Há momentos na história em que a política internacional parece uma ópera de terceira categoria, encenada por actores que confundem o palco com o mundo e o público com uma plateia de ingénuos. A recente condenação da ONU às sanções dos Estados Unidos contra Cuba é um desses episódios em que o grotesco se mistura com o trágico, e onde a ironia se torna o único instrumento capaz de suportar a realidade. A ONU, esse colosso de papel que vive entre resoluções que ninguém cumpre e relatórios que ninguém lê, decidiu finalmente erguer a voz para denunciar aquilo que toda a gente sabia: que as sanções americanas são uma forma de coacção política, um estrangulamento económico e uma tentativa mal disfarçada de remodelar a ordem constitucional de um Estado soberano.
Os especialistas das Nações Unidas, num raro momento de coragem institucional, afirmaram que Cuba corre o risco de se tornar uma “Gaza silenciosa”. A expressão, emprestada de congressistas democratas americanos, é tão infeliz quanto reveladora. Infeliz porque reduz duas tragédias humanas a uma metáfora de conveniência; reveladora porque mostra que, para certos políticos, o sofrimento é uma unidade de medida comparável a litros de combustível ou toneladas de arroz. A comparação, além de desastrada, revela uma tendência contemporânea para transformar crises humanitárias em slogans, como se a dor de um povo pudesse ser resumida numa frase de efeito destinada a circular nas redes sociais.
As sanções anunciadas por Washington em 23 de Julho atingem empresas do sector energético e dificultam ainda mais a aquisição de combustível por Cuba, incluindo para fins humanitários. A palavra “humanitário”, que deveria ser sagrada, tornou‑se um adorno retórico, um véu de pureza lançado sobre decisões que, na prática, agravam a miséria. George Orwell, que conhecia bem os truques da linguagem política, escreveu que “a linguagem política é concebida para fazer as mentiras parecerem verdade e o assassinato respeitável”. Nada mais adequado para descrever a forma como as sanções são justificadas com discursos sobre democracia, liberdade e direitos humanos, enquanto se aperta o garrote económico em torno de um país debilitado.
Cuba enfrentou recentemente o terceiro grande apagão nacional. Três apagões num país que vive em permanente penumbra económica são quase uma parábola bíblica. Se o Antigo Testamento tivesse sido escrito em Havana, talvez incluísse um flagelo adicional que é a falta de combustível. Os sectores da energia, dos transportes, da irrigação e dos serviços básicos estão a falhar simultaneamente, como se o país fosse um relógio antigo cujas engrenagens se soltam uma a uma até que o tempo deixa de avançar. Os especialistas da ONU sublinham que esta deterioração afecta desproporcionalmente mulheres, crianças, idosos e grupos vulneráveis. A vulnerabilidade, que antes era uma condição humana, tornou‑se agora uma categoria política, usada para medir o impacto das decisões tomadas em gabinetes climatizados a milhares de quilómetros de distância.
Os peritos apelam ao Governo americano para que ponha fim às ameaças e actos hostis contra a soberania de Cuba. O apelo é comovente, mas inútil. Os Estados Unidos têm uma longa tradição de hostilidade diplomática, que remonta ao tempo em que acreditavam ser possível transformar o mundo à força de embargo. Noam Chomsky, sempre mordaz, escreveu que “os Estados Unidos são um Estado fora da lei, que se considera acima das normas internacionais”. A frase, que muitos consideram exagerada, ganha uma nova frescura quando aplicada ao caso cubano. A política externa americana é uma espécie de liturgia imperial, onde cada sanção é um sacramento e cada embargo uma bênção destinada a salvar o mundo daquilo que Washington considera desvio ideológico.
A declaração da ONU foi subscrita por Zaina Jallad, relatora especial sobre o impacto negativo das medidas coercivas unilaterais nos direitos humanos, e por Surya Deva, relator especial sobre o direito ao desenvolvimento. Dois nomes respeitáveis, duas vozes que clamam no deserto diplomático. O problema é que, no deserto, o eco é mais forte do que a voz e o eco das sanções americanas abafa qualquer tentativa de diálogo. A ONU, que deveria ser o árbitro da paz, tornou‑se uma espécie de espectador resignado, que assiste ao desenrolar das crises com a impotência de quem não tem meios para intervir.
Cuba enfrenta há vários anos uma grave crise económica, marcada por escassez de combustível, alimentos e medicamentos, inflação e frequentes cortes de electricidade. O Governo cubano atribui grande parte desta situação às sanções americanas. Washington, por seu lado, justifica a pressão com a situação dos direitos humanos e a falta de reformas políticas na ilha. É o velho jogo do espelho de que cada lado acusa o outro de ser a causa da tragédia, enquanto a população fica presa no reflexo distorcido de uma disputa que não controla. A verdade é que as sanções são uma forma moderna de guerra. Uma guerra sem bombas, mas com consequências tão devastadoras quanto um conflito armado. John Maynard Keynes, que não era dado a exageros, escreveu que “a política económica é a forma mais subtil de guerra”. E Cuba está a ser alvo dessa guerra subtil há décadas, com intervalos breves de alívio e longos períodos de estrangulamento.
O mais trágico ou talvez o mais cómico, dependendo do humor do leitor é que tudo isto é feito em nome da democracia, dos direitos humanos, da liberdade. Palavras nobres, transformadas em instrumentos de pressão. Palavras que deveriam proteger vidas, mas que acabam por justificar políticas que as destroem. A democracia tornou‑se um argumento, os direitos humanos uma bandeira e a liberdade um slogan. A realidade, porém, é que nenhum destes conceitos se alimenta de discursos mas de políticas concretas, de decisões responsáveis, de respeito pela soberania dos povos.
A ONU alerta que Cuba pode tornar‑se uma “Gaza silenciosa”. A expressão é terrível, mas talvez necessária. O silêncio é, por vezes, mais devastador do que o ruído. Gaza grita; Cuba, dizem, sofre em silêncio. Mas o silêncio não é ausência de dor; é apenas ausência de testemunhas. E quando a comunidade internacional decide virar o rosto, o sofrimento torna‑se invisível, mas não desaparece.
No fim, resta a pergunta de quem ganha com isto? Certamente não o povo cubano, que continua a viver entre apagões, filas para combustível, escassez de alimentos e medicamentos. Certamente não a ONU, que continua a emitir declarações que ninguém cumpre. Certamente não a comunidade internacional, que continua a fingir que a diplomacia é eficaz. Talvez ganhe a retórica. Talvez ganhe a ilusão de que ainda existe ordem internacional. Talvez ganhe a sensação de que estamos todos a fazer alguma coisa, mesmo quando não estamos a fazer nada.
Albert Camus escreveu que “a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”. E o presente exige que se diga, com mordacidade e ironia, que as sanções não são solução, que a crise humanitária não é um instrumento político e que a soberania de um país não deve ser negociada como se fosse um barril de petróleo. A ONU, apesar das suas limitações, fez o que lhe compete; denunciou. Cabe agora ao mundo decidir se continua a assistir ao estrangulamento de Cuba ou se, finalmente, resolve cortar a respiração e permitir que a ilha sobreviva.
Bibliografia
Arendt, Hannah. The Human Condition. University of Chicago Press, 1958.
Orwell, George. Politics and the English Language. Horizon, 1946.
Chomsky, Noam. Hegemony or Survival: America’s Quest for Global Dominance. Metropolitan Books, 2003.
Keynes, John Maynard. Essays in Persuasion. Macmillan, 1931.
Camus, Albert. The Rebel. Gallimard, 1951.
Jorge Rodrigues Simão 2026

