A revolução iraniana de 1979 não se limitou a alterar a estrutura formal do Estado; redesenhou profundamente a relação entre autoridade religiosa, administração pública e economia política. Entre os elementos mais duradouros desse processo encontra‑se a consolidação das bonyad, fundações caritativas islâmicas que, ao longo das décadas, se tornaram pilares socioeconómicos do regime. A sua importância ultrapassa largamente a função assistencial que, em teoria, justificou a sua criação. As bonyad constituem hoje um dos instrumentos mais eficazes de reprodução do poder, de gestão de recursos e de construção de consenso interno, ao mesmo tempo que projectam influência para além das fronteiras nacionais. Compreender a sua génese, natureza e funcionamento é essencial para interpretar a resiliência institucional da República Islâmica e a dificuldade de qualquer tentativa de reforma estrutural.
- Origem histórica e enquadramento ideológico
A emergência das bonyad está intimamente ligada à visão de Estado promovida pelo movimento revolucionário liderado por Ruhollah Khomeini. Antes de 1979 existiam fundações de carácter religioso e filantrópico, mas a revolução transformou‑as num instrumento central de governação. A nova liderança procurava simultaneamente desmantelar a ordem económica associada ao xá e criar mecanismos capazes de redistribuir riqueza de forma compatível com a ideologia revolucionária. As fundações surgiram, assim, como entidades destinadas a gerir bens confiscados, apoiar os sectores considerados vulneráveis e materializar o ideal de justiça social proclamado pelo novo regime.
A lógica subjacente era dupla. Por um lado, tratava‑se de legitimar o projecto revolucionário através de políticas de assistência que respondessem às expectativas de amplos segmentos da população. Por outro, pretendia‑se criar estruturas económicas paralelas às instituições estatais tradicionais, reduzindo a dependência de mecanismos administrativos herdados do período monárquico. Esta duplicidade explica a natureza híbrida das bonyad que não são plenamente públicas, mas também não são privadas; não respondem directamente ao governo eleito, mas operam com prerrogativas que ultrapassam as de muitas entidades estatais.
- A natureza parastatal e a arquitectura de poder
A característica mais marcante das bonyad reside na sua posição institucional singular. Embora formalmente apresentadas como organizações de caridade, funcionam como conglomerados económicos com acesso privilegiado a recursos, isenções fiscais e redes políticas. A sua supervisão é exercida por autoridades religiosas ou por órgãos directamente ligados ao núcleo do poder, o que lhes confere autonomia face ao governo e ao parlamento. Esta autonomia não é acidental; constitui um mecanismo deliberado de distribuição de poder dentro da estrutura dual da República Islâmica, onde instituições não eleitas detêm primazia sobre as instâncias civis.
A natureza parastatal das bonyad garante‑lhes uma margem de manobra que seria impensável para empresas privadas ou organismos públicos convencionais. Operam em sectores estratégicos desde a construção civil à agricultura, passando pela indústria transformadora e pelos serviços e beneficiam de uma rede de protecção institucional que as coloca fora do alcance de auditorias independentes. Esta opacidade reforça a sua capacidade de influenciar decisões políticas e económicas, ao mesmo tempo que dificulta qualquer tentativa de reforma administrativa.
- Função socioeconómica e produção de consenso
Apesar da sua complexidade institucional, as bonyad mantêm uma função social que continua a ser central para a estabilidade do regime. Através de programas de assistência, subsídios, distribuição de bens essenciais e apoio a veteranos de guerra, desempenham um papel que, noutros contextos, seria assumido pelo Estado social. Esta função é particularmente relevante em períodos de crise económica, quando a inflação, desemprego ou sanções internacionais afectam de forma mais severa as camadas populares.
A capacidade das bonyad para mobilizar recursos rapidamente e para actuar fora dos constrangimentos burocráticos permite‑lhes responder a necessidades imediatas, reforçando a percepção de que o regime protege os seus apoiantes. Esta percepção é fundamental para a construção de legitimidade, sobretudo entre grupos sociais que constituem a base histórica do apoio ao sistema político instaurado em 1979. A assistência prestada não é apenas económica; é também simbólica, pois associa a sobrevivência material de muitos cidadãos à continuidade da ordem revolucionária.
- Economia política e redes de influência
A expansão das bonyad ao longo das últimas décadas transformou‑as em actores económicos de grande escala. Controlam empresas, participam em consórcios, investem em sectores lucrativos e mantêm relações estreitas com outras instituições poderosas, incluindo forças de segurança e entidades religiosas. Esta interligação cria um ecossistema económico que funciona paralelamente ao mercado formal e que, em muitos casos, condiciona a actividade de empresas privadas.
