A literatura iraniana produzida após 1979 tornou-se um dos observatórios mais sensíveis para compreender a metamorfose política, social e simbólica desencadeada pela Revolução Islâmica. Entre os autores que melhor captaram esta transformação, ‘Abbas Ma‘rufi ocupa um lugar singular. A sua obra, marcada por um olhar simultaneamente íntimo e crítico, devolve ao leitor a textura humana de um país que, ao longo de quatro décadas, oscilou entre a promessa de regeneração e a experiência de um controlo ideológico cada vez mais intrusivo. O excerto que serve de ponto de partida para esta reflexão “Transformaram o Irão num Iranistão, muito bem, e agora?” condensa, numa frase, a sensação de ruptura identitária que atravessa o romance “Fereydun tinha três filhos”, um dos textos mais representativos da ficção persa contemporânea dedicada às consequências da revolução.
A expressão «Iranistão» não é apenas uma provocação retórica. Funciona como metáfora de um país submetido a um processo de reconfiguração forçada, no qual a pluralidade histórica da Pérsia é comprimida dentro de um molde ideológico rígido. O sufixo “stão”, comum a várias designações territoriais da Ásia Central, sugere um território transformado em categoria política, um espaço onde a identidade é administrada e onde a memória colectiva é filtrada por critérios de conformidade. Ao utilizar esta imagem, Ma‘rufi convoca a tensão entre a profundidade civilizacional do Irão e a tentativa de reduzir essa herança a um conjunto de normas comportamentais e religiosas impostas pelo novo regime. A literatura torna-se, assim, o lugar onde se denuncia a amputação simbólica de uma cultura milenar, submetida a um processo de simplificação que pretende apagar a diversidade interna que sempre caracterizou o mundo persa.
O romance de Ma‘rufi inscreve-se numa tradição narrativa que procura compreender a revolução não apenas como acontecimento político, mas como fenómeno antropológico. A queda da monarquia Pahlavi e a ascensão da República Islâmica não significaram apenas a substituição de um sistema de governo; implicaram uma reconfiguração profunda das relações entre indivíduo, comunidade e Estado. A literatura pós‑revolucionária, ao contrário da historiografia oficial, não se limita a narrar os factos. Interroga as feridas, silêncios, contradições e zonas de sombra que emergem quando uma sociedade é submetida a uma transformação tão abrupta. Ma‘rufi, cuja vida pessoal se cruzou com figuras centrais do novo regime desde Shirin ‘Ebadi, que o defendeu judicialmente, até Ebrahim Raisi, cujo nome surge associado ao seu caso, escreve a partir de uma posição de testemunha crítica. A sua obra não é panfletária; é, antes, um exercício de restituição da complexidade humana num contexto onde a dissidência se tornou perigosa.
A trajectória do autor reflecte, de forma paradigmática, o destino de muitos intelectuais iranianos. A breve reabertura cultural ocorrida nos últimos dias do mandato de Mohammad Khatami como ministro da Cultura permitiu-lhe retomar actividades literárias e editoriais, mas esse intervalo foi rapidamente encerrado por um novo endurecimento político que o empurrou para o exílio na Alemanha. Esta oscilação entre abertura e repressão marca profundamente a literatura iraniana contemporânea, que se desenvolve num espaço de tensão permanente entre a necessidade de expressão e o risco de censura. O exílio, longe de ser apenas uma condição geográfica, converte-se numa categoria existencial pois é o lugar onde o escritor tenta reconstruir a sua voz, preservando a ligação à sua cultura enquanto observa à distância a transformação do país.
A frase que serve de mote pode ser lida como uma acusação dirigida àqueles que, em nome da pureza revolucionária, remodelaram o Irão segundo uma visão monolítica. Mas pode também ser interpretada como interrogação dirigida à sociedade iraniana com a questão: que o futuro é possível quando a pluralidade é substituída por uma identidade homogénea? A literatura de Ma‘rufi responde a esta pergunta através de personagens que vivem num estado de suspensão, divididas entre a memória de um país que não existe e a realidade de um Estado que exige adesão total. O romance torna-se, assim, um espaço de resistência simbólica, onde se preserva a memória de um Irão plural, cosmopolita e profundamente enraizado na sua história.

A transformação do Irão em «Iranistão» implica, no universo narrativo de Ma‘rufi, a substituição da experiência vivida pela narrativa oficial. A revolução, que prometia justiça social e emancipação, converte-se num mecanismo de vigilância e controlo. A literatura, ao recuperar as vozes silenciadas, expõe a distância entre o ideal proclamado e a realidade quotidiana. Esta distância é particularmente evidente na forma como o romance aborda a relação entre o indivíduo e o Estado. A República Islâmica, ao reivindicar autoridade moral absoluta, redefine os limites da vida privada, impondo códigos de conduta que atravessam todos os domínios da existência. A narrativa de Ma‘rufi revela como esta intrusão afecta as relações familiares, os afectos, a sexualidade e até a percepção do tempo. O passado é reescrito, o presente é regulado e o futuro é condicionado por uma lógica de conformidade.
