Há fenómenos históricos que acontecem com estrondo como revoluções, quedas de impérios, declarações inflamadas que prometem reconfigurar o planeta. E depois há transformações silenciosas, quase tímidas, que avançam como marés discretas até que, um dia, percebemos que o mundo não está onde o deixámos. A lenta desvinculação global dos Estados Unidos pertence a esta segunda categoria que não tem fogos de artifício, não tem manifestos dramáticos, não tem líderes a bater com o punho na mesa. Tem, isso sim, uma sucessão de decisões pragmáticas tomadas por países que, cansados de esperar pela coerência americana, decidiram reorganizar-se sem pedir licença.

Durante décadas, Washington acreditou que a sua liderança era uma espécie de lei natural, tão inevitável como a gravidade. A convicção era tão profunda que muitos responsáveis americanos confundiam influência com direito adquirido. O problema é que o resto do mundo começou a notar que essa liderança vinha acompanhada de uma volatilidade desconcertante. A política externa dos Estados Unidos tornou-se uma montanha-russa emocional, ora intervencionista e messiânica, ora isolacionista e melancólica, ora defensora da globalização, ora apóstola do proteccionismo. Para os aliados tradicionais, isto era irritante; para os parceiros ocasionais, tornou-se insustentável.

A erosão da confiança não aconteceu de um dia para o outro. Foi acumulando-se como ferrugem num sistema que antes parecia inabalável. Países na Ásia, África e América Latina, habituados a depender de tecnologia, financiamento e normas americanas, começaram a perceber que a previsibilidade era um luxo que Washington não oferecia. E, como qualquer actor racional, fizeram aquilo que qualquer empresa, família ou Estado faz quando um fornecedor se torna errático; diversificaram. Não por ideologia, não por ressentimento, mas por puro instinto de sobrevivência.

O resultado é uma fragmentação económica que muitos analistas americanos insistem em tratar como uma anomalia temporária. Não é. O dólar continua dominante, mas não é o único instrumento de transacção global. Sistemas digitais alternativos, moedas regionais e acordos bilaterais estão a criar circuitos paralelos que reduzem a dependência do sistema financeiro americano. Não se trata de uma rebelião contra o dólar; trata-se de uma precaução contra a imprevisibilidade de quem o controla. A hegemonia monetária não desaparece de repente mas evapora-se lentamente, como uma autoridade que deixa de ser consultada.

A reorganização das cadeias de abastecimento é ainda mais reveladora. Durante décadas, os Estados Unidos foram o epicentro tecnológico e industrial que alimentava o mundo. Hoje, esse centro está a deslocar-se, não por colapso americano, mas por ascensão de alternativas. A China oferece escala, a Índia oferece mercado, e vários blocos regionais oferecem estabilidade. A América continua a produzir inovação, mas não dita o ritmo global. A sua capacidade de definir normas ambientais, digitais, comerciais está a enfraquecer porque a credibilidade é o primeiro recurso a desaparecer quando a coerência política se torna um bem escasso.

O impacto interno desta desvinculação global é subtil, mas real. Indústrias americanas que prosperavam graças à interdependência internacional estão a sentir a retracção dos investimentos. A colaboração científica, que sempre foi um motor da inovação, está a perder vigor à medida que parceiros estrangeiros procuram ecossistemas mais estáveis. A América continua a ser um gigante tecnológico, mas um gigante isolado é apenas uma estátua impressionante, mas imóvel. A crença de que o país pode prosperar fechando-se ao mundo é uma fantasia que só persiste porque o debate político americano se tornou uma competição de slogans em vez de uma análise de realidade.

O mais irónico é que este afastamento global não nasce de hostilidade. A maioria dos países não está zangada com os Estados Unidos; simplesmente deixou de os considerar indispensáveis. A multipolaridade não é uma revolução contra Washington mas uma reorganização pragmática que decorre da constatação de que depender de um actor imprevisível é um risco estratégico. A América não está a ser rejeitada; está a ser relativizada. E, para um país habituado a ser o centro do universo, a relativização é uma forma particularmente dolorosa de declínio.

A diplomacia americana, outrora o padrão-ouro das relações internacionais, enfrenta agora um dilema existencial. Os seus aliados continuam a valorizar a parceria, mas não a tratam como exclusiva. Países que antes alinhavam automaticamente com Washington agora mantêm relações paralelas com Pequim, Nova Deli e outras capitais emergentes. Isto não é traição; é gestão de risco. A lealdade internacional nunca foi eterna mas sempre foi contratual. E contratos exigem renovação. A América, habituada a acreditar que a fidelidade era garantida, está a descobrir que precisa de trabalhar para a manter.

No domínio digital, a perda de influência é ainda mais evidente. O país que inventou a internet e moldou o seu ecossistema está agora a assistir à proliferação de modelos alternativos. Normas de privacidade, regras de dados, infra-estruturas tecnológicas e tudo isto está a ser definido por actores que não esperam pela aprovação americana. A fragmentação digital não é um pesadelo futurista; é uma realidade em construção. E não é impulsionada por autoritarismos, mas por Estados que querem autonomia num mundo onde confiar na estabilidade americana se tornou um exercício de fé.

A política climática é outro campo onde a América perdeu o privilégio da centralidade. O mundo cansou-se de esperar que Washington decida se o aquecimento global é uma prioridade ou um inconveniente. Países estão a avançar com acordos regionais, investimentos massivos e estratégias de longo prazo que não dependem da liderança americana. A América continua a ter capacidade para influenciar o rumo climático global, mas capacidade sem compromisso é irrelevância disfarçada.

O mais fascinante e talvez o mais desconfortável para Washington é que esta transformação global está a acontecer sem confrontos. Não há um movimento antiamericano, não há uma coligação de países a exigir a queda da hegemonia americana. Há, isso sim, uma reorganização silenciosa, pragmática, quase burocrática. O mundo não está a lutar contra a América; está simplesmente a aprender a viver sem ela. E essa é, paradoxalmente, a forma mais eficaz de declínio daquela que não precisa de ser anunciada.

A América ainda pode recuperar influência, mas isso exige uma introspecção que o seu sistema político raramente tolera. Requer consistência, humildade e uma compreensão madura de que liderança não é um direito, mas uma responsabilidade. Requer abandonar a fantasia de que proteccionismo é estratégia. Requer aceitar que interdependência não é fraqueza, mas força. E, acima de tudo, requer reconhecer que o mundo mudou e que não vai esperar que Washington se decida.

O mundo está a aprender a viver sem a América. A questão é se a América conseguirá aprender a viver num mundo onde não é inevitável, onde a sua influência precisa de ser conquistada, e onde os seus parceiros esperam fiabilidade em vez de dramatismo. Se conseguir, continuará relevante. Se não conseguir, será lembrada com nostalgia como uma potência que acreditou que o mundo girava à sua volta até descobrir que o planeta, afinal, tem muitos centros.

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Jorge Rodrigues Simão