O parvóide é uma figura que se insinua na paisagem humana com a subtileza de quem não sabe que é personagem. Não é o tolo clássico, nem o ignorante assumido. É o que se julga lúcido, mas vive na penumbra da própria vaidade. O parvóide não é burro; é pior pois é convencido. E nessa convicção reside o seu poder corrosivo. Fala com a segurança dos que nunca duvidam, com a pose dos que nunca escutam, com a arrogância dos que confundem volume com valor.
A sua linguagem é feita de palavras que se empoleiram umas nas outras, como se o excesso pudesse compensar a ausência de substância. Usa termos técnicos como quem lança pó mágico, esperando que o brilho esconda o vazio. O parvóide não argumenta; proclama. Não dialoga; monologa. E quando confrontado, recorre ao sarcasmo, à fuga ou à superioridade fingida. Nunca à humildade.
Na sociedade contemporânea, o parvóide encontra terreno fértil. Multiplica-se em redes sociais, em reuniões de trabalho, em cafés onde se fala alto e se pensa pouco. Torna-se referência, modelo e influência. E assim, o parvóide deixa de ser um indivíduo e transforma-se num fenómeno cultural. A cultura do parvóide é a cultura da superfície, do ruído e da certeza sem base.
Mas há quem veja. Há quem sinta o desconforto da frase vazia, o enjoo da convicção sem conteúdo. Há quem resista. E essa resistência é silenciosa, mas firme. É feita de leitura, de escuta e de dúvida. Resistir ao parvóide é cultivar o pensamento. É aceitar a complexidade, o paradoxo e o silêncio. É preferir a pergunta à resposta pronta.
O mais inquietante, porém, é que todos temos um parvóide dentro de nós. Uma voz que quer parecer mais do que sabe. Um impulso de mostrar em vez de compreender. O parvóide não é apenas o outro; é uma possibilidade em cada um. Reconhecê-lo é o primeiro passo para o calar. E calá-lo é abrir espaço para o verdadeiro pensamento.
O parvóide é uma luz que não ilumina. É um farol pintado num papel. É o ruído que se confunde com música. Mas há quem veja. Há quem escute. Há quem escolha o caminho mais difícil que é o da profundidade, da lentidão e da verdade. E é nesse caminho que o parvóide se desfaz. Não por confronto, mas por contraste. Porque onde há pensamento, o parvóide não tem lugar. Onde há silêncio, o parvóide não se ouve. Onde há humildade, o parvóide não se impõe.
Na União Europeia, o parvóide manifesta-se na retórica política, nos discursos tecnocráticos que escondem a ausência de visão. Em Portugal, surge nas tertúlias televisivas, nos cafés onde se fala de tudo com a certeza de quem leu pouco. Em Macau, aparece nas intersecções entre tradição e modernidade, onde o saber ancestral é por vezes abafado por uma modernidade ruidosa e superficial.
O parvóide é universal, mas adapta-se ao contexto. Em ambientes académicos, veste-se de citações. Em ambientes empresariais, disfarça-se de eficiência. Em ambientes culturais, assume a pose do artista incompreendido. Mas em todos eles, o padrão repete-se que é aparência sem essência, forma sem fundo.
A resistência ao parvóide não se faz com gritos, mas com silêncio atento. Com leitura profunda. Com escuta verdadeira. Com a coragem de dizer “não sei” quando não se sabe. Com a humildade de aprender. Porque o parvóide não sobrevive à profundidade. Afoga-se nela.
E assim, ao reconhecermos o parvóide em nós e nos outros, podemos escolher outro caminho. O da lucidez sem ostentação. O da sabedoria sem palco. O da verdade sem ruído. Porque o mundo não precisa de mais parvóides. Precisa de mais pensadores silenciosos, mais ouvintes atentos, mais caminhantes lentos.
O parvóide é o espelho do nosso tempo; um tempo que valoriza o imediato, o vistoso e o ruidoso. Mas há sempre quem escolha o tempo longo, o pensamento lento e a palavra justa. E é nessa escolha que reside a esperança.
Bibliografia:
· Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa. Parvóide. Porto Editora, 2025.
· Byung-Chul Han. A Sociedade da Transparência. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.
· Neil Postman. Amusing Ourselves to Death. Penguin Books, 1985.
· Richard Sennett. A Corrosão do Carácter. Lisboa: Edições 70, 2006.
· José Gil. Portugal, Hoje: O Medo de Existir. Lisboa: Relógio D’Água, 2004.