A humanidade é uma criatura fascinante que consegue identificar o perigo, descrevê‑lo com eloquência, criar conferências para o discutir, assinar tratados para o combater e, no fim, financiar o próprio inimigo. É o equivalente político de um bombeiro que, ao ver um incêndio, decide regar as chamas com gasolina porque “é mais barato”. Assim funciona o mundo contemporâneo com proclamações inflamadas sobre sustentabilidade, enquanto os orçamentos nacionais continuam a despejar milhares de milhões em subsídios aos combustíveis fósseis que é o mesmo produto que, segundo os governos, está a cozinhar o planeta em lume brando.

A ironia é tão densa que poderia ser exportada como recurso energético. Os líderes mundiais repetem que as alterações climáticas são “a maior ameaça do nosso tempo”, mas comportam‑se como se fossem apenas uma ligeira constipação atmosférica. A retórica é verde, mas o dinheiro é preto como petróleo, carvão e gás natural. E não se trata de um erro de cálculo; é uma escolha deliberada, mascarada de pragmatismo económico e de “protecção social”. A subsidiação dos combustíveis fósseis é o monumento moderno à incoerência política.

Comecemos pelo argumento clássico de que “os subsídios protegem os mais pobres”. É uma frase tão nobre quanto enganadora. Na prática, os subsídios ao combustível beneficiam desproporcionalmente quem mais consome ou seja, quem tem carro, quem viaja, quem produz em larga escala. O cidadão que anda de transportes públicos não recebe qualquer desconto na sua pegada carbónica. Mas o motorista de SUV, esse sim, é agraciado com o beneplácito fiscal do Estado. É a versão energética da redistribuição ao contrário de tirar aos que menos poluem para dar aos que mais poluem. Tudo em nome da “justiça social”.

Depois há o argumento da “segurança energética”. Os governos afirmam que não podem abandonar os combustíveis fósseis porque isso colocaria em risco o abastecimento nacional. É um raciocínio curioso de que para garantir segurança, dependem de recursos que vêm de regiões politicamente instáveis, sujeitos a flutuações de preço e a crises geopolíticas. É como confiar a segurança alimentar de um país a um restaurante que fecha quando chove. A dependência dos fósseis é o oposto da segurança; é vulnerabilidade disfarçada de pragmatismo.

Mas o verdadeiro motivo da persistência dos subsídios é mais prosaico; é política. Nenhum governo quer enfrentar o eleitorado com aumentos súbitos de preços nos combustíveis. O medo da impopularidade é mais poderoso do que o medo do colapso climático. A democracia, essa invenção admirável, tem um defeito estrutural que pensa em ciclos eleitorais, não em ciclos planetários. O carbono não vota, mas o consumidor vota e este não gosta de pagar mais pela gasolina. Assim, os governos preferem adiar a transição energética, empurrando o problema para o próximo mandato, ministro e século.

A subsidiação dos combustíveis fósseis é, portanto, uma forma de anestesia política. Permite aos governos fingir que estão a agir, enquanto mantêm o status quo. É o teatro da sustentabilidade com discursos emocionados nas cimeiras climáticas, seguidos de orçamentos que contradizem cada palavra. O planeta arde, mas os relatórios ministeriais continuam a falar de “equilíbrio entre crescimento e transição”. O equilíbrio, neste contexto, é o eufemismo para imobilismo.

Há também o factor económico. Os combustíveis fósseis são a base de toda a infra-estrutura produtiva moderna. Retirar‑lhes o apoio estatal seria como retirar o andaime antes de terminar o edifício. As economias dependem deles para tudo como transporte, indústria, agricultura, electricidade. A transição energética exige investimento, planeamento e coragem que sãs três recursos escassos na política contemporânea. É mais fácil continuar a subsidiar o velho sistema do que construir um novo. Afinal, o petróleo tem uma qualidade que os políticos adoram; é previsível. As energias renováveis, por outro lado, exigem inovação, e a inovação é arriscada. O risco é o inimigo natural da carreira política.

O paradoxo é evidente pois os governos gastam fortunas em campanhas de sensibilização sobre as alterações climáticas, mas investem ainda mais em manter o sistema que as causa. É como financiar simultaneamente o hospital e o vírus. A incoerência é tão institucionalizada que nem causa escândalo. Quando se anuncia um novo subsídio ao gás natural, ninguém protesta; quando se fala em aumentar o preço dos combustíveis para reduzir emissões, o país entra em histeria colectiva. A dependência dos fósseis é emocional, não apenas económica. O petróleo é o vício nacional e o Estado é o dealer.

