Há datas que ficam gravadas não pela pompa, mas pela perplexidade. O dia 8 de Setembro tornou-se um desses momentos em que a Europa acordou com a sensação de que o chão lhe fugia debaixo dos pés. Não por causa de um cataclismo natural, mas por um fenómeno político que, embora anunciado, ninguém quis realmente acreditar pois a extrema‑direita conquistou 43,8% dos votos na Saxónia‑Anhalt, quase uma maioria absoluta e quase um cheque em branco para governar sem ter de fingir moderação. O choque não foi apenas eleitoral; foi existencial. Afinal, como é que uma região inteira decide entregar o futuro a um partido que promete o passado embrulhado em papel de celofane?
Para compreender este resultado, é preciso recuar àquilo que muitos preferem esquecer de que a reunificação alemã não foi um casamento, foi uma aquisição. A Alemanha ocidental comprou a oriental como quem compra uma empresa falida com activos depreciados, trabalhadores desmotivados e uma cultura organizacional que não encaixava no novo manual de procedimentos. A chamada “transição à bruta para o capitalismo” não foi uma metáfora académica; foi uma operação cirúrgica sem anestesia. Em apenas três anos, o número de empregos no leste caiu para metade. O desemprego ultrapassou os 30%. E a promessa de Helmut Kohl de que os cidadãos do leste iriam viver “como no ocidente” revelou-se tão fiável como um panfleto publicitário esquecido numa estação de serviço.
Os habitantes do leste, habituados a um sistema que, apesar de autoritário, lhes garantia emprego, casa acessível, educação, saúde e creches, viram-se lançados num mercado laboral que parecia mais um campo de batalha. A precariedade tornou-se rotina, a pobreza deixou de ser excepção, e o futuro passou a ser uma palavra dita com ironia. Entre 1990 e 2024, dois milhões de pessoas abandonaram a região. Não emigraram; fugiram da sensação de que tinham sido enganados duas vezes, primeiro pelo socialismo real, depois pelo capitalismo real.
A dupla desilusão criou uma espécie de cinismo estrutural, uma descrença profunda nos “partidos estabelecidos”, expressão que no leste se pronuncia com o mesmo tom com que se diz “os culpados disto tudo”. CDU, SPD, FDP e Die Grünen tornaram-se símbolos de um regime que, aos olhos de muitos, nunca os quis realmente integrar. O voto na extrema‑direita não foi motivado sobretudo pelo racismo embora esteja lá, como um cheiro persistente mas pela preocupação com casas acessíveis, pensões dignas, gasolina pagável e serviços sociais que não tratem o cidadão como um intruso. Em suma, votaram como quem deixa uma reclamação num livro de queixas, sabendo que ninguém vai ler, mas escrevendo na mesma.
O que raramente se diz talvez por pudor académico, talvez por não querer parecer demasiado pessimista é que a esmagadora maioria das pessoas do leste também não quer regressar ao “socialismo real”. E quem os pode culpar? A RDA foi um regime autoritário onde a Stasi, esse omnipresente aparelho de vigilância, transformou a vida privada num conceito teórico. Como escreveu Anna Funder em “Stasiland” (2003), “a Stasi não era apenas uma instituição; era uma atmosfera”. Mais de 200.000 pessoas fugiram para o oeste depois da construção do muro, e pelo menos 327 foram mortas na tentativa. A liberdade era tão preciosa que muitos arriscaram a vida por ela e tão frágil que muitos a perderam antes de a alcançar.
Assim, os cidadãos do leste carregam duas cicatrizes; a do socialismo autoritário e a do capitalismo neoliberal. Uma ferida antiga, outra recente. Uma causada pelo Estado que prometia igualdade, outra pelo Estado que prometia prosperidade. Ambas falharam. E quando duas promessas falham, o eleitor procura uma terceira, mesmo que seja uma ilusão. A extrema‑direita apresenta-se como essa alternativa fundamental, não porque ofereça soluções, mas porque oferece ressentimento. E o ressentimento, como bem notou Albert Hirschman em “The Rhetoric of Reaction” (1991), é uma força política poderosa que não constrói nada, mas derruba tudo.
