A eternização dos megaprocessos judiciais tornou‑se uma espécie de tradição nacional, tão enraizada como discutir futebol ao Domingo ou acreditar que a burocracia é uma força da natureza. A justiça, quando se estende por décadas, transforma‑se num teatro de sombras onde todos fingem que algo está a acontecer, enquanto o essencial permanece suspenso num limbo processual. A pergunta central porque é que estes processos nunca acabam exige uma análise que vá além das explicações piedosas sobre “complexidade”, “garantias de defesa” ou “escassez de meios”. A verdade é mais crua pois a lentidão não é um acidente, é um sistema. E como qualquer sistema, tem beneficiários muito concretos, que prosperam na arte de transformar o tempo num recurso estratégico.
A primeira camada deste fenómeno reside na estrutura monumental dos próprios processos. Quando um caso envolve centenas de arguidos, milhares de páginas, dezenas de perícias e uma quantidade obscena de incidentes processuais, o resultado é inevitável e a máquina judiciária engasga‑se. Mas engasga‑se com uma elegância peculiar, como quem se habitua ao incómodo e decide que não vale a pena resolver o problema. A complexidade é apresentada como inevitável, quase natural, como se fosse impossível investigar corrupção sem produzir um romance de mil capítulos. Esta narrativa, repetida até à exaustão, serve para mascarar a realidade com a complexidade que é frequentemente fabricada, alimentada e mantida por quem tem interesse em que o processo se arraste.
A lentidão é também um produto da cultura jurídica dominante, que idolatra o formalismo como se fosse uma divindade. Cada vírgula, cada prazo, cada notificação é tratada como um ritual sagrado. A obsessão com o detalhe transforma o processo numa espécie de labirinto barroco, onde qualquer passo exige uma coreografia burocrática. O resultado é previsível e o tempo deixa de ser um instrumento e passa a ser um protagonista. A justiça, que deveria ser célere, torna‑se uma maratona interminável, onde o objectivo não é chegar à meta, mas garantir que a meta nunca se aproxima demasiado.
A isto soma‑se a extraordinária criatividade dos intervenientes processuais. Advogados experientes sabem que o tempo é uma arma tão eficaz como qualquer argumento jurídico. A multiplicação de requerimentos, incidentes, pedidos de nulidade e recursos não é um acidente; é uma estratégia. A lei permite, e eles usam. Não porque acreditam que cada peça é essencial, mas porque cada peça acrescenta mais uns meses ao calendário. A lentidão, neste contexto, é uma forma de defesa. E uma forma de desgaste. Quanto mais longo o processo, maior a probabilidade de prescrição, esquecimento, desinteresse público ou simples exaustão institucional.
Os tribunais, por sua vez, funcionam como organismos que se habituaram à lentidão. A falta de meios, tantas vezes invocada, é real, mas não explica tudo. Há uma espécie de complacência estrutural, uma aceitação tácita de que os megaprocessos são inevitavelmente longos. Esta resignação institucional transforma a justiça num ritual burocrático que se arrasta porque sempre se arrastou. A inovação processual é vista com desconfiança, como se qualquer tentativa de simplificação fosse uma ameaça à pureza do sistema. Assim, a máquina continua a funcionar com a mesma cadência lenta, como um relógio antigo que ninguém se atreve a substituir.
Mas a pergunta mais incómoda permanece de quem beneficia desta eternização? A resposta, embora desconfortável, é relativamente simples. Em primeiro lugar, beneficiam os arguidos que têm interesse em que o tempo dilua responsabilidades. A prescrição é uma espécie de prémio de consolação para quem consegue sobreviver ao processo. Quanto mais longo o percurso, maior a probabilidade de que a justiça chegue tarde demais. A eternização transforma a culpa numa abstracção e a responsabilidade numa hipótese teórica. Para muitos, o tempo é o melhor advogado.
Em segundo lugar, beneficiam os profissionais que vivem da complexidade. Um megaprocesso é uma fonte inesgotável de trabalho, honorários e visibilidade. A multiplicação de peças processuais alimenta uma economia paralela, onde cada requerimento é uma oportunidade e cada incidente é uma nova etapa de facturação. A lentidão, neste contexto, não é um problema; é um modelo de negócio. A justiça transformada em indústria processual cria incentivos perversos que perpetuam o ciclo da eternização.
Em terceiro lugar, beneficiam as instituições que preferem a ambiguidade à decisão. Um processo que nunca termina é um processo que nunca produz consequências políticas, administrativas ou sociais. A indefinição é confortável para quem teme o impacto das decisões. A justiça lenta é uma forma de evitar confrontos, de adiar responsabilidades, de manter o status quo. A eternização, neste sentido, é uma ferramenta de gestão do risco político.
