Há perguntas que parecem insignificantes até ao momento em que se percebe que nelas cabe um retrato inteiro de uma sociedade. “O que comeu nas  últimas 24 horas?” é uma dessas perguntas. Parece o início de uma conversa banal entre um médico diligente e um doente pouco inspirado, mas constitui afinal a pedra angular do novo Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física que a Direcção-Geral da Saúde colocou finalmente em marcha, com resultados previstos apenas para o final de 2027. A demora é reveladora. Numa época em que conseguimos saber em segundos o trajecto exacto de uma encomenda comprada do outro lado do planeta, Portugal precisará de vários anos para descobrir aquilo que coloca diariamente à mesa. A lentidão burocrática é quase poética e o país que inventou a caravela continua, por vezes, preso ao ritmo administrativo da jangada.

O paradoxo é tanto mais curioso quanto o próprio Estado reconhece há muito tempo que os hábitos alimentares inadequados constituem um dos principais factores de risco para a perda de anos de vida saudável. O Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável identifica o baixo consumo de cereais integrais, o excesso de carne vermelha e a elevada ingestão de sal entre os problemas mais relevantes da população portuguesa. Dados recentes apontam ainda para taxas preocupantes de excesso de peso entre adultos e crianças, demonstrando que o problema deixou de ser individual para se tornar estrutural.

O último grande retrato alimentar dos portugueses foi produzido pelo Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física realizado entre 2015 e 2016. Os seus resultados revelaram um país que come menos fruta e hortícolas do que seria desejável, onde mais de metade da população não atinge as recomendações da Organização Mundial da Saúde para o consumo destes alimentos, e onde uma fatia significativa da alimentação diária é ocupada por produtos ultraprocessados, refrigerantes, doces e snacks. Dez anos depois, a pergunta inevitável não é apenas o que comem os portugueses, mas sim porque motivo foi necessário esperar uma década para actualizar essa informação.

A ironia torna-se mais amarga quando recordamos uma observação de Michael Pollan em “In Defense of Food” (2008): “Não coma nada que a sua bisavó não reconhecesse como comida.” O conselho parece simples, quase ingénuo, mas colide frontalmente com uma indústria alimentar especializada em vender produtos cuja lista de ingredientes exige frequentemente um diploma em química aplicada. O consumidor moderno percorre corredores inteiros de supermercado onde a aparência de alimento é muitas vezes mais importante do que o próprio alimento. A embalagem tornou-se mais nutritiva para o marketing do que o conteúdo para o organismo.

Entretanto, os discursos oficiais insistem em celebrar a dieta mediterrânica, essa venerável herança cultural frequentemente evocada em conferências, seminários e campanhas institucionais. Contudo, como observava Pierre Bourdieu em “La Distinction” (1979), as práticas alimentares não são apenas escolhas individuais; reflectem desigualdades económicas, culturais e sociais. Pedir a uma família com orçamento limitado que opte por peixe fresco, vegetais variados e alimentos de elevada qualidade pode ser uma recomendação nutricional sensata, mas corre o risco de soar tão realista como sugerir um iate a quem procura um bote salva-vidas.

O novo inquérito pretende recolher informação sobre consumo alimentar, actividade física, estado nutricional, suplementos alimentares, insegurança alimentar e diversos indicadores de saúde. A metodologia segue padrões harmonizados internacionalmente e inclui entrevistas, recolha antropométrica e avaliação dos hábitos quotidianos. Trata-se de uma iniciativa indispensável. Mas é também impossível ignorar a habitual tentação nacional de transformar o diagnóstico numa espécie de fim em si mesmo. Em Portugal, temos uma conhecida inclinação para estudar exaustivamente os problemas, catalogá-los com rigor científico exemplar e, depois, discuti-los durante anos em relatórios elegantemente encadernados.

A literatura sobre alimentação tem sido clara acerca desta armadilha. Marion Nestle, uma das vozes mais influentes na área da política alimentar, escreveu em “Food Politics” (2002) que muitos problemas nutricionais persistem não por falta de conhecimento científico, mas por ausência de vontade política para enfrentar interesses económicos consolidados. O problema nunca foi descobrir que o excesso de açúcar faz mal. O problema é decidir o que fazer quando essa descoberta entra em conflito com sectores económicos poderosos, hábitos culturais profundamente instalados e estratégias comerciais multimilionárias.

Neste contexto, o novo inquérito corre o risco de confirmar aquilo que já suspeitamos. Saberemos quantos portugueses consomem fruta de forma insuficiente, quantos abusam do sal, quantos passam horas sentados e quantos apresentam excesso de peso. A novidade será estatística; a realidade social será familiar. É como contratar um detective para descobrir quem está a comer o bolo enquanto o suspeito continua sentado à mesa com migalhas visíveis nos lábios.

