Há fenómenos sociológicos que merecem estudo aprofundado, e depois há a selecção portuguesa de futebol, que merece sobretudo um suspiro prolongado, daqueles que começam no estômago e terminam num olhar perdido no horizonte, como quem contempla a inevitabilidade do destino. A eliminação frente à Espanha no Mundial, esse episódio que entrou no folclore do desgosto nacional não foi apenas uma derrota. Foi uma espécie de ritual de confirmação de que continuamos a ser especialistas em transformar esperança em frustração com uma precisão quase científica. Se existisse um prémio internacional para a capacidade de desiludir um país inteiro, Portugal estaria sempre no pódio, mesmo sem Cristiano Ronaldo, que aos 41 anos continua a ser o plano A, B e C de uma equipa que insiste em não ter plano nenhum.
A narrativa é velha, mas a sua repetição não a torna menos dolorosa com uma selecção mal treinada, sem garra e estratégia, dependente de um jogador que ultrapassou a idade em que o corpo obedece cegamente ao talento. Não é culpa dele; é culpa de quem constrói uma equipa como quem constrói um altar, esperando que a divindade resolva tudo. O problema é que as divindades, por muito que brilhem, não correm atrás de bolas perdidas nem corrigem tácticas mal desenhadas. E assim lá fomos nós, outra vez, assistir ao colapso anunciado, embalados pela ilusão de que desta vez seria diferente. Não foi. Nunca é.
A geração que alguns insistiram em chamar “de ouro” transformou-se, com o tempo, numa geração de ferro não no sentido épico, mas no sentido oxidado. Uma geração que prometia muito, mas que se foi desgastando, corroendo, perdendo brilho até ficar com aquele tom baço que caracteriza objectos esquecidos numa arrecadação. O país, claro, continuou a acreditar, porque acreditar é o desporto nacional. Acreditamos sempre, mesmo quando a realidade nos dá sinais claros de que não vale a pena. Somos especialistas em ignorar evidências, sobretudo quando envolvem futebol, esse território emocional onde a racionalidade é tratada como intrusa.
O jogo contra a Espanha foi uma demonstração perfeita daquilo que somos quando tentamos ser aquilo que não conseguimos ser. Uma equipa sem identidade, sem coragem e capacidade de assumir o risco. Jogadores que pareciam estar a cumprir tarefas administrativas, como quem preenche formulários do Estado mecanicamente, sem convicção e alma. A Espanha, por sua vez, apresentou-se com a serenidade de quem sabe exactamente o que está a fazer. Não precisou de genialidade; bastou-lhe organização. E organização, como sabemos, é algo que nos causa alergia. Preferimos improvisar, acreditar que o talento resolve tudo, que o destino nos protege, que o “espírito português” aparece nos momentos decisivos. Desta vez não apareceu. Talvez esteja cansado.
Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, fez o que pôde. O problema é que o que pôde não é suficiente para carregar uma equipa inteira. A dependência dele tornou-se quase patológica. É como se a selecção fosse um corpo que só funciona quando o coração é o mesmo de sempre, mesmo que esse coração bata com esforço. A incapacidade de renovar, de arriscar, de construir algo novo, é um traço cultural. Temos medo de mexer no que conhecemos, mesmo quando o que conhecemos não funciona. E assim mantemos a ilusão de que Ronaldo pode continuar a ser o salvador eterno, enquanto o resto da equipa se esconde atrás dele, esperando que resolva o que não é resolvível.
A derrota não foi apenas um resultado desportivo; foi um espelho. Um espelho que nos mostra aquilo que não queremos ver de uma selecção sem rumo, sem liderança e capacidade de se reinventar. O treinador, cuja função deveria ser a de arquitecto, parece mais um decorador indeciso, que muda pequenos detalhes sem tocar na estrutura. A estratégia é inexistente, a leitura de jogo é tardia e as substituições são tímidas. É como se tivéssemos medo de assumir que o problema é profundo. Preferimos falar de azar, de arbitragens e de momentos infelizes. A verdade é outra; não há projecto.
E quando não há projecto, o talento individual não chega. O futebol moderno exige inteligência colectiva, disciplina e coragem táctica. Exige aquilo que não tivemos. A Espanha não nos venceu por ser extraordinária; venceu-nos porque nós fomos medíocres. E a mediocridade, quando se instala, é difícil de remover. Exige ruptura, mudança e coragem política dentro da estrutura federativa. Mas coragem política é coisa rara num país que prefere gerir expectativas do que enfrentar realidades.
A geração de ferro, essa que deveria ter sido de ouro, tornou-se símbolo de uma era que não soube transformar potencial em legado. Jogadores brilhantes, sim, mas brilhantes de forma isolada, como estrelas que não conseguem formar constelações. Falta-nos a capacidade de criar sistemas que potenciem o colectivo. Falta-nos a humildade de reconhecer que o talento não basta. Falta-nos a ousadia de construir algo que sobreviva ao fim das carreiras individuais. Falta-nos, sobretudo, a coragem de dizer que o ciclo terminou e que é preciso começar de novo.
A eliminação frente à Espanha deveria ser o ponto final de uma narrativa que não convence ninguém. Mas conhecendo o país, é provável que seja apenas mais um capítulo na longa saga da esperança adiada. Vamos continuar a acreditar, claro. Vamos continuar a dizer que “para a próxima é que é”. Vamos continuar a discutir convocatórias como se isso resolvesse problemas estruturais. Vamos continuar a idolatrar jogadores que deram tudo o que tinham para dar. Vamos continuar a fingir que a selecção é uma extensão da nossa identidade nacional, quando na verdade é apenas um reflexo das nossas fragilidades colectivas.
O futebol, em Portugal, é mais do que um jogo; é uma narrativa emocional que nos permite fugir da realidade. E quando essa narrativa falha, sentimos que falhamos nós. Talvez por isso a derrota tenha doído tanto. Não porque esperávamos ganhar mas no fundo, sabíamos que não íamos porque tudo confirma aquilo que tentamos negar de que não somos aquilo que dizemos ser. Que a geração de ouro nunca existiu. Que a geração de ferro não tem brilho. Que a selecção é, há demasiado tempo, um projecto inacabado.
A vergonha que sentimos não é apenas desportiva; é cultural. É a vergonha de perceber que continuamos presos a mitos, ilusões e a narrativas que não se sustentam. É a vergonha de perceber que dependemos de um jogador de 41 anos porque não fomos capazes de construir alternativas. É a vergonha de perceber que a selecção não tem garra porque o sistema não a exige. É a vergonha de perceber que o país continua a confundir esperança com estratégia.
Talvez um dia consigamos romper este ciclo. Talvez um dia tenhamos uma selecção que não dependa de milagres. Talvez um dia tenhamos coragem de assumir que o passado não pode ser o modelo do futuro. Talvez um dia consigamos transformar talento em estrutura, emoção em inteligência, improviso em método. Mas esse dia não será hoje. Hoje resta-nos aceitar a derrota, olhar para o espelho e admitir que a vergonha é merecida.
E, quem sabe, começar finalmente a trabalhar para que a próxima geração não seja de ferro oxidado, mas de algo mais sólido, coerente e digno. Não de ouro porque isso provou ser fantasia mas de realidade. Uma realidade que não dependa de um único jogador, de um único mito, de uma única esperança. Uma realidade que seja construída com coragem, inteligência e visão. Uma realidade que nos permita, um dia, olhar para a selecção sem sentir aquele velho e conhecido desgosto.
Jorge Rodrigues Simão

