O Brasil tem uma extraordinária capacidade para transformar derrotas em vitórias, derrotados em heróis e problemas em bandeiras eleitorais. Poucos países dominam esta arte com semelhante requinte. O primeira volta das eleições de 2026 voltou a demonstrá-lo. Preso, inelegível e afastado formalmente da disputa presidencial, Jair Bolsonaro conseguiu ainda assim ocupar o centro do palco político. Não como candidato, mas como símbolo. E, em política, os símbolos sobrevivem frequentemente mais tempo do que os próprios actores.

Há uma velha observação de Gustave Le Bon em “Psychologie des Foules” (1895): “As multidões nunca tiveram sede da verdade. Voltam-se para as ilusões quando não podem passar sem elas.” A frase continua desconfortavelmente actual. Ao longo dos últimos anos, Bolsonaro deixou de ser apenas um político. Tornou-se uma ideia, uma identidade e, para muitos dos seus apoiantes, uma narrativa de resistência.

Os resultados desta primeira volta parecem confirmar precisamente isso. Mesmo privado dos seus direitos políticos, o antigo presidente conseguiu impor a candidatura de Flávio Bolsonaro, contrariando disputas internas, rivalidades familiares e especulações incessantes sobre quem herdaria o comando do movimento conservador brasileiro. Num país onde os partidos frequentemente mudam de convicções com a facilidade com que mudam de logótipo, a capacidade de um líder influenciar decisivamente a sucessão, estando preso, constitui um fenómeno político digno de estudo.

A situação contém uma ironia deliciosa. Durante anos, críticos do bolsonarismo afirmaram que o movimento dependia exclusivamente da figura de Bolsonaro. Ora, se o filho alcançar o poder ou mesmo uma votação suficientemente expressiva para consolidar a sucessão, a tese da dependência absoluta fica enfraquecida. O líder desapareceu das urnas, mas o capital político permaneceu.

Nicolau Maquiavel escreveu em “O Príncipe” que o poder raramente desaparece; apenas muda de forma. A observação encaixa quase perfeitamente neste momento brasileiro. O bolsonarismo parece ter compreendido algo que muitas forças políticas ignoraram de que a batalha contemporânea não é apenas eleitoral, mas cultural. Ganha-se nas redes sociais, nas comunidades digitais, nas igrejas, nos grupos de mensagens e nos espaços informais onde a identidade política se mistura com a identidade pessoal.

É precisamente aí que reside uma parte considerável da força demonstrada pelo Partido Liberal. Mais do que uma máquina partidária tradicional, o PL soube transformar-se num receptáculo político de um eleitorado que se vê a si próprio como movimento antes de se ver como partido. A diferença é substancial. Partidos podem perder eleições; movimentos sobrevivem-lhes.

A eleição de vários membros da família Bolsonaro reforça ainda mais essa percepção. Flávio, Carlos, Michelle e Jair Renan surgem como peças de uma arquitectura política desenhada para garantir continuidade. Os críticos descrevem o fenómeno como dinastia. Os apoiantes preferem falar em legado. Ambos, curiosamente, podem ter razão simultaneamente.

Entretanto, enquanto muitos observadores concentravam a atenção na corrida presidencial, uma transformação talvez mais significativa acontecia no Congresso Nacional. O crescimento da representação do PL no Senado e a manutenção de uma posição dominante na Câmara dos Deputados revelam um fenómeno frequentemente ignorado por comentadores excessivamente fascinados pela figura presidencial de que as democracias modernas não vivem apenas dos executivos.

Alexis de Tocqueville advertiu em “A Democracia na América” (1835) que a verdadeira força política de uma sociedade se encontra nas instituições intermediárias. O controlo ou influência crescente sobre o Legislativo oferece ao PL algo talvez mais valioso do que uma vitória presidencial que é capacidade duradoura de moldar agendas, travar iniciativas adversárias e impor temas ao debate nacional.

Por essa razão, falar apenas de vencedores e vencidos da primeira volta constitui um erro de análise. A política raramente é um jogo de soma zero. Enquanto o campo conservador celebra o crescimento parlamentar, o campo progressista enfrenta um dilema mais profundo.

O desempenho de Lula representa um sinal de alerta difícil de ignorar. Desde a sua primeira vitória presidencial, em 2002, habituou-se a ocupar uma posição quase magnética na política brasileira. Contudo, nenhum capital político é eterno. Max Weber lembrava, em “Economia e Sociedade” (1922), que o carisma constitui uma das formas mais instáveis de poder. Depende da crença contínua dos seguidores. Quando essa crença enfraquece, inicia-se inevitavelmente a procura de sucessores.

Essa é talvez a questão mais delicada para o Partido dos Trabalhadores. O que será do PT sem Lula? Durante décadas, a esquerda brasileira organizou-se em torno de uma figura singular. Tal estratégia produziu vitórias eleitorais extraordinárias, mas também criou uma dependência evidente. O paradoxo é salta à vista. Enquanto o bolsonarismo, mesmo com o seu líder ausente das urnas, parece encontrar mecanismos de sucessão, o petismo continua a enfrentar dificuldades em apresentar uma figura com a mesma capacidade de mobilização nacional.

