A pergunta parece saída de um daqueles debates televisivos em que todos fingem surpresa perante fenómenos que eles próprios ajudaram a criar. Mas, ao contrário dos comentadores profissionais, os jovens não têm o privilégio de fingir pois pagam, sustentam, contribuem e, no fim, recebem um sorriso paternalista acompanhado de um “logo se vê”. A arquitectura do sistema de pensões português e, já agora, de quase todo o Ocidente é uma espécie de pirâmide legalizada, construída com a convicção ingénua de que o futuro será sempre uma fotocópia do passado. O problema é que o futuro, esse ingrato, não colabora.

A geração que hoje financia o sistema nasceu com a promessa silenciosa de que nunca verá o retorno do que paga. Não porque o Estado seja particularmente malévolo, mas porque a matemática, essa disciplina antipática que insiste em não obedecer a decretos, não fecha as contas. O número de contribuintes diminui, a esperança de vida aumenta, a natalidade evapora-se e a economia cresce ao ritmo de um caracol asmático. O resultado é simples; os jovens pagam para manter vivo um modelo que, quando chegar a vez deles, estará tão funcional quanto um telemóvel de 1998.

A ironia é que lhes pedem entusiasmo. Dizem-lhes que “é importante contribuir”, que “a solidariedade intergeracional é um valor”, que “o sistema é sustentável”. Tudo isto dito com a mesma convicção com que se garante que a dieta começa na Segunda-feira. A solidariedade intergeracional, esse conceito tão nobre, transformou-se numa espécie de chantagem emocional pois se não pagarem, os actuais pensionistas ficam desamparados; se pagarem, os futuros pensionistas, eles próprios, ficarão desamparados. É uma equação brilhante, digna de um manual de humor negro.

O discurso oficial insiste que tudo se resolverá com “ajustes paramétricos”, expressão que significa, em linguagem humana, trabalhar mais anos, pagar mais contribuições e receber menos no fim. É uma solução engenhosa: quando o sistema ameaça ruir, não se reforma o sistema, reforma-se o cidadão. A idade da reforma sobe como quem ajusta o volume da televisão. Hoje 66 anos e alguns meses, amanhã 67, depois 68, e assim sucessivamente, até que a idade da reforma coincida com a esperança média de vida e o problema se resolva por exaustão biológica.

Os jovens, entretanto, são convidados a acreditar que tudo isto é normal. Que é natural financiar um modelo que não os financiará. Que é razoável pagar por um contrato social que nasceu rasgado. Que é sensato confiar num Estado que promete reformas futuras enquanto luta para pagar as presentes. A narrativa é tão absurda que, se fosse apresentada num romance distópico, seria rejeitada por falta de credibilidade.

A verdade é que o sistema de pensões português foi desenhado para um país que não existe. Foi criado numa época em que havia muitos jovens, poucos idosos, empregos estáveis e um optimismo demográfico que hoje parece ficção científica. A sociedade mudou, mas o sistema permaneceu imóvel, como um monumento burocrático à incapacidade de adaptação. E, como qualquer estrutura rígida num mundo em movimento, começou a estalar.

A geração actual vive num mercado de trabalho fragmentado, com carreiras descontínuas, salários que não acompanham o custo de vida e contratos que duram menos do que uma assinatura de streaming. Pedir-lhes que financiem um sistema baseado em carreiras longas e estáveis é tão sensato quanto pedir a um peixe que suba uma montanha. Ainda assim, o Estado insiste, porque desistir seria admitir que o modelo falhou e admitir falhas é algo que as instituições públicas evitam com a mesma determinação com que evitam simplificar processos.

O mais curioso é que, apesar de tudo isto, o discurso político continua a tratar os jovens como se fossem eternamente culpados. Culpados por não terem filhos suficientes, culpados por não ganharem salários mais altos, culpados por não contribuírem mais, culpados por não acreditarem num sistema que não acredita neles. A culpa é sempre deles, nunca da estrutura que lhes pede o impossível.

O sistema de pensões tornou-se, assim, uma espécie de ritual; os jovens pagam, o Estado agradece, os pensionistas recebem e todos fingem que a festa continuará indefinidamente. É um teatro nacional, encenado com grande solenidade, mas cujo enredo ninguém leva verdadeiramente a sério. A única coisa que mantém o espectáculo de pé é a esperança ou talvez a ilusão de que algo mágico acontecerá entretanto como um milagre demográfico, uma explosão económica, uma reforma estrutural que nunca chega.

E, no entanto, a solução não é particularmente misteriosa. Exige coragem política, visão estratégica e uma honestidade brutal que raramente se encontra nos corredores do poder. Exige admitir que o sistema actual é insustentável, que os jovens não podem continuar a financiar reformas que nunca irão receber, que é preciso repensar o contrato social em vez de o remendar com fita-cola legislativa. Mas isso implicaria enfrentar interesses instalados, contrariar expectativas e, pior ainda, dizer a verdade. E a verdade, como se sabe, é sempre a primeira vítima da política.

Enquanto isso, os jovens continuam a pagar. Pagam porque não têm alternativa, pagam porque acreditam que a mudança é possível, pagam porque ainda não desistiram do país. Mas cada ano que passa sem reforma real é um lembrete de que estão a financiar um futuro que não será o deles. É um investimento sem retorno, uma poupança sem juros, uma promessa sem garantia.

O mais trágico ou talvez o mais cómico, dependendo do humor do dia é que o sistema só se mantém porque os jovens ainda acreditam, mesmo que pouco, que vale a pena contribuir. Quando essa crença desaparecer, quando a confiança se evaporar, quando a geração que sustenta o edifício decidir que não quer continuar a ser o alicerce de uma casa que nunca habitará, então o sistema colapsará. Não por falta de avisos, mas por excesso de negação.

No fim, a pergunta mantém-se: como é possível que os jovens financiem reformas que nunca irão receber? A resposta é simples e brutal, porque o sistema foi desenhado para isso, porque a política a perpétua, porque a sociedade o aceita e porque os jovens, apesar de tudo, continuam a acreditar que o futuro pode ser melhor do que o presente. Talvez seja ingenuidade, talvez seja resiliência, talvez seja apenas a recusa em aceitar que o país lhes pede o impossível. Mas, enquanto nada mudar, continuarão a financiar um sonho que não lhes pertence.

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