A comparação com Macau oferece uma perspectiva interessante. Nos últimos anos, as autoridades da Região Administrativa Especial têm reforçado mecanismos de monitorização da saúde populacional. Em 2026 foi lançado um novo Inquérito sobre a Saúde de Macau, envolvendo milhares de residentes e recolhendo dados sobre doenças crónicas, factores de risco e comportamentos relacionados com a saúde. Paralelamente, foram implementadas campanhas públicas destinadas a incentivar actividade física, alimentação saudável, rastreios médicos e vacinação, recorrendo inclusivamente a sistemas de recompensas digitais associados a plataformas governamentais.

Naturalmente, ninguém deve imaginar que distribuir pontos ou prémios resolverá magicamente o problema da obesidade ou da alimentação desequilibrada. Contudo, existe pelo menos uma tentativa visível de transformar informação em intervenção prática. Enquanto Portugal parece muitas vezes fascinado pela recolha de dados, Macau demonstra uma preocupação crescente em converter o conhecimento em instrumentos concretos de mudança comportamental. Não se trata de proclamar vencedores. Trata-se de reconhecer que medir é importante, mas agir é indispensável.

O filósofo Michel Foucault observou, em “Naissance de la Biopolitique” (1979), que os Estados modernos se tornaram especialistas na gestão das populações através de estatísticas, indicadores e mecanismos de vigilância. O novo inquérito alimentar português representa exactamente isso, ou seja, um esforço de conhecimento que permite governar melhor. Mas o conhecimento, por si só, não emagrece ninguém, não reduz o consumo de refrigerantes, nem coloca vegetais no prato de uma criança. Os números são essenciais; a ilusão de que bastam é que se torna perigosa.

Existe ainda uma questão cultural frequentemente ignorada. Em Portugal, a alimentação continua a ser encarada simultaneamente como património, prazer, identidade e afecto. Qualquer tentativa de alterar hábitos alimentares esbarra inevitavelmente contra tradições profundamente enraizadas. A mesa portuguesa é um espaço de convívio e memória. O problema surge quando a nostalgia gastronómica se transforma numa desculpa para ignorar evidências científicas. Nem toda a tradição merece imunidade crítica. Algumas práticas merecem ser preservadas; outras necessitam de revisão.

A mordacidade da situação reside precisamente aqui. Vivemos numa era que nunca dispôs de tanta informação sobre nutrição e saúde. Publicam-se milhares de artigos científicos todos os anos. Existem aplicações capazes de contabilizar calorias, medir passos, monitorizar sono e calcular índices corporais. Nunca soubemos tanto sobre alimentação. Nunca estivemos tão rodeados de conhecimento nutricional. E, apesar disso, as doenças relacionadas com estilos de vida continuam a crescer. A abundância de informação não gerou necessariamente sabedoria. Produziu sobretudo ruído.

Talvez por isso a pergunta mais relevante não seja “o que comeu nas últimas 24 horas?”. A verdadeira pergunta deveria ser: “porque continua a comer assim sabendo aquilo que sabe?”. A resposta dificilmente caberá num questionário. Envolve rendimentos, educação, publicidade, urbanismo, disponibilidade de tempo, desigualdades sociais e escolhas políticas. Envolve, em suma, a própria organização da sociedade contemporânea.

Quando os resultados deste novo inquérito forem finalmente conhecidos, no final de 2027, teremos seguramente um retrato estatístico mais actualizado do país. Saberemos quantas calorias ingerimos, quanto nos movimentamos e quais os grupos populacionais mais vulneráveis. O que continuará em aberto é a questão fundamental de saber se estaremos dispostos a enfrentar as causas do problema ou limitaremos novamente a contemplar os números com a mesma resignação melancólica com que observamos uma previsão meteorológica inevitável? Afinal, as estatísticas raramente mudam comportamentos por si próprias. Mudam apenas a nossa consciência sobre aquilo que já deveríamos ter mudado há muito tempo.

Bibliografia

  • Bourdieu, Pierre (1979). La Distinction: Critique Sociale du Jugement. Paris: Les Éditions de Minuit.
  • Foucault, Michel (1979). Naissance de la Biopolitique. Paris: Gallimard/Seuil.
  • Nestle, Marion (2002). Food Politics: How the Food Industry Influences Nutrition and Health. Berkeley: University of California Press.
  • Pollan, Michael (2008). In Defense of Food: An Eater’s Manifesto. New York: Penguin Press.
  • Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável. Disponível em: https://alimentacaosaudavel.dgs.pt
  • Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física (IAN-AF). Metodologia e documentação oficial. Disponível em: https://ian-af.up.pt
  • Serviços de Saúde da Região Administrativa Especial de Macau. Inquérito sobre a Saúde de Macau 2026.
  • Programa de Alimentação Saudável dos Serviços de Saúde de Macau.

Jorge Rodrigues Simão, 2026