A construção de cenários contrafactuais tem sido, ao longo das últimas décadas, uma ferramenta relevante nos estudos estratégicos e na análise de sistemas políticos complexos. Ao imaginar acontecimentos que não acpnteceram, mas que poderiam ter ocorrido, torna‑se possível compreender com maior profundidade os mecanismos internos de um regime, os equilíbrios de poder que o sustentam e as tensões latentes que moldam a sua evolução. O presente texto parte de um cenário que poderia ser hipotético, mas que acabou por ser real, que é a eliminação da figura do Líder Supremo iraniano, Ali Khamenei, na sequência de um ataque externo. A partir deste ponto de partida ficcional, procura-se analisar como o sistema político iraniano, caracterizado por uma arquitetura institucional singular e por uma longa tradição histórica, poderia reagir a uma ruptura súbita no topo da hierarquia.
- A longue durée como chave interpretativa
A civilização iraniana, com raízes que atravessam impérios, dinastias e revoluções, desenvolveu uma percepção do tempo profundamente distinta da que domina no pensamento político ocidental contemporâneo. A ideia de longue durée, associada a processos históricos de longa duração, é particularmente adequada para compreender a forma como o Irão conceptualiza a sua trajectória. Num país onde a memória colectiva integra episódios milenares, as crises políticas são frequentemente interpretadas como momentos transitórios dentro de um arco histórico mais vasto.
Neste cenário contrafactual, a eliminação do Líder Supremo não seria necessariamente percepcionada como um colapso iminente do sistema, mas antes como uma perturbação grave que exigiria uma recomposição interna. A longevidade das instituições iranianas, mesmo quando remodeladas pela Revolução de 1979, confere ao regime uma capacidade de absorção de choques que surpreende. A estabilidade não deriva apenas da força coerciva do Estado, mas também da existência de múltiplos centros de poder que, embora frequentemente em tensão, garantem redundância e continuidade.
- A morte do Líder Supremo como catalisador de recomposição
No quadro hipotético aqui explorado, o ataque externo que resulta na morte de Ali Khamenei desencadeia uma fase de incerteza profunda. A figura do Líder Supremo, apesar de não ser formalmente insubstituível, desempenha um papel simbólico e político que ultrapassa a mera chefia institucional. A sua autoridade religiosa, capacidade de arbitragem entre facções e a influência sobre os órgãos de segurança fazem dele o eixo central do sistema.
A eliminação súbita desse eixo não conduz, porém, ao colapso imediato. Pelo contrário, o regime tende a reagir de forma coesa, movido por um instinto de autopreservação. A narrativa externa de agressão reforça a solidariedade interna, reduzindo temporariamente as rivalidades entre facções. A história iraniana demonstra que ameaças externas funcionam frequentemente como elementos unificadores, permitindo ao regime mobilizar a população e justificar medidas excepcionais.
- A liderança colectiva como mecanismo de sobrevivência
Sem uma figura de autoridade suprema, o sistema político iraniano recorre, neste exercício contrafactual, a uma forma de liderança colegial. Esta solução não é inédita na história do país, nem é estranha à lógica institucional da República Islâmica. O Conselho dos Guardiães, o Conselho de Discernimento e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) constituem pólos de poder capazes de assumir funções de coordenação em momentos de crise.
A liderança colectiva funciona como um mecanismo de contenção que impede que uma facção monopolize o poder e evita que o vazio institucional se transforme em fragmentação descontrolada. A multiplicidade de centros de decisão, frequentemente vista como um obstáculo à eficiência governativa, revela-se, neste cenário, uma vantagem estrutural. A ausência de um líder único obriga à negociação constante, mas também impede rupturas abruptas.

- Mojtaba Khamenei: a invisibilidade como estratégia
A figura de Mojtaba Khamenei, frequentemente mencionada como potencial sucessor do pai e nomeado novo Líder Supremo na realidade, surge neste cenário como um elemento ambíguo. A sua invisibilidade pública, interpretada como sinal de preparação para uma eventual ascensão, transforma-se numa arma de dupla face. Por um lado, a ausência de exposição protege-o de críticas e permite-lhe operar nos bastidores. Por outro, dificulta a construção de legitimidade num momento em que o país exige uma figura capaz de simbolizar continuidade.
Num contexto de crise, a ascensão de Mojtaba seria contestada por várias facções, sobretudo por aquelas que receiam a consolidação de uma dinastia informal. A sua influência real, embora significativa, não se traduz automaticamente em autoridade reconhecida. Assim, a invisibilidade que antes funcionava como estratégia de preservação torna-se um obstáculo à sua afirmação como líder consensual.
