Se é verdade que, como escreveu Alexis de Tocqueville, “quando o passado já não ilumina o futuro, o espírito caminha nas trevas”, então a RAEM, na primeira metade de 2026, passeou alegremente por um corredor mal iluminado, convencida de que a ténue claridade ao fundo era progresso e não apenas o reflexo das luzes de néon dos casinos. O Produto Interno Bruto, esse ídolo estatístico que os governos veneram com a devoção supersticiosa dos antigos cultos agrários, cresceu 3,7% face ao mesmo período de 2025, atingindo 209,9 mil milhões de patacas. Um número redondo, gordo, satisfeito, que a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) apresentou com o entusiasmo de quem anuncia a chegada de uma nova colheita de arroz, esquecendo que a plantação continua dependente da mesma água, das mesmas mãos e das mesmas ferramentas.

Segundo a DSEC, essa sacerdotisa das percentagens, o crescimento foi “fomentado” pelas exportações de serviços turísticos e de jogo. A palavra é deliciosa com fomentar. Evoca a imagem de um estábulo económico onde o turismo é vaca leiteira e o jogo é cavalo de corrida, ambos alimentados com ração importada e ambos exigindo cuidados constantes para não morrerem de exaustão. O consumo interno, esse parente pobre que nunca recebe convite para os banquetes oficiais, manteve-se fraco, como sempre, porque a população local continua a viver entre salários que não sobem e preços que não descem.

A DSEC, num comunicado emitido com a solenidade burocrática de quem acredita que a verdade nasce em tabelas Excel, informou que as exportações globais de serviços aumentaram 7,3% em termos anuais, justificadas pela subida de 9% no número de entradas de visitantes. A economia da RAEM, portanto, cresce porque mais gente atravessa fronteiras para consumir serviços que não são produzidos para eles, mas para o lucro das concessionárias. É uma lógica simples, quase infantil, como aquelas contas de somar que se fazem com feijões de mais visitantes, mais receitas; mais receitas, mais PIB; mais PIB, mais comunicados triunfais.

Mas, como diria Eça de Queirós, “a estatística é a forma moderna da mentira”. E aqui a mentira não é moral, é estrutural. O PIB dos primeiros seis meses de 2026 equivale a 89,1% do volume económico do semestre homólogo de 2019. Ou seja, sete anos depois, com fronteiras abertas, com o mundo pós‑pandemia a circular, com a RAEM a promover-se como destino global, ainda não recuperámos o fulgor pré‑covid. A economia cresce, sim, mas cresce como um doente convalescente que se levanta da cama apenas para provar que ainda respira.

Exportações: O Milagre das Percentagens

Entre as exportações que mais contribuíram para o aumento do PIB, destacam-se “outros serviços turísticos” (+10,8%) e “serviços do jogo” (+5,5%). A expressão “outros serviços turísticos” é um monumento à ambiguidade pois pode significar tudo, desde visitas guiadas a lojas de luxo até excursões para tirar fotografias com o telemóvel. É o tipo de categoria que faria Max Weber suspirar, ele que defendia a clareza conceptual como base da sociologia moderna. As exportações de bens, por sua vez, aumentaram 14,8% um número que parece extraordinário até se perceber que Macau exporta pouco mais do que lembranças, produtos alimentares específicos e alguns bens reexportados. As importações subiram 9,5%, porque a RAEM continua a depender do exterior para quase tudo, desde legumes até materiais de construção. É a velha história de que importamos para viver, exportamos para entreter visitantes.

Do Outro Lado: O Consumo Interno e Outras Tragédias

Enquanto as exportações crescem, a procura interna mantém-se fraca. A despesa de consumo privado subiu 2,7%, o que é tão tímido que quase pede desculpa por existir. A despesa de consumo final do Governo contraiu 0,2%, talvez porque o erário público decidiu fazer dieta. A formação bruta de capital fixo caiu 9,3%, sinal de que o investimento em activos fixos está a definhar como planta esquecida numa varanda.