Existe também uma dimensão sociológica frequentemente negligenciada. O eleitorado brasileiro parece cada vez mais orientado por sentimentos de pertença cultural e menos por programas governativos tradicionais. Questões identitárias, valores morais, percepções de liberdade e sentimentos de rejeição às elites políticas ganharam uma importância que ultrapassa muitas vezes os debates económicos clássicos.

Christopher Lasch observou em “The Revolt of the Elites” (1995) que uma das características das democracias contemporâneas é o crescente afastamento entre as elites institucionais e amplos sectores da população. A sensação de abandono ou incompreensão alimenta movimentos políticos que se apresentam como anti-establishment, mesmo quando já fazem parte do próprio sistema.

Nesse contexto, a tensão entre sectores da direita e o Supremo Tribunal Federal assume relevância acrescida. A eleição de senadores alinhados com uma agenda crítica em relação ao STF não significa automaticamente alterações institucionais profundas. Contudo, revela um facto político incontornável: existe um segmento significativo da população que vê o poder judicial como actor político e não apenas como árbitro constitucional.

A crise é particularmente complexa porque, como sucede frequentemente nas democracias polarizadas, cada campo político interpreta os mesmos acontecimentos de forma diametralmente oposta. Para uns, o Supremo protege a democracia. Para outros, interfere excessivamente na política. E quando instituições passam a ser avaliadas sobretudo através de preferências partidárias, todos os actores acabam inevitavelmente fragilizados.

Outra derrota notória parece ser a do chamado centrão moderado, incarnado em figuras como Gilberto Kassab e sectores do PSD. Durante anos, muitos analistas acreditaram que o centro político voltaria a dominar o sistema partidário brasileiro. No entanto, o eleitorado parece ter escolhido um caminho diferente.

A moderação raramente produz entusiasmo. Produz estabilidade. E estabilidade, infelizmente para os moderados, gera menos manchetes, menos cliques e menos mobilização emocional. Como escreveu José Ortega y Gasset em “A Revolta das Massas” (1930), as épocas de intensa transformação tendem a favorecer discursos fortes e posições marcadas.

É precisamente esse fenómeno que parece beneficiar a direita brasileira neste momento. Não necessariamente porque todos os eleitores concordem integralmente com a sua agenda, mas porque apresenta uma narrativa simples, emocional e facilmente comunicável. A Segunda volta surge assim como um confronto entre duas leituras distintas do país. De um lado, a tentativa de continuidade de um projecto associado ao lulismo. Do outro, a consolidação de uma sucessão política construída em torno do legado de Bolsonaro.

O resultado permanece imprevisível. Porém, algumas conclusões parecem evidentes. A primeira é que o bolsonarismo sobreviveu à prisão do seu líder. A segunda é que o Partido Liberal emerge com musculatura institucional reforçada. A terceira é que o Partido dos Trabalhadores enfrenta um problema estratégico que ultrapassa largamente esta eleição.

Pode a Segunda volta alterar este quadro? Evidentemente. Uma vitória de Lula mudaria o equilíbrio simbólico imediato. Contudo, mesmo nesse cenário, o fortalecimento legislativo da direita continuaria a representar um factor de pressão permanente sobre qualquer governo.

Se Flávio Bolsonaro vencer, o impacto será ainda mais profundo. Não apenas porque representará uma sucessão familiar bem-sucedida, mas porque será interpretado pelos apoiantes como uma validação política do legado do pai. E narrativas, uma vez confirmadas nas urnas, tornam-se extraordinariamente resistentes.

No fundo, a grande ironia destas eleições talvez seja a de que um homem privado de disputar o poder conseguiu influenciar decisivamente a disputa por esse mesmo poder. Os seus adversários dedicaram anos a combater a figura. Entretanto, a ideia encontrou novas formas de sobrevivência.

A política tem destas crueldades subtis. Às vezes, os vencedores governam. Noutras ocasiões, limitam-se a moldar o futuro. E há casos mais raros, quase literários, em que alguém consegue fazer ambas as coisas ao mesmo tempo, mesmo estando ausente do boletim de voto.

É precisamente essa possibilidade que transforma Jair Bolsonaro num dos protagonistas centrais desta primeira volta. Não porque tenha regressado ao poder, mas porque demonstrou que continua a influenciar quem o disputa.

Bibliografia

ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras.

LASCH, Christopher. The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy. New York: W. W. Norton, 1995.

LE BON, Gustave. Psychologie des Foules. Paris: Félix Alcan, 1895.

MACHIAVELLI, Niccolò. O Príncipe. Diversas edições portuguesas.

ORTEGA Y GASSET, José. A Revolta das Massas. Lisboa: Relógio d’Água.

TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América. Lisboa: Principia.

WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora Universidade de Brasília.

 

Jorge Rodrigues Simão, 2026