A extrema‑direita tornou-se o recipiente onde se despeja a frustração acumulada de décadas. Não é um Partido; é um protesto. Não é um programa politico; é um grito. E, como todos os gritos, não precisa de coerência, apenas de volume. A sua vitória na Saxónia‑Anhalt não é um triunfo ideológico; é um sintoma social. É o resultado de uma população que se sente desvalorizada, ignorada e descartada. Como escreveu Didier Eribon em “Retour à Reims” (2009), “a política é muitas vezes o lugar onde se exprime aquilo que não se pode dizer noutros espaços”. O voto é uma frase que não cabe numa conversa normal.
Mas há um detalhe que importa sublinhar de que votar na extrema‑direita não significa querer que ela governe. Significa querer que alguém pague pelo que aconteceu. É uma vingança simbólica contra o capitalismo neoliberal representado pelos partidos tradicionais da Alemanha ocidental. Uma vingança que não resolve nada, mas que alivia momentaneamente a sensação de impotência. É como bater na mesa quando o prato cai ao chão; não ajuda, mas consola.
A luta política contra esta força não pode limitar-se a denunciar o seu racismo ou a sua retórica antidemocrática. Isso é necessário, mas insuficiente. A crítica moral não substitui a política material. Medidas administrativas contra um eventual governo regional da extrema‑direita são paliativos burocráticos, não respostas políticas. O problema não é jurídico; é social. E problemas sociais resolvem-se com políticas sociais comorendas acessíveis, pensões justas, gasolina pagável, serviços públicos robustos, investimento real no quotidiano das pessoas. Como escreveu Amartya Sen em “Development as Freedom” (1999), “a liberdade exige condições materiais que a tornem possível”. Sem essas condições, a democracia torna-se um ritual vazio.
É preciso, portanto, construir uma alternativa que não seja apenas moralmente superior, mas materialmente convincente. Uma alternativa solidária, democrática, pacífica e humana de palavras que parecem saídas de um panfleto, mas que são, na verdade, exigências concretas. O socialismo democrático, não o autoritário, pode oferecer essa resposta. Não o socialismo que vigia, mas o que protege. Não o que controla, mas o que emancipa. Não o que promete o paraíso, mas o que garante o básico.
A Saxónia‑Anhalt não é um caso isolado; é um aviso. Um aviso de que a Europa está a produzir cidadãos que não se sentem parte da Europa. Um aviso de que a desigualdade não é apenas económica, mas também simbólica. Um aviso de que a democracia não se mantém sozinha e precisa de ser alimentada, cuidada e renovada. Como escreveu Tony Judt em “Ill Fares the Land” (2010), “se não acreditarmos que o mundo pode ser melhor, outros acreditarão que pode ser pior e agirão em conformidade”.
A extrema‑direita venceu porque os outros perderam antes de começar. Perderam quando aceitaram que o leste era um problema técnico e não humano. Perderam quando trataram a reunificação como uma fusão empresarial. Perderam quando confundiram crescimento económico com justiça social. Perderam quando esqueceram que a democracia não é apenas um sistema político, mas uma promessa de dignidade.
E, no entanto, há espaço para esperança. A esperança não está nos partidos tradicionais, nem na extrema‑direita, nem nos tecnocratas que acham que tudo se resolve com relatórios. A esperança está na capacidade de reconstruir o contrato social. De devolver às pessoas aquilo que lhes foi retirado como segurança, estabilidade e pertença. De criar uma sociedade onde ninguém tenha de escolher entre dois modelos que já falharam. De oferecer uma alternativa que não seja uma reacção, mas uma construção.
A Saxónia‑Anhalt votou como quem procura uma saída. Cabe-nos criar uma saída que não seja um beco. Uma saída que não seja uma repetição do passado. Uma saída que seja, finalmente, um futuro.
Bibliografia
- Funder, Anna – Stasiland: Stories from Behind the Berlin Wall. Granta Books, 2003.
- Hirschman, Albert O. – The Rhetoric of Reaction: Perversity, Futility, Jeopardy. Harvard University Press, 1991.
- Eribon, Didier – Retour à Reims. Fayard, 2009.
- Sen, Amartya – Development as Freedom. Oxford University Press, 1999.
- Judt, Tony – Ill Fares the Land. Penguin Press, 2010.
Jorge Rodrigues Simão 2026