A questão moral é igualmente desconfortável. Os governos que subsidiam combustíveis fósseis estão, na prática, a financiar a destruição ambiental. Cada euro gasto em manter o preço da gasolina artificialmente baixo é um euro investido na aceleração do aquecimento global. Mas o discurso oficial prefere a linguagem técnica de “ajuste fiscal”, “compensação energética”, “apoio à competitividade”. A semântica é o escudo da hipocrisia. Ninguém diz “estamos a pagar para destruir o planeta”; dizem “estamos a garantir a estabilidade económica”. A diferença é apenas estética.

O mais fascinante é que esta contradição é global. Países ricos e pobres, democracias e autocracias, todos participam no mesmo ritual. Os Estados Unidos, que se apresentam como líderes na luta climática, continuam a subsidiar o petróleo e o gás. A União Europeia, campeã da transição verde, mantém apoios directos e indirectos aos combustíveis fósseis. A China, que investe massivamente em energias renováveis, é simultaneamente o maior consumidor de carvão do planeta. É uma espécie de pacto universal de incoerência de que todos reconhecem o problema, mas ninguém quer ser o primeiro a perder votos por resolvê‑lo.

A explicação psicológica é simples; o ser humano tem uma relação disfuncional com o futuro. Sabe que o desastre é inevitável, mas prefere ignorá‑lo enquanto houver conforto imediato. Os governos reflectem essa mesma lógica colectiva. A política climática é o espelho da natureza humana procrastinadora, contraditória, autodestrutiva. Fala‑se de “neutralidade carbónica em 2050” como se fosse um objectivo tangível, quando na verdade é apenas uma data suficientemente distante para não incomodar ninguém. É o truque perfeito é prometer salvação num horizonte temporal que ultrapassa o mandato de todos os decisores actuais.

Entretanto, o planeta continua a aquecer. As secas prolongam‑se, os incêndios multiplicam‑se, os oceanos sobem, e os relatórios científicos tornam‑se cada vez mais alarmantes. Mas os governos persistem na sua coreografia de contradições. Criam ministérios do ambiente, mas aprovam novos campos de exploração petrolífera. Assinam acordos internacionais, mas mantêm tarifas preferenciais para o carvão. É uma espécie de esquizofrenia institucional, onde o discurso e a prática vivem em universos paralelos.

O argumento económico da “competitividade” é outro clássico. Os governos afirmam que não podem eliminar subsídios porque isso tornaria as empresas nacionais menos competitivas. É uma lógica circular de que as empresas são competitivas porque recebem subsídios, e recebem subsídios porque precisam de ser competitivas. O resultado é um sistema que perpetua a dependência e bloqueia a inovação. As empresas que poderiam investir em energias limpas preferem continuar a receber apoios para poluir. Afinal, quem troca uma renda garantida por um risco incerto?

A subsidiação dos combustíveis fósseis é também uma forma de corrupção moral. Não no sentido jurídico, mas ético. É a corrupção da responsabilidade colectiva. Os governos sabem que estão a agir contra o interesse do planeta, mas justificam‑se com argumentos de curto prazo. É o triunfo da conveniência sobre a consciência. E o cidadão comum, anestesiado pelo preço da gasolina, participa alegremente neste pacto de negação. A sociedade inteira tornou‑se cúmplice da sua própria destruição e tudo em nome da “estabilidade”.

O mais irónico é que os mesmos governos que subsidiam os fósseis gastam milhões em campanhas de marketing verde. Falam de “transição energética”, “neutralidade carbónica”, “crescimento sustentável”. É o novo vocabulário da política moderna com palavras bonitas para disfarçar acções feias. A sustentabilidade tornou‑se um slogan, não uma estratégia. E enquanto o discurso se torna mais sofisticado, a prática continua medieval de queimar, extrair, poluir, repetir.

A pergunta “por que razão os governos ainda subsidiam os combustíveis fósseis?” tem, portanto, uma resposta simples e brutal: porque é politicamente conveniente. Porque é economicamente confortável. Porque é socialmente tolerado. E porque o futuro, esse conceito abstracto, não tem lobby. O petróleo tem. o carvão também. O lobby fóssil é uma máquina bem oleada literalmente e tem décadas de experiência em comprar silêncio político com a mesma eficiência com que compra barris de petróleo.

