O turismo em Macau, esse colosso de cifras que enche relatórios e discursos governamentais, continua a ser apresentado como a prova viva de que a prosperidade é uma questão de fluxo de visitantes, receitas e expectativas. A economia local, como um organismo que respira ao ritmo das entradas diárias, vive num estado de permanente dependência daquilo que os economistas chamariam “procura externa”, mas que o cidadão comum reconhece simplesmente como multidões que atravessam fronteiras para consumir uma cidade que se tornou produto. E, como escreveu Thorstein Veblen, “o consumo conspícuo é o sinal exterior da prosperidade interior”; Macau, porém, vive o paradoxo de ostentar o consumo dos outros enquanto hesita em construir o seu próprio.
A análise do turismo em Macau em 2026 revela um fenómeno simultaneamente grandioso e frágil. Grandioso nos números, frágil na estrutura. É como um palácio barroco, esplendoroso na fachada, mas sustentado por vigas que já pedem substituição. Os dados oficiais da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) mostram que, entre Janeiro e Julho, Macau recebeu mais de 24,48 milhões de visitantes, um aumento de 8% face ao ano anterior. Uma cifra que faria corar de inveja muitas capitais europeias, mas que, examinada com rigor, revela mais inquietações do que triunfos.
A esmagadora maioria destes visitantes, mais de 60%, são excursionistas, almas apressadas que entram e saem no mesmo dia, consumindo a cidade como quem consome um pastel de nata: rápido, doce, sem compromisso. A estadia média, fixada em 1,1 dias, confirma que Macau continua a ser destino de passagem, não de permanência. A cidade é visitada, mas não é vivida. É fotografada, mas não é compreendida. É consumida, mas não é habitada.
O Governo, com a sua habitual retórica de diversificação, insiste em atrair mercados internacionais. Mas os números, esses insolentes que nunca obedecem ao discurso político, mostram o contrário e os visitantes das Filipinas caíram 13,3%, os da Coreia do Sul caíram 14,7%, os de Hong Kong caíram mais de 10%. A única excepção é a Índia, que cresceu 66,4%, mas ainda representa uma parcela pequena do total. A RAEM continua, portanto, a depender quase exclusivamente do Interior da China, como um navio que navega com um único motor potente, mas vulnerável.
O turismo organizado, esse vestígio de tempos em que viajar era acto cerimonioso, registou apenas 96.767 visitantes em Junho. O resto chega por conta própria, guiado por aplicações móveis, algoritmos e recomendações instantâneas. Macau tornou-se destino de consumo rápido, embalado em pacotes de conveniência, onde o visitante escolhe entre jogo, compras e selfies, como quem escolhe entre três sabores de gelado.
O gasto médio por visitante, fixado em 2.059 patacas, revela que o turismo é volumoso, mas não necessariamente valioso. A cidade recebe milhões, mas cada um deixa pouco. É a economia da quantidade, não da qualidade. Como diria Adam Smith, “não é da benevolência do talhante que esperamos o nosso jantar”; e não é da benevolência dos excursionistas que Macau pode esperar o seu futuro económico.
O turismo em Macau vive, assim, num estado de contradição permanente. Cresce, mas não amadurece. Expande-se, mas não se aprofunda. Multiplica-se, mas não se diversifica. É um gigante com pés de barro, sustentado por fluxos que podem mudar ao sabor de políticas fronteiriças, humores económicos ou crises sanitárias. A pandemia ensinou-nos que depender de um único mercado é como depender de um único pulmão pois basta um golpe para que o organismo entre em colapso.
O Governo insiste em promover Macau como “centro mundial de turismo e lazer”. Uma ambição nobre, mas que exige mais do que casinos, centros comerciais e espectáculos de luzes. Exige cultura, urbanismo, mobilidade, espaços públicos, museus vivos, bairros restaurados, narrativas que convidem o visitante a permanecer, não apenas a passar. Exige que Macau deixe de ser vitrine e se torne cidade. Que deixe de ser produto e se torne experiência. Que deixe de ser destino e se torne lugar.
Mas, como escreveu Italo Calvino, “as cidades são um conjunto de relações entre a medida do seu espaço e a memória do seu tempo”. Macau, em 2026, vive sobretudo da medida do seu espaço pequeno, denso, funcional e pouco da memória do seu tempo, que permanece escondida entre templos, becos e fachadas coloniais que raramente entram nos itinerários turísticos.
O turismo em Macau é, portanto, uma narrativa incompleta. Uma história contada pela metade. Uma equação que cresce no lado das entradas, mas encolhe no lado das permanências. Uma economia que depende de visitantes que chegam em massa, mas que não deixam raízes. Uma cidade que se tornou palco de consumo, mas que ainda não encontrou o seu papel na dramaturgia global.
E, no entanto, há potencial. Há sempre potencial. Macau tem história, tem cultura, tem gastronomia, tem arquitectura, tem identidade. Falta-lhe apenas coragem para se reinventar. Falta-lhe apenas vontade política para transformar o turismo de fluxo em turismo de permanência. Falta-lhe apenas visão para construir uma economia que não dependa exclusivamente de quem chega, mas também de quem fica.
O turismo em Macau, em 2026, é como um romance inacabadoç belo, promissor, mas ainda à espera de autor que lhe dê profundidade. E, enquanto esse autor não chega, a cidade continuará a viver entre números grandiosos e realidades modestas, entre discursos ambiciosos e práticas repetitivas, entre visitantes que entram e saem e uma população que observa, silenciosa, o desfile diário de um futuro que ainda não se decidiu.
Bibliografia
- Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). Indicadores do Turismo da RAEM 2025-2026. Governo da RAEM.
- Veblen, Thorstein. The Theory of the Leisure Class. New York: Macmillan, 1899.
- Smith, Adam. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. London: W. Strahan and T. Cadell, 1776.
- Calvino, Italo. Le città invisibili. Milano: Mondadori, 1972.
- UNWTO – Organização Mundial do Turismo. Tourism Highlights 2026. Madrid, 2026.
- FMI – Fundo Monetário Internacional. Regional Economic Outlook: Asia and Pacific. Washington, D.C., 2026.
Jorge Rodrigues Simão 2026

