O Narcisista ergue-se diante do espelho como sacerdote diante do altar. A superfície polida devolve-lhe apenas a confirmação da sua própria imagem, nunca a dúvida. Cada gesto é ensaiado e cada palavra ecoa sem contestação. O mundo dissolve-se, porque o reflexo basta. O espelho é cúmplice, guardião e cárcere. Vive na moldura, alimenta-se da sua própria presença, e o silêncio que o rodeia é apenas a respiração contida de quem não ousa interromper o ritual. Não procura verdade, mas eternidade na superfície. O espelho torna-se interlocutor e nele repousa a ilusão de que a vida é apenas imagem. O Narcisista encontra a certeza de que nunca será contrariado, porque o reflexo não discute. O espelho é prisão dourada, palco e túmulo, promessa e condenação. Fora dele não há confirmação. Mas a eternidade é apenas repetição; aparência sem substância, ilusão sem autenticidade e superfície sem profundidade.
A vida transforma-se em palco, e os olhos dos outros em plateia. O Narcisista representa perfeição com sorriso calculado, escuta fingida e gesto coreografado. O aplauso é alimento e o silêncio ameaça. Cada encontro é encenação e cada relação contrato tácito. Não ama, colecciona. O outro é espelho, nunca abismo. A sua presença é coreografia de encantamento, onde a vulnerabilidade não tem lugar. Vive em permanente estreia, como se cada instante fosse ensaio para a eternidade. O público é testemunho, não companhia. A sua vida é monólogo, e o palco nunca se fecha. Não conhece bastidores, apenas luzes. O silêncio é ensaiado, o sorriso arma. Fora da cena não há aplauso. O palco é mundo, e o mundo é palco.
Não sabe quem é, apenas quem deve parecer. A identidade é fachada, nunca essência. O nome é máscara, o passado ficção e o futuro promessa. Constrói narrativas onde é herói, vítima ou salvador, incapaz de aceitar a banalidade. Vive em fuga de si mesmo. O tempo congela-se em instantes de glória e o relógio marca aplausos em vez de horas. O Narcisista não habita o presente, mas a encenação. O labirinto da identidade não tem saída, porque cada porta conduz a outro espelho. Não é pessoa, é personagem. A sua vida é guião interminável. A identidade é puzzle de expectativas e construção de aparências. É feito de fragmentos, reflexos e ilusões. Não há unidade, apenas encenação. Actor, espectador, crítico e público de si mesmo, vive na duplicação. O labirinto é enigma e ficção, máscara e palco.
O Narcisista governa pela aparência. Não ergue muralhas de pedra, mas de promessas. Não constrói castelos de substância, mas de palavras. O seu poder nasce da crença que os outros depositam na encenação. O brilho é estratégia e a sedução armadilha. O ouro que reluz é falso, mas suficiente para encantar. A distância protege a ilusão pois de longe, tudo parece perfeito; de perto, desfaz-se. Sob o ouro há vazio e sob a armadura há medo. O poder é reflexo, não substância. Vive da crença dos outros, e quando esta se desfaz, o trono dissolve-se. A ilusão é frágil, mas persistente. É chama que não aquece, música que não toca, promessa que não se cumpre. O instante basta para manter o mito. Mas é também condenação pois nunca pode descansar, porque a ilusão precisa de ser alimentada. É prisioneiro da sua própria aparência, refém da representação e vítima da ficção.
Deseja ser amado, mas não sabe amar. O amor exige entrega, vulnerabilidade e reciprocidade. O Narcisista não conhece tais caminhos. O seu amor é exigência e palco. O outro é sempre insuficiente, incapaz de preencher o vazio. Quem o ama, cansa e quem o segue, esgota-se. O afecto é unilateral. Transforma o amor em espólio, medalha e prova de poder. Mas nunca em encontro. O amor torna-se impossível, porque não há espaço para dois. Deseja ser centro, e o amor exige partilha. O amor é abismo, e só conhece espelhos. É incapaz de reconhecer o outro como sujeito, apenas como reflexo. Deseja ser reconhecido, cuidado, protegido e acompanhado, mas não sabe reconhecer, cuidar, proteger ou acompanhar. Vive no amor impossível, e o amor impossível vive nele.
No topo do império de espelhos, encontra-se só. Rodeado de reflexos e sem presença. A solidão é dourada, mas fria. Não há intimidade, apenas encenação. Vive na superfície, ignora a profundidade. Quando cai, ninguém ouve. A queda é silenciosa, como tudo o que nunca foi real. Nada permanece, porque não constrói, apenas exibe. O legado é ausência e o rasto esquecimento. Desaparece entre reflexos, sem deixar sombra. O mundo continua, indiferente. O silêncio é epitáfio e o vazio herança. Acreditava que o reflexo seria eterno, mas o espelho não guarda memória, apenas repetição. O silêncio final é ausência, vazio e esquecimento. É condenação, não libertação. É o instante em que a ilusão se desfaz e não existe. No silêncio final, tudo se dissolve e tudo se apaga. O Narcisista não conhece eternidade, apenas ausência. Não conhece memória, apenas esquecimento. Não conhece legado, apenas vazio. O silêncio é fim.
Bibliografia