Ao avançar pelo adarve da fortaleza de Goa, Luís de Camões percebeu que o entardecer não se limitava a declinar pois parecia suspender o próprio mundo. O mar, imóvel na aparência, não recuava nem avançava; avaliava. As ondas, que tantas vezes lhe tinham servido de metáfora para o ímpeto humano, continham-se como se aguardassem um sinal que não vinha da natureza. O vento, que deveria trazer o rumor das embarcações e o cheiro das especiarias, parecia antes escutar, recolhido numa atenção que não era física. A luz, ao tocar a superfície da água, dobrava-se em ângulos que não obedeciam ao curso habitual do crepúsculo, como se cada reflexo fosse uma pergunta ainda não formulada. Camões, habituado a pensar a vontade como o motor íntimo da criação, sentiu que ali, naquele instante, algo antecedia qualquer gesto humano, qualquer impulso e qualquer génese de obra.
Quando se deteve diante do mar, a realidade abriu-se num fenómeno que não se enquadrava em nenhuma categoria conhecida. No ar, diante de si, surgiu uma vontade sem sujeito, uma presença que não dependia de autor, intenção ou finalidade. Não era desejo, não era impulso, não era sequer intenção latente. Era uma vontade pura, anterior a qualquer forma de consciência, como se o próprio conceito de origem se tivesse tornado visível. A oscilação dessa presença não imitava o movimento natural; parecia antes ponderar se deveria manifestar-se ou permanecer para além de qualquer mundo possível. Camões observou-a com a serenidade inquieta de quem reconhece que está perante algo que não pertence ao domínio humano, nem ao divino, nem ao poético; algo que antecede todas essas categorias e as torna possíveis.
A vontade pulsou, mas não com força expansiva. Pulsou com desfazer. Um desfazer que não vinha de fora, mas de dentro, de um dentro que não era o seu. Camões sentiu uma reorganização interior, como se a sua própria capacidade de distinguir entre criar e ser criado estivesse a ser examinada por uma instância que não precisava de linguagem. Tentou formular mentalmente a frase que tantas vezes repetira para si mesmo, quase como um princípio de trabalho: “o engenho e a arte movem o poeta”. Mas antes que pudesse concluir, a vontade devolveu-lhe uma contra-frase silenciosa, inscrita directamente na consciência: “o engenho faz-te”. A inversão era absoluta, e o poeta percebeu que não estava a contemplar a vontade; era a vontade ou algo anterior à vontade que o contemplava a ele. A presença atravessava-lhe o pensamento, reorganizando-o como se estivesse a avaliar a sua aptidão para ser veículo de algo que não era humano. Cada conceito que alguma vez formulara como glória, destino, pátria, memória parecia ser reescrito por uma entidade que não movia, mas desfazia, e que desfazia não para destruir, mas para revelar o que existe antes da forma.
A fortaleza, que até então se mantivera sólida na sua geometria militar, começou a adquirir uma textura impossível. As pedras pareciam intenções condensadas, o ar parecia memória em suspensão, o silêncio parecia origem. Tudo se tornava expressão de uma vontade que não era humana, como se o mundo estivesse a ser traduzido para uma gramática anterior à matéria. Camões tentou erguer a mão, mas o gesto ocorreu antes de ele o decidir, como se a vontade tivesse antecipado o movimento e o executado por ele. Quando olhou para a sombra projectada no chão, encontrou nela uma frase que não reconhecia como sua: “A vontade não te move. Desfaz-te.” A frase não era uma ordem, nem um aviso; era uma constatação ontológica, uma espécie de diagnóstico sobre a condição humana.
A presença intensificou-se até que o espaço ao redor começou a reorganizar-se em padrões que não obedeciam a nenhuma lógica natural, épica ou metafísica. As linhas do horizonte dobravam-se como se fossem maleáveis, e o próprio tempo parecia hesitar entre avançar e suspender-se. Camões sentiu que estava a ser lido por forças que não eram humanas nem divinas, mas aquilo que antecede ambas. A vontade não era impulso; era condição. Não era destino; era origem. Não era epopeia; era aquilo que torna qualquer epopeia possível. A sua consciência, habituada a ordenar o mundo através da palavra, percebia agora que a palavra era apenas uma superfície, e que por baixo dela existia uma estrutura que não se deixava nomear.
Tentou murmurar: “eu procuro compreender o que escrevo”. Mas antes que pudesse pronunciar a última sílaba, a vontade enunciou silenciosamente: “o escrever é descritível”. A frase não negava a sua capacidade de escrever; negava a sua suposição de que o acto de escrever lhe pertencia. A inversão intensificou-se até que Camões sentiu que a distinção entre vontade e presença se dissolvia. A presença tornou-se opaca, depois translúcida, depois impossível de distinguir do próprio conceito de vontade. Era como se a vontade tivesse deixado de ser algo que se manifesta e se tivesse tornado o próprio tecido do real.
Quando piscou, o fenómeno desapareceu. O mar voltou a ser mar, o vento voltou a soprar, a luz voltou a declinar. Mas algo permanecia não um verso, não um canto, não uma imagem. Uma inscrição eterna, silenciosa, anterior a qualquer forma de linguagem. A vontade, compreendeu, não era aquilo que o homem dirige; era aquilo que o homem é chamado a tornar visível. E, naquele instante, soube que algumas origens não se escrevem. Escrevem-te.
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