No segundo trimestre, o PIB cresceu 0,3% face ao mesmo período de 2025, representando 87,9% do volume económico de 2019. A economia, portanto, avança com a lentidão de um funcionário público em fim de expediente. As exportações de serviços subiram 1,6%, a despesa de consumo privada 2,1%, a despesa de consumo final do Governo 2,1% e a formação bruta de capital fixo 4%. Tudo números que parecem animadores até se perceber que a procura externa líquida caiu 2,5% porque as importações de bens subiram 13,5%. É o eterno dilema da RAEM de que cresce para fora, encolhe para dentro.

O deflator implícito do PIB aumentou 2,9%, sinal de que os preços sobem com a mesma alegria com que os visitantes entram. A inflação, essa sombra que nunca abandona os corredores económicos, continua a passear-se pela RAEM com a tranquilidade de quem sabe que ninguém lhe fechará a porta.

Turismo: A Grande Procissão dos Números

Em Julho, Macau recebeu 3,54 milhões de visitantes, um aumento de 2,4% em termos anuais. O número é impressionante, mas esconde uma ironia de que o crescimento foi impulsionado pelos visitantes do Interior da China (+5,4%), enquanto os visitantes internacionais caíram 1,9%. O Governo sonha com diversificação turística, mas a realidade insiste em ser monotemática.

Os excursionistas, mais de 2,1 milhões aumentaram 6,4%. Os turistas que vieram por sua conta diminuíram 2,9%. O período médio de permanência caiu para 1,1 dias. Macau, portanto, é visitada como quem entra numa pastelaria; chega, consome e sai. Não há tempo para contemplação, cultura ou reflexão. Apenas consumo rápido.

Os visitantes com visto individual cresceram 9,6%, enquanto os turistas de Hong Kong caíram mais de 10%. Os turistas das Filipinas diminuíram 13,3%, os da Coreia do Sul 14,7%. Os da Índia aumentaram 66,4%, mas representam ainda uma fatia pequena. Nos primeiros sete meses de 2026, o número total de visitantes cresceu 8%, impulsionado pelos excursionistas. A RAEM continua a ser destino de passagem, não de permanência.

O Crescimento que Cresce Sem Crescer

O PIB da RAEM subiu 3,7%. As exportações aumentaram. O turismo floresceu. O jogo prosperou. As estatísticas sorriem. Mas o consumo interno continua fraco, o investimento encolhe, a diversificação económica permanece uma promessa adiada e a dependência estrutural do turismo e do jogo mantém-se intacta.

Como escreveu John Maynard Keynes, “a dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar às antigas”. A RAEM, em 2026, continua presa às ideias antigas de turismo, jogo, visitantes, percentagens. O crescimento é real, mas é frágil, dependente, vulnerável. É crescimento de vitrine, não de estrutura.

E assim, enquanto os comunicados oficiais celebram números, a economia real continua a caminhar nas tais trevas de Tocqueville, iluminada apenas pelas luzes dos casinos que, como se sabe, não iluminam, apenas ofuscam.

Bibliografia

  • Keynes, John Maynard. The General Theory of Employment, Interest and Money. London: Macmillan, 1936.
  • Tocqueville, Alexis de. De la Démocratie en Amérique. Paris: Pagnerre, 1835.
  • Weber, Max. Economy and Society. Berkeley: University of California Press, 1978.
  • Queirós, Eça de. Correspondência. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, várias edições.
  • Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). Indicadores Estatísticos da RAEM – PIB e Turismo 2025–2026. Governo da RAEM, Macau. Disponível em: https://www.dsec.gov.mo
  • Banco Mundial. World Development Indicators. Washington, D.C., 2026.
  • Fundo Monetário Internacional (FMI). Regional Economic Outlook: Asia and Pacific. Washington, D.C., 2026.
  • Organização Mundial do Turismo (UNWTO). Tourism Highlights 2026. Madrid, 2026.

Jorge Rodrigues Simão 2026