A sociedade, por outro lado, é a grande prejudicada. A confiança na justiça depende da sua capacidade de decidir em tempo útil. Quando os processos se arrastam por décadas, a justiça perde credibilidade, eficácia e sentido. A percepção pública transforma‑se numa mistura de cinismo e resignação. A ideia de que “os grandes nunca são condenados” não nasce do acaso; nasce da observação repetida de processos que se dissolvem no tempo. A eternização corrói a legitimidade do sistema e alimenta a sensação de impunidade.
A dimensão simbólica dos megaprocessos é igualmente relevante. Cada processo que se arrasta eternamente transmite uma mensagem clara de que a justiça é incapaz de lidar com o poder. A lentidão funciona como uma forma de neutralização simbólica. O processo existe, mas não produz efeitos. É anunciado, debatido, comentado, mas nunca concluído. A justiça transforma‑se num espectáculo, onde o enredo é interminável e o desfecho nunca chega. Esta teatralização da justiça serve para criar a aparência de acção, enquanto a realidade permanece imutável.
A eternização também tem efeitos profundos na memória colectiva. Um processo que dura vinte anos atravessa gerações, mudanças políticas, transformações sociais. O contexto inicial perde relevância, as testemunhas envelhecem, os factos esbatem‑se. A verdade, que deveria ser o objectivo central, torna‑se cada vez mais difícil de reconstruir. A justiça tardia não é apenas injusta; é epistemologicamente frágil. A eternização compromete a capacidade de compreender o passado e de responsabilizar quem o moldou.
A solução para este problema exige uma mudança estrutural que vá além das reformas cosméticas. É necessário repensar a forma como os megaprocessos são concebidos, investigados e julgados. A simplificação processual não é uma ameaça às garantias; é uma condição para que as garantias tenham sentido. A digitalização, tantas vezes anunciada como panaceia, só será eficaz se acompanhada de uma mudança cultural que valorize a celeridade como parte essencial da justiça. A formação dos profissionais deve incluir uma reflexão crítica sobre o uso estratégico do tempo, para evitar que a lentidão continue a ser uma arma processual.
É igualmente necessário reforçar a capacidade dos tribunais para lidar com processos complexos. Equipas especializadas, calendários vinculativos e mecanismos de gestão processual podem reduzir significativamente a duração dos megaprocessos. A justiça não pode continuar a funcionar como se estivesse permanentemente surpreendida pela complexidade dos casos. A preparação é essencial para evitar que a máquina se engasgue sempre que surge um processo de grande dimensão.
Por fim, é crucial que a sociedade exija responsabilidade institucional. A eternização dos megaprocessos não é apenas um problema técnico; é um problema político. A justiça lenta beneficia alguns e prejudica muitos. A transparência sobre a duração dos processos, a avaliação pública do desempenho dos tribunais e a responsabilização dos intervenientes são passos essenciais para quebrar o ciclo da lentidão.
A eternização dos megaprocessos é, em última análise, um espelho deformado da cultura jurídica e política. Revela uma justiça que se habituou à lentidão, uma sociedade que tolera o adiamento e um sistema que recompensa quem sabe usar o tempo como arma. A pergunta “porque é que os megaprocessos nunca acabam?” tem uma resposta simples e mordaz, porque não convém que acabem. E enquanto não convier, continuarão a arrastar‑se, majestosos e inúteis, como monumentos à incapacidade colectiva de decidir.
O caso de Portugal – quando o megaprocesso se transforma em paisagem
Portugal oferece um laboratório quase perfeito para observar a eternização dos megaprocessos. Aqui, a justiça não é apenas lenta; é contemplativa. Move‑se com a serenidade de quem acredita que o tempo é uma entidade metafísica e que a verdade só deve ser revelada quando ninguém se lembra do que estava em causa. O país tornou‑se especialista em transformar investigações criminais em novelas de longa duração, com temporadas sucessivas, mudanças de elenco e enredos que se dissolvem como açúcar na água.
O fenómeno português tem características próprias que merecem análise. Em primeiro lugar, existe uma relação quase afectiva com a burocracia. Portugal não é apenas um país com burocracia; é um país que a venera. Cada carimbo, cada despacho, cada remessa de autos é tratado como um acto de devoção institucional. A justiça portuguesa não se limita a seguir procedimentos; celebra‑os. E quando se celebra um procedimento, ele tende a multiplicar‑se. Assim nascem megaprocessos que crescem como organismos autónomos, alimentados por uma sucessão interminável de actos processuais que ninguém ousa simplificar.
A isto junta‑se a fascinante capacidade nacional para transformar qualquer investigação em evento mediático. O megaprocesso português não vive apenas nos tribunais; vive nos telejornais, nos debates, nos cafés, nas redes sociais. Cada busca domiciliária é tratada como se fosse a descoberta de um tesouro arqueológico. Cada detenção é apresentada como o início de uma nova era. E depois, inevitavelmente, tudo abranda. O entusiasmo inicial dissolve‑se, substituído por uma sucessão de adiamentos, recursos, incidentes e perícias que parecem concebidos para testar a paciência colectiva.