Os governos, por sua vez, tornaram‑se reféns voluntários dessa engrenagem. Fingem que controlam o jogo, mas são apenas jogadores secundários num tabuleiro dominado por interesses corporativos. A subsidiação dos combustíveis fósseis é o tributo moderno pago à indústria que financia campanhas, empregos e ilusões de prosperidade. É o preço da estabilidade política disfarçado de política energética.

E há ainda o argumento do “crescimento económico”. Nenhum ministro quer ser lembrado como o responsável por travar o crescimento. A palavra “crescimento” é o mantra sagrado da economia moderna mesmo que esse crescimento seja obtido à custa da destruição ambiental. O planeta pode estar a derreter, mas o PIB subiu 0,3%, e isso basta para justificar tudo. A subsidiação dos fósseis é o combustível literal e figurado dessa obsessão estatística.

O mais perverso é que os governos sabem que estão a financiar o colapso climático. Não é ignorância; é cálculo. Sabem que cada euro gasto em subsídios ao petróleo ou ao gás é um euro que agrava o aquecimento global. Mas preferem lidar com o problema quando ele se tornar inevitável ou, mais precisamente, quando não forem eles a governar. É a política do “depois logo se vê”, elevada à escala planetária.

A retórica internacional é outro espectáculo digno de nota. Nas conferências climáticas, os líderes mundiais competem para ver quem faz o discurso mais emotivo sobre o futuro das crianças e dos ursos polares. Depois regressam aos seus países e aprovam novos incentivos à exploração de gás natural. É uma espécie de teatro global, onde todos fingem acreditar na mesma fábula; a de que é possível combater as alterações climáticas sem tocar nos combustíveis fósseis.

A verdade é que o sistema económico mundial foi construído sobre o carbono. Retirar‑lhe os subsídios seria como amputar o próprio modelo de desenvolvimento. E ninguém quer ser o cirurgião responsável por essa operação. Assim, os governos preferem manter o paciente vivo à força de morfina fiscal, mesmo sabendo que o diagnóstico é terminal.

A subsidiação dos combustíveis fósseis é também uma forma de neocolonialismo energético. Os países ricos continuam a financiar o consumo interno enquanto pressionam os países pobres a reduzir emissões. É o duplo padrão clássico de “façam o que dizemos, não o que fazemos”. As nações em desenvolvimento são incentivadas a abandonar o carvão e o petróleo, mas os países industrializados continuam a subsidiar as suas indústrias fósseis. A hipocrisia é globalizada.

O discurso oficial fala de “transição justa”, mas o que existe é uma transição lenta, hesitante e selectiva. Justa para quem? Para as empresas que recebem compensações milionárias? Para os governos que mantêm o poder? Certamente não para o planeta, que não tem tempo para esperar pela burocracia da justiça climática.

O problema é que a subsidiação dos combustíveis fósseis não é apenas uma questão económica; é uma questão simbólica. Representa o apego ao passado, à ideia de progresso industrial, ao mito da energia infinita. Abandonar os fósseis seria admitir que o modelo de desenvolvimento que sustentou o século XX está obsoleto. E os governos, como todos os seres humanos, têm dificuldade em lidar com o fim das suas narrativas.

A ironia final é que os mesmos subsídios que hoje mantêm o sistema a funcionar serão, amanhã, os responsáveis pelo seu colapso. Quando o preço ambiental se tornar insuportável, quando as catástrofes climáticas deixarem de ser excepções e passarem a rotina, os governos olharão para trás e dirão que “ninguém podia prever”. Mas podiam. Sempre puderam. Apenas escolheram não fazê‑lo.

A subsidiação dos combustíveis fósseis é, portanto, o epitáfio antecipado da racionalidade política. É a prova de que o ser humano prefere a conveniência à sobrevivência, o conforto à coerência, o curto prazo ao futuro. É o retrato de uma civilização que, perante o incêndio global, decide investir em fósforos.

E quando, nas próximas décadas, os relatórios climáticos se tornarem obituários ambientais, os governos continuarão a repetir o mesmo refrão de que “Estamos comprometidos com a transição energética”. Comprometidos, sim mas com o atraso. A lentidão é a nova forma de negação.

No fundo, a pergunta “por que razão os governos ainda subsidiam os combustíveis fósseis?” tem uma resposta tão simples quanto deprimente: porque é mais fácil. Porque é mais cómodo. Porque é politicamente seguro. Porque o futuro não tem lobby, não financia campanhas, não compra votos. O petróleo, esse sim, compra tudo.

E assim seguimos, como passageiros de um comboio que se dirige para o abismo, confortados pela ideia de que o bilhete foi subsidiado.

Bibliografia

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