1995), uma das características permanentes dos populismos autoritários consiste precisamente na simplificação extrema do mundo, dividindo a sociedade entre os que supostamente pertencem e os que alegadamente representam uma ameaça. O raciocínio é tão rudimentar que impressiona pela eficácia. É quase uma obra de minimalismo politico ao retirar nuances, eliminar contexto, ignorar factos e apresentar preconceitos como se fossem análises sofisticadas.

Entretanto, as redes sociais amplificam o processo com uma eficiência que antigos propagandistas dificilmente poderiam imaginar. Um vídeo de quinze segundos consegue hoje competir com anos de investigação académica. Uma frase cuidadosamente provocatória alcança milhões de pessoas antes que qualquer especialista termine o primeiro parágrafo da respectiva refutação. A velocidade substituiu a reflexão. A notoriedade substituiu a credibilidade. O ruído substituiu o conhecimento. Não surpreende, portanto, que conceitos outrora confinados às margens encontrem agora espaço no centro do debate público.

O que ontem era considerado radical surge hoje como mera opinião controversa; o que ontem parecia politicamente tóxico apresenta-se agora como hipótese legítima de governação. Este fenómeno confirma uma observação recorrente de Karl Popper em “The Open Society and Its Enemies” (1945) de que as sociedades abertas podem ser destruídas precisamente pela tolerância excessiva perante projectos que pretendem acabar com a abertura que as torna possíveis. Há uma dimensão particularmente irónica em todo este processo. Os mesmos círculos que denunciam alegadas elites culturais recorrem frequentemente a estratégias meticulosamente elaboradas por profissionais altamente qualificados da comunicação política.

Os mesmos discursos que proclamam defender a autenticidade popular são muitas vezes construídos através de sofisticadas campanhas digitais, estudos de mercado, segmentação algorítmica e engenharia emocional. O povo é constantemente invocado, mas raramente ouvido. Serve como símbolo, não como interlocutor. Funciona como argumento, não como sujeito. E assim prospera uma indústria de narrativas cuja principal matéria-prima é a frustração acumulada de populações confrontadas com salários estagnados, habitação inacessível, serviços públicos pressionados e crescente sensação de perda de controlo sobre o futuro.

Em vez de enfrentar estes problemas estruturais, torna-se mais conveniente apontar para grupos específicos e apresentar a sua exclusão como solução milagrosa. A história demonstra repetidamente onde esse caminho conduz. Mas a memória colectiva parece sofrer de uma curiosa forma de amnésia selectiva. Como observava Zygmunt Bauman em “Liquid Fear” (2006), os medos contemporâneos são difusos, difíceis de identificar e ainda mais difíceis de resolver. Por essa razão, existe uma poderosa tentação política de transformar ansiedades abstractas em ameaças concretas.

Quando o futuro assusta, procura-se um rosto para culpar. Quando as instituições falham, inventa-se um inimigo conveniente. Quando a complexidade incomoda, fabricam-se respostas simplistas. O resultado é uma degradação gradual da conversa democrática, substituída por um teatro permanente de suspeitas e ressentimentos. O debate público converte-se num concurso para determinar quem consegue formular a frase mais alarmista, a proposta mais incendiária ou a acusação mais espectacular. A moderação passa a ser confundida com fraqueza. A prudência transforma-se em cobardia. A reflexão é ridicularizada como elitismo. Enquanto isso, os problemas reais permanecem intactos, observando silenciosamente o espectáculo.

O custo de vida continua elevado, a habitação continua inacessível para muitos jovens, a precariedade persiste e os serviços públicos enfrentam desafios crescentes. Contudo, discutir soluções exige trabalho, investimento e visão estratégica. Produzir indignação custa muito menos. É por isso que a chamada remigração funciona sobretudo como sintoma e não como resposta. Representa o triunfo da política emocional sobre a política racional, da performance sobre a substância, do marketing sobre o pensamento. Constitui ainda um aviso preocupante acerca da facilidade com que democracias maduras podem habituar-se à linguagem da exclusão quando esta surge revestida de respeitabilidade institucional.

O perigo raramente se apresenta vestido de forma ameaçadora. Surge frequentemente acompanhado por gráficos elegantes, discursos cuidadosamente ensaiados e promessas sedutoras de simplicidade. E é precisamente nessa aparência de normalidade que reside a sua maior força. Afinal, como demonstra a experiência histórica, poucas coisas são mais perigosas do que ideias extremas que aprenderam a falar com voz moderada. Quando o medo passa a ser tratado como programa político e a exclusão é promovida como virtude cívica, não estamos perante uma renovação da democracia, mas perante a sua lenta corrosão. A questão decisiva não é saber quantos aderem hoje a estas narrativas; a questão verdadeiramente inquietante consiste em perceber quantos já deixaram de se surpreender com elas.

Bibliografia

  • Arendt, Hannah. The Origins of Totalitarianism. Harcourt, 1951.
  • Eco, Umberto. Ur-Fascism. The New York Review of Books, 1995.
  • Orwell, George. Politics and the English Language. Horizon, 1946.
  • Judt, Tony. Postwar: A History of Europe Since 1945. Penguin Books, 2005.

Jorge Rodrigues Simão, 2026