O caso português também revela uma característica estrutural de que a justiça funciona como se tivesse medo de si própria. A investigação avança com cautela extrema, como quem caminha sobre gelo fino. Qualquer decisão é ponderada até à exaustão, não por zelo, mas por receio. A cultura institucional valoriza a prudência acima da eficácia, como se a pior coisa que pudesse acontecer fosse tomar uma decisão demasiado cedo. Esta hesitação estrutural alimenta a eternização dos processos, transformando cada passo num exercício de autoverificação.
Os megaprocessos portugueses também beneficiam de uma particularidade sociológica que é a tendência nacional para acreditar que tudo se resolve “mais tarde”. O país vive numa espécie de adiamento permanente, onde o futuro é sempre o momento ideal para concluir o que ficou por fazer. Esta mentalidade infiltra‑se na justiça, que passa a funcionar com a mesma lógica. Se o processo é complexo, adia‑se. Se há dúvidas, adia‑se. Se falta uma perícia, adia‑se. Se alguém se esqueceu de enviar um documento, adia‑se. O adiamento torna‑se uma forma de gestão institucional, quase uma filosofia de vida.
Mas o caso português tem ainda outra dimensão que é a relação entre justiça e poder político. Os megaprocessos que envolvem figuras públicas transformam‑se em arenas onde se joga não apenas a responsabilidade penal, mas também a sobrevivência política. A lentidão, neste contexto, é uma arma de neutralização. Um processo que nunca termina é um processo que nunca produz consequências. A eternização permite que tudo permaneça em suspenso, que ninguém seja verdadeiramente responsabilizado, que o sistema continue a funcionar como se nada tivesse acontecido. A justiça lenta torna‑se uma forma de estabilidade política artificial, mas eficaz.
Os beneficiários desta eternização, em Portugal, são os mesmos que em qualquer outro contexto, mas com nuances locais. Os arguidos que dispõem de recursos para sustentar defesas prolongadas sabem que o tempo joga a seu favor. Os advogados que dominam a arte do requerimento estratégico encontram nos megaprocessos uma fonte inesgotável de trabalho. As instituições que preferem evitar decisões difíceis encontram na lentidão uma forma de sobrevivência. E o país, habituado a conviver com processos que duram décadas, acaba por aceitar a eternização como parte da paisagem.
O impacto na sociedade portuguesa é profundo. A confiança na justiça é corroída por cada processo que se arrasta sem desfecho. A percepção de impunidade cresce, alimentada pela observação repetida de casos que começam com estrondo e terminam com silêncio. A memória colectiva transforma‑se num arquivo de escândalos inconclusivos, onde cada megaprocesso é apenas mais um capítulo de uma história que nunca chega ao fim. A justiça portuguesa, quando lenta, não é apenas ineficaz; é desmoralizante.
A dimensão simbólica é igualmente relevante. Em Portugal, a justiça lenta transmite a ideia de que o sistema é incapaz de lidar com o poder. A eternização dos megaprocessos funciona como uma forma de desresponsabilização colectiva. O processo existe, mas não produz efeitos. A investigação avança, mas não conclui. A acusação surge, mas não chega a julgamento. O julgamento começa, mas não termina. A justiça transforma‑se num ritual interminável, onde o desfecho é sempre adiado para um futuro que nunca chega.
A solução para o caso português exige uma mudança profunda na cultura institucional. Não basta reformar leis ou criar novos mecanismos processuais. É necessário alterar a forma como a justiça se vê a si própria. A celeridade deve ser tratada como valor essencial, não como luxo. A simplificação deve ser encarada como garantia, não como ameaça. A responsabilidade institucional deve ser reforçada, para evitar que a eternização continue a ser uma forma de gestão política.
Portugal precisa de tribunais capazes de lidar com processos complexos sem se perderem na sua própria estrutura. Precisa de profissionais que compreendam que o tempo não é um recurso infinito. Precisa de uma sociedade que exija decisões, não apenas investigações. E precisa, sobretudo, de abandonar a ideia de que a justiça é um espectáculo. A justiça não existe para entreter; existe para decidir.
O caso português demonstra que a eternização dos megaprocessos não é apenas um problema técnico, mas um problema cultural. A lentidão é alimentada por hábitos, crenças, receios e conveniências. É um sistema que beneficia alguns e prejudica muitos. E enquanto não houver vontade colectiva de quebrar este ciclo, os megaprocessos continuarão a arrastar‑se, imponentes e ineficazes, como monumentos à incapacidade nacional de enfrentar o poder com eficácia.
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Jorge Rodrigues Simão 2026