- Ghalibaf e a oportunidade política
Entre os actores que poderiam emergir neste cenário contrafactual, Mohammad Bagher Ghalibaf destaca-se como figura com experiência executiva, capacidade de negociação e relações sólidas com sectores estratégicos do regime. A sua trajectória, marcada por passagens pela polícia, administração municipal de Teerão e presidência do parlamento, confere-lhe uma versatilidade rara no panorama político iraniano.
A crise aberta pela morte do Líder Supremo poderia oferecer a Ghalibaf uma oportunidade única para se posicionar como elemento de equilíbrio. A sua imagem de gestor pragmático, aliada à sua proximidade a sectores conservadores, permitir-lhe-ia apresentar-se como solução de compromisso. Num sistema em que a legitimidade deriva tanto da competência quanto da capacidade de manter a coesão interna, Ghalibaf poderia desempenhar um papel central na transição.
- O inevitável diálogo com os Estados Unidos
Independentemente da configuração interna do poder, o Irão pós-Khamenei enfrentaria um dilema estratégico incontornável que é a a necessidade de redefinir a sua relação com os Estados Unidos. A pressão económica, as sanções prolongadas e a instabilidade regional tornam insustentável uma postura de confronto permanente. Mesmo num cenário de forte mobilização nacionalista, a sobrevivência do regime exige uma reavaliação pragmática da política externa.
Neste exercício contrafactual, o ataque externo que elimina o Líder Supremo cria uma situação paradoxal. Por um lado, intensifica a hostilidade popular e reforça a narrativa de resistência. Por outro, fragiliza a economia e expõe vulnerabilidades que só podem ser mitigadas através de algum tipo de entendimento diplomático. Assim, o diálogo com Washington torna-se inevitável, não como gesto de aproximação ideológica, mas como necessidade estratégica.
- A resiliência do sistema político iraniano
Um dos aspectos mais relevantes deste cenário hipotético é a demonstração da resiliência estrutural do sistema político iraniano. Ao contrário de regimes altamente personalistas, cuja estabilidade depende quase exclusivamente da figura do líder, a República Islâmica desenvolveu, ao longo de décadas, uma arquitectura institucional que distribui o poder por múltiplos órgãos. Esta dispersão, frequentemente criticada por gerar opacidade e ineficiência, funciona como mecanismo de sobrevivência em momentos de crise.
A morte do Líder Supremo, embora constitua um choque profundo, não destrói o regime. Pelo contrário, obriga-o a reorganizar-se, reforçando mecanismos de coordenação interna e ajustando a sua estratégia externa. A capacidade de adaptação, aliada à profundidade histórica da sociedade iraniana, impede que a crise se transforme em colapso.
- A dimensão simbólica da sucessão
A sucessão no cargo de Líder Supremo não é apenas um processo político; é também um ritual simbólico que envolve legitimidade religiosa, autoridade moral e continuidade histórica. A ausência de uma figura consensual torna este processo particularmente delicado. Num cenário contrafactual como o aqui descrito, a escolha de um novo líder exigiria negociações intensas entre clérigos, militares e elites políticas.
A possibilidade de uma liderança colegial prolongada não pode ser descartada. Embora a Constituição preveja a existência de um único Líder, a interpretação flexível das normas, característica do sistema iraniano, permitiria soluções transitórias que evitassem confrontos directos entre facções. A prioridade seria garantir a estabilidade, mesmo que isso implicasse adiar a escolha definitiva.
- A sociedade iraniana perante a crise
A reacção da sociedade iraniana a um evento desta magnitude seria complexa e multifacetada. A população, habituada a décadas de tensões externas e internas, demonstra frequentemente uma capacidade notável de adaptação. A mobilização nacionalista, alimentada pela percepção de agressão externa, coexistiria com sentimentos de incerteza e preocupação económica.
A juventude urbana, mais distante das estruturas tradicionais do regime, poderia interpretar a crise como oportunidade para exigir reformas. No entanto, a ausência de liderança unificada e a repressão selectiva dificultariam a transformação dessas aspirações em movimento político coeso. Assim, a sociedade permaneceria num estado de ambivalência, oscilando entre a resistência e a resignação.
- Conclusão: um sistema que sobrevive porque é complexo
O exercício contrafactual aqui desenvolvido permite compreender um elemento essencial da política iraniana que é a sua complexidade, simultaneamente, fonte de fragilidade e de força. A morte súbita do Líder Supremo, embora constitua um abalo profundo, não conduz necessariamente ao colapso. A multiplicidade de centros de poder, a profundidade histórica da sociedade e a capacidade de adaptação das elites permitem ao regime reorganizar-se e sobreviver.
Neste cenário hipotético, a liderança colectiva emerge como solução pragmática, Mojtaba Khamenei enfrenta os limites da sua invisibilidade, Ghalibaf encontra espaço para se afirmar e o diálogo com os Estados Unidos torna-se inevitável. O país, fiel à sua tradição milenar, interpreta a crise não como fim, mas como mais um capítulo na sua longa história.
Bibliografia
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