A ausência de transparência e a acumulação de privilégios geram tensões com sectores empresariais que operam sem acesso às mesmas vantagens. Contudo, estas tensões raramente se traduzem em mudanças estruturais, uma vez que as bonyad desempenham funções consideradas essenciais para a manutenção do equilíbrio político. A sua influência estende‑se também ao plano internacional, através de actividades comerciais e de redes de solidariedade que reforçam a presença do Irão em regiões onde procura afirmar‑se como potência regional.
- A irriformabilidade estrutural
A ideia de que as bonyad são entidades praticamente impossíveis de reformar decorre da sua inserção no núcleo duro do sistema político. Qualquer tentativa de alterar o seu estatuto, limitar os seus privilégios ou submeter as suas actividades a escrutínio público implicaria uma redistribuição de poder que afectaria directamente actores influentes. A resistência à reforma não é apenas institucional; é também ideológica, pois as fundações são apresentadas como expressão concreta dos valores revolucionários e como instrumentos de justiça social.
A sua permanência está, portanto, ligada à própria identidade do regime. Reformá‑las significaria questionar a arquitectura dual do Estado, onde instituições religiosas e revolucionárias detêm autoridade superior às estruturas civis. Esta arquitectura foi concebida para garantir a continuidade do projecto político iniciado em 1979 e para impedir que mudanças eleitorais alterem o equilíbrio de poder. As bonyad são parte integrante deste mecanismo de continuidade.
- Percepções externas e subestimação analítica
Observadores externos tendem, por vezes, a interpretar as bonyad como meras organizações caritativas ou como resquícios de um modelo económico ultrapassado. Esta leitura ignora a sua função política e a sua capacidade de moldar dinâmicas internas. Subestimar as bonyad equivale a subestimar a complexidade do sistema iraniano, onde a economia, religião e política se entrelaçam de forma indissociável.
A análise das bonyad exige, por isso, uma abordagem que considere simultaneamente a sua dimensão económica, o seu papel social e a sua função política. A sua influência não deriva apenas dos recursos que controlam, mas da forma como esses recursos são mobilizados para reforçar alianças, neutralizar tensões e consolidar a autoridade das instituições centrais. Ignorar esta realidade conduz a interpretações incompletas sobre a resiliência do regime e sobre a dificuldade de promover reformas profundas.
- As bonyad como expressão da lógica revolucionária
A longevidade das bonyad reflecte a lógica que orientou a construção da República Islâmica: a criação de estruturas paralelas capazes de garantir a continuidade do poder independentemente das flutuações políticas. Esta lógica manifesta‑se na existência de órgãos não eleitos com autoridade superior, na multiplicação de entidades autónomas e na criação de mecanismos de controlo que escapam ao escrutínio público. As fundações caritativas são uma das expressões mais visíveis desta arquitectura.

A sua actuação combina elementos de economia planificada, práticas de mercado e princípios religiosos. Esta combinação confere‑lhes flexibilidade e capacidade de adaptação, permitindo‑lhes sobreviver a crises económicas, mudanças de governo e pressões externas. A sua resiliência não é apenas institucional; é também cultural, pois estão profundamente enraizadas na narrativa revolucionária que continua a moldar a identidade política do país.
- Considerações finais
As bonyad representam um dos pilares menos compreendidos, mas mais determinantes, da estrutura política e económica da República Islâmica. A sua origem revolucionária, a sua natureza parastatal e a sua função social conferem‑lhes um papel que ultrapassa largamente o de simples fundações caritativas. São instrumentos de governação, mecanismos de redistribuição, actores económicos e veículos de legitimação ideológica.
A sua irriformabilidade não resulta apenas da resistência de interesses instalados, mas da forma como estão integradas na arquitectura do Estado. Constituem uma peça essencial do sistema dual que caracteriza o modelo político instaurado em 1979, onde instituições religiosas e revolucionárias detêm primazia sobre as estruturas civis. Qualquer análise séria sobre a evolução futura do país deve, portanto, considerar o papel central destas fundações e a sua capacidade de moldar dinâmicas internas.
Ignorar as bonyad é ignorar um dos elementos estruturantes da ordem política contemporânea do Irão. A sua existência demonstra como a revolução não apenas transformou o Estado, mas criou mecanismos próprios de governação que continuam a definir o funcionamento do país. Compreender estas fundações é compreender uma parte essencial da lógica que sustenta a República Islâmica e da razão pela qual o sistema permanece resistente a mudanças profundas.
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