A literatura pós‑revolucionária iraniana, da qual Ma‘rufi é figura central, caracteriza-se por uma profunda consciência histórica. Os escritores deste período não se limitam a descrever a repressão; procuram compreender as raízes culturais e políticas que permitiram a ascensão de um regime tão intrusivo. A revolução de 1979 é frequentemente apresentada como resultado de uma acumulação de frustrações, desigualdades e expectativas não correspondidas. Contudo, a literatura evidencia que a promessa de regeneração rapidamente se transformou em desilusão. A imposição de uma identidade única, legitimada por uma interpretação específica do Islão, produziu um processo de homogeneização que colidiu com a diversidade étnica, linguística e cultural do país. A expressão «Iranistão» sintetiza esta tentativa de reduzir a complexidade persa a um modelo político uniforme.
O romance “Fereydun tinha três filhos” inscreve-se também numa tradição de crítica à instrumentalização da religião. Ma‘rufi não questiona a fé enquanto dimensão espiritual; o que denuncia é a sua utilização como instrumento de poder. A literatura torna-se, assim, um espaço onde se expõe a contradição entre a espiritualidade autêntica e a religiosidade institucionalizada. Esta tensão é particularmente visível na forma como o autor retrata a vida quotidiana sob o regime em que a moralidade é transformada em dispositivo de vigilância, e a religião, em vez de oferecer consolo, converte-se em mecanismo de controlo social. A narrativa evidencia como esta instrumentalização afecta a subjectividade dos indivíduos, gerando sentimentos de culpa, medo e alienação.
A obra de Ma‘rufi destaca-se também pela forma como articula memória e identidade. O Irão pós‑revolucionário é apresentado como espaço onde a memória colectiva é disputada. A tentativa de impor uma narrativa única sobre o passado colide com a persistência de memórias alternativas, transmitidas através da literatura, música, poesia e tradições familiares. O romance torna-se, assim, um acto de preservação cultural. Ao recuperar histórias marginalizadas, Ma‘rufi resiste à tentativa de apagar a pluralidade histórica da Pérsia. A literatura funciona como arquivo vivo, onde se conserva aquilo que o discurso oficial procura silenciar.
A dimensão política da obra não se esgota na crítica ao regime. Ma‘rufi interroga também a responsabilidade da sociedade iraniana na construção do presente. A frase «e agora?» funciona como desafio dirigido ao leitor; depois de transformar o país, que projecto colectivo é possível? A literatura não oferece respostas fáceis; propõe, antes, um exercício de reflexão sobre a necessidade de reconstruir o tecido social a partir da pluralidade e da memória. O romance sugere que a regeneração do Irão depende da capacidade de reconhecer a diversidade interna e de superar a lógica de exclusão que marcou as últimas décadas.
A experiência do exílio, central na vida do autor, acrescenta uma camada adicional à sua obra. O exilado vive entre dois mundos pois pertence a um país que não o reconhece e habita um espaço estrangeiro que nunca será plenamente seu. Esta condição liminar permite-lhe observar o Irão com uma distância crítica que não seria possível no interior do país. A literatura de exílio torna-se, assim, um espaço de liberdade, mas também de dor. A perda da pátria não é apenas geográfica; é afectiva, linguística e simbólica. Ma‘rufi escreve a partir desta ferida, transformando a nostalgia em instrumento de análise e a memória em forma de resistência.
A frase que serve de epígrafe sintetiza, portanto, a tensão fundamental da literatura iraniana contemporânea; a luta entre a imposição de uma identidade homogénea e a persistência de uma cultura plural. O «Iranistão» de Ma‘rufi não é apenas um país transformado; é um país ferido, onde a diversidade foi comprimida e onde a memória é disputada. A literatura, ao recuperar essa pluralidade, torna-se acto político no sentido mais profund; não porque proponha um programa, mas porque restitui ao indivíduo a capacidade de narrar a sua própria história.
A obra de Ma‘rufi permanece, assim, como testemunho de uma época e como advertência. Mostra que a transformação de um país em categoria ideológica conduz inevitavelmente à erosão da liberdade e à mutilação da memória. Mas mostra também que a literatura possui uma força própria; a capacidade de preservar aquilo que o poder tenta apagar. Ao escrever sobre um Irão transformado em «Iranistão», Ma‘rufi não se limita a denunciar; convoca a possibilidade de um futuro onde a pluralidade seja novamente reconhecida como riqueza e não como ameaça.
Bibliografia
- Abrahamian, E. A History of Modern Iran. Cambridge University Press, 2018.
- Axworthy, M. Revolutionary Iran: A History of the Islamic Republic. Penguin Books, 2014.
- Milani, A. The Shah. Palgrave Macmillan, 2011.
- Keddie, N. Modern Iran: Roots and Results of Revolution. Yale University Press, 2006.
- Takeyh, R. Guardians of the Revolution: Iran and the World in the Age of the Ayatollahs. Oxford University Press, 2009.
- Alfoneh, A. Iran Unveiled: How the Revolutionary Guards Is Transforming Iran from Theocracy into Military Dictatorship. AEI Press, 2013.
- Nasr, V. The Shia Revival: How Conflicts within Islam Will Shape the Future. W.W. Norton, 2016.
- Byman, D. A High Price: The Triumphs and Failures of Israeli Counterterrorism. Oxford University Press, 2011.
- International Crisis Group. Iran’s Political Landscape After the Protests. ICG Report, 2024.
- United Nations. Human Rights Council Reports on the Islamic Republic of Iran. ONU, 2023–2025.

