A economia política moderna é o teatro onde se encenam as tragédias do progresso e as farsas da liberdade. Desde que o capital aprendeu a vestir fato e gravata, deixou de ser apenas uma força produtiva para se tornar uma ideologia como uma religião laica que promete salvação através do crescimento. O século XXI é o altar do mercado, e os economistas são os seus sacerdotes, recitando mantras sobre eficiência, competitividade e inovação, enquanto o povo ajoelha perante o gráfico ascendente do PIB.

O Estado, outrora soberano, converteu-se em gerente de interesses privados. A política económica é hoje um manual de contabilidade, onde o cidadão é uma linha de despesa e a dignidade humana um custo a reduzir. Como escreveu David Harvey, “o neoliberalismo é um projecto político para restaurar o poder das elites” (A Brief History of Neoliberalism, 2005). E restaurou-o com sucesso pois as elites governam, os governos obedecem, e o povo paga.

A globalização, esse eufemismo para colonização financeira, transformou o planeta num mercado único onde tudo se compra até a soberania. As fronteiras tornaram-se alfândegas do capital, e os tratados internacionais são contratos de submissão. O FMI e o Banco Mundial, com a sua retórica de “reformas estruturais”, são os novos inquisidores da economia pois exigem austeridade como penitência e prometem crescimento como indulgência. O resultado é previsível com pobreza institucionalizada e desigualdade legitimada.

O capitalismo contemporâneo é um sistema que se alimenta da própria crise. Cada colapso é uma oportunidade, cada recessão um negócio. Como observou Naomi Klein, “o capitalismo usa o choque para impor políticas impopulares” (The Shock Doctrine, 2007). A catástrofe é o método; o sofrimento, a moeda. O mercado não teme o caos pois lucra com ele.

A economia política moderna vive da ficção da liberdade. O consumidor acredita que escolhe, mas é conduzido; o trabalhador pensa que é livre, mas é descartável. A precariedade é o novo contrato social. A meritocracia, esse mito conveniente, transforma desigualdade em virtude. Como escreveu Michael Sandel, “a meritocracia corrompe o sentido de solidariedade” (The Tyranny of Merit, 2020). O mérito é apenas o nome elegante da sorte.

O poder económico não se mede em fábricas, mas em algoritmos. As grandes corporações tecnológicas são os novos impérios que controlam informação, moldam comportamento e definem realidade. O cidadão é simultaneamente cliente e produto. A economia digital é o triunfo da vigilância sobre a liberdade. Como advertiu Shoshana Zuboff, “o capitalismo de vigilância reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita” (The Age of Surveillance Capitalism, 2019). O lucro é extraído da alma.

O Estado, domesticado pelo mercado, tornou-se cúmplice. Privatiza o que é público, liberaliza o que é essencial e regula apenas o que ameaça o capital. A política fiscal é uma arte de invisibilidade pois os ricos pagam menos porque podem, os pobres pagam mais porque devem. A justiça tributária é uma utopia que se discute em conferências, mas nunca se aplica. Como ironizou Thomas Piketty, “a desigualdade é uma escolha política” (Capital and Ideology, 2019). E os governos escolhem sempre o lado do capital.

A economia política moderna é também uma estética. Os relatórios financeiros são literatura de ficção, os gráficos são pinturas abstractas, e as previsões são profecias. O economista é o poeta dos números pois escreve sonetos sobre produtividade e elegias sobre défices. A linguagem económica é deliberadamente hermética que serve para excluir o cidadão comum e proteger o dogma. Como observou John Kenneth Galbraith, “a complexidade é usada para disfarçar a verdade” (The Economics of Innocent Fraud, 2004). E a verdade é simples; o sistema é feito para beneficiar quem o controla.

O princípio da eficiência, exaltado como virtude, é a nova forma de tirania. Tudo deve ser optimizado como o tempo, o trabalho e até o lazer. A vida é medida em métricas, e o valor humano em produtividade. O trabalhador é avaliado como máquina, e a máquina é promovida como trabalhador ideal. A inteligência artificial substitui o esforço, mas não a dignidade. O progresso técnico é o disfarce da desumanização.

A economia política moderna é também uma moral. O lucro é bom, o imposto é mau, e a solidariedade é suspeita. A ética empresarial resume-se a relatórios de sustentabilidade e campanhas de marketing verde. O capitalismo aprendeu a vender consciência e fá-lo com lucro. Como escreveu Slavoj Žižek, “o capitalismo é capaz de vender até a sua própria crítica” (Living in the End Times, 2010). O sistema é tão eficiente que até a revolta se tornou mercadoria.

O princípio da interdependência, que deveria unir as nações, apenas reforça a hierarquia global. Os países ricos exportam tecnologia e importam submissão; os pobres exportam esperança e importam dívida. A economia mundial é um tabuleiro de xadrez onde os peões são descartáveis. A soberania é um conceito obsoleto substituído por ratings e spreads. Como observou Susan Strange, “o poder estrutural é o poder de moldar as estruturas dentro das quais os outros têm de operar” (States and Markets, 1988). E o mercado molda tudo.

O futuro da economia política moderna é previsível com mais desigualdade, mais automatização e, menos humanidade. O capital não dorme, apenas muda de forma. Hoje é digital, amanhã será biológico. O corpo humano será o novo campo de investimento como saúde, genética e longevidade. O mercado não quer apenas controlar o trabalho; quer controlar a vida. Como advertiu Yuval Noah Harari, “quem controla os dados controla o futuro” (Homo Deus, 2016). E o futuro tem dono.

A economia política moderna é, em última análise, uma teologia sem Deus. O mercado é o novo divino, o capital o novo dogma, e o lucro o novo sacramento. A fé é cega, mas rentável. O cidadão reza por estabilidade, o investidor por volatilidade, e o governo por credibilidade. Todos acreditam, poucos compreendem. Como diria Oscar Wilde, “o cínico é aquele que conhece o preço de tudo e o valor de nada”. A economia moderna conhece todos os preços e esqueceu todos os valores.

Bibliografia:

  • Harvey, D. (2005). A Brief History of Neoliberalism. Oxford: Oxford University Press.
  • Klein, N. (2007). The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism. New York: Metropolitan Books.
  • Sandel, M. (2020). The Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good? New York: Farrar, Straus and Giroux.
  • Zuboff, S. (2019). The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs.
  • Piketty, T. (2019). Capital and Ideology. Cambridge, MA: Harvard University Press.
  • Galbraith, J. K. (2004). The Economics of Innocent Fraud. Boston: Houghton Mifflin.
  • Žižek, S. (2010). Living in the End Times. London: Verso.
  • Strange, S. (1988). States and Markets. London: Pinter Publishers.
  • Harari, Y. N. (2016). Homo Deus: A Brief History of Tomorrow. London: Harvill Secker.

Jorge Rodrigues Simão 2026